O que é ética hoje?
Sem uma discussão
lúcida sobre a ética não é
possível agir com
ética
Marcia Tiburi
A
palavra ética aparece em muitos contextos
de
nossas vidas. Falamos sobre ética em tom de
clamor
por salvação. Cheios de esperança, alguns
com certa
empáfia, exigimos ou reclamamos da falta de
ética,
mas não sabemos exatamente o que queremos
dizer
com isso. Há um desejo de ética, mas mesmo
em
relação a ele não conseguimos avançar com
ética.
Este é nosso primeiro grande problema.
O que
falta na abordagem sobre ética é
justamente
o que nos levaria a sermos éticos. Falta
reflexão,
falta pensamento crítico, falta entender “o
que é” agir
e “como” se deve agir. Com tais perguntas é
que a
ética inicia. Para que ela inicie é preciso
sair da mera
indignação moral baseada em emoções
passageiras,
que tantos acham magnífico expor, e chegar à
reflexão ética. Aqueles que expõem suas
emoções se
mostram como pessoas sensíveis, bondosas,
creem-se
como antecipadamente éticos porque emotivos.
Porém, não basta. As emoções em relação à
política,
à miséria ou à violência, passam e tudo
continua
como antes. A passagem das emoções
indignadas
para a elaboração de uma sensibilidade
elaborada
que possa sustentar a ação boa e justa - o
foco de
qualquer ética desde sempre - é o que está
em jogo.
Falta, para isso, entendimento. Ou
seja,
compreensão de um sentido comum na nossa
reivindicação pela ética. Falta, para se
chegar a isso,
que haja diálogo, ou seja, capacidade de
expor e de
ouvir o que a ética pode ser. Clamamos pela
ética,
mas não sabemos conversar. E para que haja
ética
é preciso diálogo. E, por isso, permanecemos
num
círculo vicioso em que só a inação e a
ignorância
triunfam.
Na inanição intelectual em voga,
esperamos
que os cultos, os intelectuais, os
professores,
os jornalistas, todos os que constroem a
opinião
pública, tragam respostas. Nem estes podem
ajudar
muito, pois desconhecem ou evitam a
profundidade
da questão. Há, neste contexto, quem pense
que ser
corrupto não exclui a ética. E isso não é
opinião de
ignorantes que não frequentaram escola
alguma,
mas de muitos ditos “cultos” e
“inteligentes”. Quem
hoje se preocupa em entender do que se
trata? Quem
se preocupa em não cair na contradição entre
teoria
e prática? Em discutir ética para além dos
códigos de
ética das profissões pensando-a como
princípio que
deve reger nossas relações?
Exatamente pela
falta de compreensão do seu
fundamento, do que significa a ética como
elemento
estrutural para cada um como pessoa e para a
sociedade como um todo, é que perdemos de
vista a possibilidade de uma realização da
ética. A
ética não entra em nossas vidas porque nem
bem
sabemos o que deveria entrar. Nem sabemos
como.
Mas quando perguntamos pela ética, em geral,
é
pelo “como fazemos para sermos éticos” que
tudo
começa. Aí começa também o erro em relação à
ética. Pois ético é o que ultrapassa o mero
uso que
podemos fazer da própria ética quando se
trata de
sobreviver. Ética é o que diz respeito ao
modo de nos
comportamos e decidirmos nosso convívio e o
modo
como partilhamos valores e a própria
liberdade.
Ela é o sentido da convivência, mais do que
o já
tão importante respeito do limite próprio e
alheio.
Portanto, desde que ela diz respeito à
relação entre
um “eu” e um “tu”, ela envolve pensar o
outro, o seu
lugar, sua vida, sua potencialidade, seus
direitos,
como eu o vejo e como posso defendê-
lo.
A Ética permanece, porém, sendo uma
palavra
vã,
que usamos a esmo, sem pensar no conteúdo
que
ela carrega. Ninguém é ético só porque quer
parecer
ético. Ninguém é ético porque discorda do
que se faz
contra a ética. Só é ético aquele que
enfrenta o limite
da própria ação, da racionalidade que a
sustenta
e luta pela construção de uma sensibilidade
que
possa dar sentido à felicidade. Mas esta é
mais do
que satisfação na vida privada. A felicidade
de que
se trata é a “felicidade política”, ou seja,
a vida justa
e boa no universo público. A ética quando
surgiu
na antiguidade tinha este ideal. A
felicidade na vida
privada – que hoje também se tornou debate
em torno
do qual cresce a ignorância - depende
disso.
Por isso, antes de mais nada, a
urgência que
se
tornou essencial hoje – e que por isso
mesmo, por
ser essencial, muitos não percebem – é
tratar a ética
como um trabalho da lucidez quanto ao que
estamos
fazendo com nosso presente, mas sobretudo,
com o
que nele se planta e define o rumo futuro.
Para isso
é preciso renovar nossa capacidade de
diálogo e
propor um novo projeto de sociedade no qual
o bem
de todos esteja realmente em vista.
(http://www.marciatiburi.com.br/textos/somos
livre.htm)
Questões:
Questão pública
Questão de Língua Portuguesa
Instituto AOCP - EBSERH - Advogado - 2016 • AOCP • 2016
ID 148663
Língua Portuguesa Emprego dos sinais de pontuação
AOCP
Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares - EBSERH Advogado 2016
Texto associado
Texto-base
Assinale a alternativa correta.
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