Ser de
casa
Yuri Al'Hanati
O processo de
mudar de cidade se completa
quando a urgência de visitar um lugar novo
que
abriu se impõe sobre o desejo de
aclimatação.
Até então o que há é um estranhamento
cotidiano
que pede reconhecimento para se
desestranhar.
Caminhar por um bairro novo ao qual de
repente
se precisa ir – para uma consulta médica ou
outra
frivolidade qualquer – é uma novidade ao
qual
o migrante está acostumado. O oximoro parece
inadequado, mas o migrante o reconhece. Ter,
a
cada dia na nova urbe, algo diferente a se
explorar
é um fato que descamba para a banalidade
antes
que se perceba. Ainda assim, continua-se um
explorador da própria terra, na esperança de
que
possa chamá-la de própria terra o quanto
antes.
Alguém que se mude para uma cidade
nova
precisará, necessariamente e em primeiro
lugar,
encontrar âncoras em ruas desconhecidas.
Lugares de conveniência e refúgio da
estranheza,
úteis tanto para fixar a geografia quanto
para não
ser soterrado pela indiferença do espaço. Um
bar,
um banco, um mercado, uma farmácia, alguns
comércios benfazejos à manutenção da rotina,
por
mais aquebrantada que se encontre, enfim. Em
tais
âncoras a vida nativa começa a se
desenvolver, em
seu gérmen, no interior do migrante. É lá em
que
ele descobre idiossincrasias locais,
estabelece
relações comerciais duradouras, esboça suas
primeiras conversas fiadas e registra, para
os
locais, sua estrangeirice. Afixa sua
biografia
parcial para o improvisado parceiro de
cerveja,
confessa suas necessidades aos atendentes da
farmácia, passa itens domésticos básicos
pelos
caixas do mercado, enfim, diz ao mundo sobre
de
onde veio e para onde vai. Arruma alguns
amigos,
experimenta os mesmos caminhos em direção às
mesmas instituições e enfim, sente-se
aclimatado.
Ainda não.
É quando,
portanto, parte para a situação
descrita no começo do texto que a operação o
acomete. Agora não é mais a cidade que o
examina,
partícula invasora da mesmice, mas o
contrário. A
novidade deixa de ser um enfrentamento
diário e
passa a ser um acontecimento a ser
celebrado,
um fenômeno buscado voluntariamente por quem
já superou a repetição das gentes, a rigidez
do
mapa e agora precisa de mais. Tem tempo de
urbe o suficiente, inclusive, para
experimentar
um lugar novo como uma novidade de fato, e
não apenas como mais um dos tantos ainda não
visitados. Vivencia o novo de forma
coletiva,
junto aos nativos e, ao examinar em vez de
ser
examinado, se torna, ele também, um nativo.
Ao
fim, eis o que o torna uno com o todo: o
tédio
que exige notícia, a avaliação que o torna
parte
do conclave tácito de cidadãos.
Disponível em:
.Acesso em: 16
jul. 2019.
Questão pública
Questão de Língua Portuguesa
Instituto AOCP - Prefeitura de São Bento do Sul - Administrador - 2019 • AOCP • 2019
ID 151304
Língua Portuguesa Acepções de uma palavra
AOCP
Prefeitura de São Bento do Sul Administrador 2019
Texto associado
Texto-base
Assinale a alternativa que apresenta
o significado do termo destacado no
trecho “Caminhar por um bairro novo ao
qual de repente se precisa ir – para uma
consulta médica ou outra frivolidade
qualquer – é uma novidade ao qual o
migrante está acostumado.”.
o significado do termo destacado no
trecho “Caminhar por um bairro novo ao
qual de repente se precisa ir – para uma
consulta médica ou outra frivolidade
qualquer – é uma novidade ao qual o
migrante está acostumado.”.
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