Texto I
Banhos de mar
Meu pai acreditava que todos os anos se devia
fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão fe-
liz quanto naquelas temporadas de banhos em Olin-
da, Recife.
5 Meu pai também acreditava que o banho de mar
salutar era o tomado antes de o sol nascer. Como ex-
plicar o que eu sentia de presente prodigioso em sair
de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que
nos levaria para Olinda ainda na escuridão?
10 De noite eu ia dormir, mas o coração se manti-
nha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu
acordava às quatro e pouco da madrugada e desper-
tava o resto da família. Nós nos vestíamos depressa
e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que
15 assim devia ser: em jejum.
Saímos para uma rua toda escura, recebendo
a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde.
Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se apro-
ximando. Eu me sentava bem na ponta do banco, e
minha felicidade começava. Atravessar a cidade es
cura me dava algo que jamais tive de novo. No bon
de mesmo o tempo começava a clarear, e uma luz
trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o
mundo.
25 Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a
passagem pelo campo com os bichos-de-pé: “Olhe,
um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de
deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras
da minha família, que de vez em quando me dizia
30 rindo: “Olhe, um porco de verdade.”
Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem
diária me tornava uma criança completa de alegria. E
me serviu como promessa de felicidade para o futu-
ro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me
35 agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa
ilha encantada que era a viagem diária.
LISPECTOR, C. A Descoberta do Mundo . São Paulo: Rocco,
1999, p. 175. Adaptado
Questão pública
Questão de Língua Portuguesa
CESGRANRIO - ANP - Técnico Administrativo - 2016 • CESGRANRIO • 2016
ID 164122
Língua Portuguesa Equivalência, substituição, reorganização e transformação de palavras ou trechos do texto
CESGRANRIO
Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Técnico Administrativo 2016
Texto associado
Texto-base
No início do último parágrafo do Texto I, a narradora usa a palavra alheia (“Eu não sei da infância alheia ” - l. 31), que poderia ser substituída, sem alterar o sentido original, pela seguinte expressão sinônima:
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