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Questão pública

Questão de Língua Portuguesa

FCC - CLDF - Consultor Técnico Legislativo - Taquígrafo Especialista - Inglês - 2018 • FCC • 2018

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Texto-base

As questões de números 31 a 36 referem-se ao texto que segue.

No belíssimo ensaio em que trata das representações utópicas no século XVIII, Bronislaw Baczko1 assinala que a vontade de redimir a civilização moderna dos males que a afligem e de erguer uma ‘boa vida’ coletiva está presente nas mais variadas formas do imaginário social, constituindo um marco do ‘espírito do tempo’. A busca de um modelo ideal de convivência humana evidencia-se não só na proliferação de textos redigidos nos moldes tradicionais da literatura utópica, narrando viagens a um país feliz e/ou elaborando projetos para um governo justo, mas, também, na abundância de imagens e ideias para a reforma social em uma imensa quantidade de escritos e documentos pertencentes seja à cultura douta, seja à popular (cf. Baczko, 1979, passim).
A esse respeito, lembra o comentador, a bibliografia especializada no assunto registra cerca de 80 relatos de viagens imaginárias, publicados na França entre 1676 e 1789, número que apresenta um crescimento impressionante, chegando a mais de 2 mil textos, se forem consideradas as múltiplas e diferentes projeções utópicas presentes na literatura da época
A imagem de homens livres e iguais que vivem fraternalmente em comunhão de bens, sem leis nem governos, representa, em geral, o ideal de sociedade entre as correntes progressistas da época, fascinando inclusive escritores políticos como Voltaire, Montesquieu e Diderot, que nunca defenderam a abolição da propriedade e do Estado, circunscrevendo suas propostas de reforma do poder ao âmbito de um despotismo esclarecido, fiscalizado por uma opinião pública letrada, ou de uma monarquia constitucional inspirada no modelo vigente na Inglaterra após a Revolução Gloriosa 2 .
De modo análogo, Charles Rihs 3 , em seu livro sobre os utopistas do século XVIII, chama a atenção para essas ‘antinomias’, lembrando, por exemplo, o descompasso entre o ideário social elitista de Voltaire e suas observações, feitas ao historiar os costumes, a respeito da felicidade dos povos do Novo Mundo e das tribos africanas que ignoram “o meu e o teu” (cf. Rihs, 1970, p. 14). Na mesma linha, Montesquieu, rígido defensor do ‘espírito das leis’ em sua obra principal, retrata com entusiasmo, nas Cartas persas, a organização social do pequeno reino árabe dos Trogloditas, onde todos trabalham jocosa e espontaneamente pelo bem comum. Além das divagações utópicas suscitadas pela investigação geográfica e histórica de culturas não-europeias, os homens das Luzes empreendem também a aventura filosófica, suspensa entre o real e o imaginário, como o Suplemento à Viagem de Bougainville, de Diderot, ou o Eldorado, em Cândido, de Voltaire, visões de paraísos onde os homens vivem felizes, sem brigas pela riqueza e pelo poder.
(Adaptado de PIOZZI, Patrizia. Os arquitetos da ordem anárquica: de Rousseau a Proudhon e Bakunin. São Paulo: Editora UNESP, 2006, p.73-74)
Obs.:
1 Bronislaw Baczko (1924-2016), filósofo e historiador de ideias polonês.
2 Revolução Gloriosa ou Segunda Revolução Inglesa: movimento revolucionário de caráter pacífico, ocorrido na Inglaterra entre os anos de 1688 e 1689, que gerou a troca do absolutismo monárquico pela monarquia parlamentar.
3 Charles Rihs, autor de obra sobre os filósofos utopistas.
A imagem de homens livres e iguais que vivem fraternalmente em comunhão de bens, sem leis nem governos, representa, em geral, o ideal de sociedade entre as correntes progressistas da época, fascinando inclusive escritores políticos como Voltaire, Montesquieu e Diderot, que nunca defenderam a abolição da propriedade e do Estado, circunscrevendo suas propostas de reforma do poder ao âmbito de um despotismo esclarecido, fiscalizado por uma opinião pública letrada, ou de uma monarquia constitucional inspirada no modelo vigente na Inglaterra após a Revolução Gloriosa.
O comentário que o trecho acima reproduzido, em seu contexto, legitima é:
A
O isolamento de sem leis nem governos por meio de vírgulas sinaliza que, por contemplar ideias inerentes à vida em comunhão de bens, o segmento exprime conteúdo acessório, sem o mesmo peso argumentativo que tem o adjunto adverbial anterior.
B
A expressão em geral delimita a dimensão segundo a qual deve ser compreendida a ideia de que A imagem de homens livres e iguais [...] representa o ideal de sociedade entre as correntes progressistas da época.
C
A referência a nunca defenderam a abolição da propriedade e do Estado , embora não tendo sido motivada por traço algum de sentido anterior, tem sua razão de ser pela relação que estabelece com a oração introduzida por circunscrevendo.
D
O emprego do advérbio inclusive denota que não havia, à época, nenhuma expectativa de que escritores políticos pudessem se sentir atraídos por imagens de homens livres e iguais vivendo fraternalmente em comunhão de bens.
E
Os limites que Voltaire, Montesquieu e Diderot impuseram a suas propostas de reforma do poder confirmavam teoria social de países que sustentavam que a sociedade existe de forma independente do poder exercido pelo Estado.
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