'Quer adressar?', me perguntou a moça De início não entendi o verbo cravado no coração da frase e, usando o etarismo a meu favor, pedi graciosamente, por favor, que a moça repetisse.
O cenário era a loja de um shopping no Leblon, onde eu negociava com ela, vendedora educadíssima, os últimos detalhes da compra de um produto volumoso que, sem carro, eu não podia levar naquele momento. Foram necessárias três repetições da frase até que – como se falava no tempo do orelhão, quando o português era ouvido por aqui – a ficha caiu:
“Eu posso adressar o produto?”, era o que perguntava a moça, fazendo-se finalmente entender. A moça queria ostentar na fala o mesmo padrão internacional do shopping.
A pureza vernacular não linka com a minha prosa vadia de cronista. A ideia aqui é mexer com a língua, roçar na de Luís de Camões e – como o tamanduá esticando a dele para pegar as formigas – tirar prazer disso. Para manter o emprego, equilibro num parágrafo as ordens do manual de redação – exibindo às vezes uma mesóclise de polainas – e já no parágrafo seguinte caio de boca – com o piercing no lábio inferior – no saboreio do último barbarismo ouvido na esquina. Nada a ver com os rigores de um professor de português. O target não é preparar o leitor para a nota mil do Enem, mas meter a língua onde não se foi chamado.
A propósito. Preciso dizer que quando eu, cliente, finalmente entendi o que a moça na loja do shopping queria dizer com a proposta de “adressar” a compra, eu aquiesci jovial – e me fiz up to date:
“Sim, por favor, adressa, sim”.
(Trecho adaptado da crônica de Joaquim Ferreira dos Santos, publicada em “O Globo”.)
Questão pública
Questão de Língua Portuguesa
Assistente Legislativo - Técnico em Informática • FGV • 2026
ID 208219
Língua Portuguesa Interpretação de Texto
FGV
Assembleia Legislativa do Estado de Rondônia (ALE-RO) Assistente Legislativo - Técnico em Informática 2026
Texto associado
Texto para as questões 1 a 6
Em relação ao texto, assinale a afirmativa correta.
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