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Ainda antes do dia de São José, o prefeito inaugurou a escola, que teve a construção — com telhas de cerâmica que nenhuma casa de trabalhador poderia ter — concluída no verão. O prédio recebeu o nome de Antônio Peixoto, pai dos Peixoto. Homem que, diziam, foi proprietário da fazenda, mas nunca havia posto os pés ali. Todos os moradores estiveram presentes à inauguração: as mulheres de lenço na cabeça; os homens de chapéu e enxada na mão; as crianças rindo da novidade, um pequeno prédio de três salas, e sem o tal banheiro que ninguém tinha mesmo. Da família Peixoto se fez presente também a irmã mais velha, que nunca havia visto por ali. (...) Quando retiraram o papel que cobria a placa com o nome de seu pai falecido, ela quase caiu, num choro convulsivo que fez com que seus irmãos a amparassem para que não desabasse de vez no chão. Nenhuma palavra de agradecimento a meu pai, que, na noite em que celebrava o jerê de santa Bárbara, havia pedido, quase ordenado, o cumprimento da promessa de construção da escola feita à santa no passado. Mas ele estava lá, em pé, um dos primeiros da audiência, segurando a mão de Domingas, e ao lado de minha mãe, com o rosto satisfeito. Pouco importava, poderia ver em seu semblante a luta que havia travado com as forças da encantada santa Bárbara para que tivéssemos um destino diferente do seu, para que não fôssemos analfabetos. Meu pai não sabia nem mesmo assinar o nome, e fez o que estava ao seu alcance para trazer uma escola para a fazenda, para que aprendêssemos letra e matemática.

Itamar Vieira Júnior. Torto arado. São Paulo: Todavia, 2018, p. 95-96.

Julgue os itens que se seguem, em relação ao texto precedente.

No texto, o foco narrativo na primeira pessoa, identificado tanto na flexão verbal quanto no sistema pronominal, evidencia a ênfase na função emotiva da linguagem, sendo o ponto de vista de um personagem interno à narrativa recurso argumentativo que confere veracidade aos acontecimentos narrados.

C Certo
E Errado
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Texto 12A1-I

Ao lado estava a caixinha de costura, o novelo de linha, o papel com agulhas — a tesoura enferrujada da avó mal cortava os trapos. Mordia a língua, caprichando, entortava a cabeça, mas acabava rasgando os pedaços de pano. Precisava mandar amolar a tesoura, precisava mandar amolar a tesoura, “está cheia de dente, um serrote”. Há muito tempo pensava em amolar aquele traste.
A boneca Ceci esperava de olhos duros o vestido novo — porque em nova forma — se ajeitando nos retalhos furta-cores roubados da avó, da mãe, e até mesmo de Mundoca, que não queria saber de brincadeira.
— O tempo todo com essa boneca, está doida? “Se ela soubesse como Ceci consola a gente.”
As tardes sempre paradas quando o rio baixava, sentava-se na beira do cais, a água no tornozelo, fria e suave, mais tarde a tocar a ponta dos dedos, até ficar a um palmo ou dois de distância, espumando, correndo.
O rio enchia e secava, e ela nas pedras mornas — o barulho de tudo sem uma identificação precisa. Quantos vestidinhos ganhou Ceci naquelas tardes sem conta? Quando não tinha mais retalhos, virava o último vestido pelo avesso, o sujo sumia, Ceci não tinha mais queixas, “agora você está nova em folha”.

Francisco de Assis Almeida Brasil. Beira rio, beira vida. 15.ª edição, Teresina: Edições do Autor, 2013, p. 19.

Assinale a opção correta em relação a aspectos linguísticos do primeiro período do texto 12A1-I.

A Caso o trecho que sucede o travessão fosse reescrito na voz passiva, a forma verbal “cortava” assumiria a forma era cortado .
B A forma verbal “estava” poderia, sem prejuízo da correção gramatical do período, ser flexionada no plural — estavam .
C A forma verbal “estava” é flexionada no singular porque concorda com a expressão “a tesoura enferrujada da avó”, destacada no período.
D A primeira oração que compõe o período está na ordem direta.
E O segmento “da avó” funciona sintaticamente como complemento nominal de “enferrujada”.
Órgão: Secretaria de Estado de Educação do Piauí Cargo: Professor de Educação Básica - Área: Português Prova: CESPE/CEBRASPE - SEDUC PI - Professor de Educação Básica - Área: Português - 2026
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Atenção : Para responder às questões de números 8 a 15, baseie-se no texto seguinte.

Carteiros em tempo de internet

Não sei se com internet os postais, as cartas e os carteiros vão se extinguir completamente. Sei que a amizade está ficando virtual demais. Temo que os amigos desapareçam, já que nem ouço a voz de alguns deles, pelo telefone. Ver e abraçar um amigo tornou-se uma coisa complicada, quase uma façanha numa cidade cujos moradores se deslocam com rapidez por baixo da terra.
Cartas? Uma mensagem eletrônica é um contato muito mais rápido, quase instantâneo. Mas será mais humano? E ainda por cima há as tantas mensagens indesejáveis proliferando o tempo todo. Não há bloqueador infalível, de modo que elas se tornam uma espécie de tormento programado e compulsório.
Essa invasão é o lado bárbaro da internet: a propaganda desenfreada, amalucada, nociva, mentirosa, sem falar nas informações falsas e nas notícias distorcidas. Tal multiplicação descontrolada de novidades remonta, diga-se, a tempos antigos: em 1867, depois de visitar a Exposição Universal de Paris, o grande escritor Gustave Flaubert escreveu: “o ser humano não foi criado para devorar o infinito.”
Mas, enfim, nem mesmo nossos defeitos são perfeitos... Devo à internet um contato recente com uma amiga espanhola que não via desde o século passado. Ela me enviou uma mensagem em catalão* e recordou uma brincadeira que fazia sobre sua língua materna. Na longa carta virtual lembrou uma passagem da nossa vida, onde dividíamos um apartamento pequeno em Barcelona. E por fim revelou que havia encontrado um caderno, já manchado pelo tempo: meu diário catalão, onde registrava minhas andanças por vários lugares da Espanha.
Já dava esse diário por perdido, que é o destino das palavras de tantos diários. Agora esse achado da minha amiga voará de Barcelona até São Paulo num envelope de papel forte que um carteiro, mensageiro andarilho das cidades, me entregará antes de perder seu emprego para a internet. Estamos vivendo, de fato, num tempo e num mundo cheios de transições.

(Adaptado de: HATOUM, Milton. Um solitário à espreita. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 116-118)

Catalão: língua falada sobretudo na região da Catalunha, Espanha, onde se encontra a cidade de Barcelona.

Atentando para a estruturação do texto, constata-se que no

A quinto parágrafo admite-se que há épocas cujos valores aparentemente assentados dão passagem a valores outros.
B primeiro parágrafo ressalta-se a principal virtude da internet, que é a desejável intensificação da rapidez nas comunicações humanas.
C segundo parágrafo acusa-se a excessiva velocidade na emissão de mensagens que afetam nossa própria humanidade.
D terceiro parágrafo desmente-se aquela espécie de profecia que se representava na frase citada de Gustave Flaubert.
E quarto parágrafo sugere-se que uma desejável remoção das operações virtuais poderia vir com a retomada de línguas remotas.
Órgão: Concurso Público Unificado de Pernambuco Cargo: Analista de Gestão em Metrologia e Qualidade Industrial - Área: Analista Jurídico Prova: FCC - CPU - PE - Analista de Gestão em Metrologia e Qualidade Industrial - Área: Analista Jurídico - 2026
Texto associado
Atenção : Para responder às questões de números 5 a 7, leia o texto abaixo.

Nos poços

Primeiro você cai num Poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê.

(Adaptado de: ABREU, Caio Fernando. O ovo apunhalado, 2025)

O título " Nos poços " articula-se com o texto por meio da

A indicação da pluralidade espacial, mas sem relação direta com o percurso interior narrado.
B representação apenas do local físico da ação, sem envolver dimensão emocional ou reflexiva.
C utilização como marcador narrativo sem relevância simbólica ou função expressiva clara.
D restrição do texto à descrição objetiva de uma paisagem subterrânea e literal.
E antecipação da imagem do mergulho em sucessivos níveis de interioridade simbólica.
Texto associado
Atenção : Para responder às questões de números 21 a 26, baseie-se no texto seguinte.

Ter atenção, poder analisar

No latim, a palavra auditor indica "o que ouve", sobretudo aquele que ouve com atenção, derivada do verbo audio , que é estar com os ouvidos atentos. Nuтa аcepção mais técnica, auditor indicava o responsável por ouvir e analisar os atos de um administrador, quando este expunha oralmente as atividades por que fosse responsável. Depois, o termo se estendeu para quem julga a documentação escrita de atividades financeiras, escolhas administrativas, relatórios, prestação de contas etc.
Também se chama audição o momento em que alguém, desejando atuar numa peça teatral, num filme, num evento artístico, numa gravação, submete-se à comprovação de um talento específico desejável. Também aqui o auditor (produtor, diretor, responsável pelo futuro espetáculo) é aquele que olhará e ouvirá com atenção o desempenho do ou da postulante. Permanece a tarefa final de um veredito, com a responsabilidade implícita de uma avaliação criteriosa.
O verbo audio , no dicionário latino, está muito perto do verbo audeo , que significa ousar, ter a audácia de aventurar-se. A proximidade das palavras é caprichosa, mas também pode ser insinuante e provocadora. Neste caso de audio / audeo parece estar de algum modo presente uma advertência singela: a quem se empenha em julgar o que ouve ou vê, cabe ouvir e ver muito bem, de modo aplicado.
Ainda para ficarmos no latim, podemos lembrar a conhecida expressão "s apere aude ", que significa "ouse saber", isto é, "ouse pensar por si mesmo" (Kant). Que aproveitemos, pois, a lição de ousadia do saber conhecer e do saber ouvir para bem analisar pessoas e fatos. As palavras podem ser sugestivas e inspiradoras em seus mais casuais entrelaçamentos.

(Alcebíades Villares, a editar)

Está correta a seguinte observação acerca do emprego de um elemento do texto:

A Ao se atribuir à ordenação das palavras num dicionário qualidades como insinuante e provocadora (3º parágrafo), esses adjetivos estão empregados com valor denotativo, ou literal.
B A expressão Ainda para ficarmos no latim (4º parágrafo) deve ser entendida como ao retificarmos esse uso do latim.
C Transpondo para a voz passiva o verbo da frase Que aproveitemos , pois, a lição de ousadia , a forma resultante será tenhamos aproveitado.
D Na expressão A proximidade das palavras é caprichosa (3º parágrafo), o termo sublinhado está no sentido de desleixada .
E Em com a responsabilidade implicita de uma avaliação criteriosa (2º parágrafo), considera-se tácita a responsabilidade de se avaliar algo com critério.
Órgão: Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo Cargo: Auditor Fiscal da Receita Estadual - Área Gestão Tributária Prova: FCC - SEFAZ SP - Auditor Fiscal da Receita Estadual - Área Gestão Tributária - 2026
Texto associado
Atenção : Considere o texto abaixo para responder às questões de números 18 a 20.

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não.
Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

(LISPECTOR, Clarice. "Por não estarem distraídos", Para não esquecer, Rocсо, 2020)

Em Foram então aprender que, não se estando distraído , o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue (2º parágrafo), os trechos sublinhados expressam, na ordem dada,

A uma circunstância de tempo e uma finalidade.
B duas recomendações.
C uma causa e uma consequência.
D duas condições.
E uma decorrência e uma recomendação.
Texto associado
Atenção : Considere o texto abaixo para responder às questões de números 18 a 20.

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não.
Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

(LISPECTOR, Clarice. "Por não estarem distraídos", Para não esquecer, Rocсо, 2020)

Considere as seguintes afirmações sobre o texto.

I. Os segmentos quiseram ter o que já tinham e quiseram ser, eles que eram (2º parágrafo) são paradoxos que ilustram o descompasso de duas pessoas que estão em momentos distintos da relação.
II. O verbo "errar" (2º parágrafo) é usado em seus dois sentidos, de equivocar-se e de perambular - correlatos, respectivamente, de erro e errância.
III. O uso do "se" em como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta (1º parágrafo), presta-se a indeterminar o sujeito, de modo a expressar uma ideia geral, na qual se enquadra o comportamento do casal.

Está correto o que consta APENAS de

A II e III.
B I e III.
C I.
D I e II.
E III.
Texto associado
Atenção : Para responder às questões de números 1 a 4, leia o texto abaixo.

Praia anoitecendo

Agora há apenas um espaço
Como esse lá fora,
uma distância infinita
entre mim, você e as verdades,
espero mesmo
que a gente continue se desencontrando
Que os ventos nos soprem direções contrárias
Que os caminhos sejam preenchidos de novas lembranças
Que à vida sempre, sempre exerça à sua natureza: a mudança
Para entender que
O teu abraço,
O lugar no teu lado é
dos teus olhos, nada me cabiam ali
Foi sempre pequeno, e eu com tanto sentir
E você me pedindo pra ser menos
Como? Como segurar um oceano inteiro no peito?
Para lhe dar conforto me espremia ali no canto
No canto das tua incertezas
Na certeza que em algum momento
Eu poderia sentir tudo sem medo...

Até que aceitei, que o mar não funciona para barco pequeno.

(Adaptado de: Bárbara Primavera. Praia anoitecendo. Disponível em: https://florescerpoesia.blogspot.com/2025/03/praia-anoitecendo.html)

O sentido geral do poema se constitui predominantemente em torno de

A vocabulário técnico e racional, que esvazia a experiência afetiva e aproxima o texto da objetividade.
B termos ligados à imobilidade e ao repouso, representando o conformismo afetivo do enunciador.
C palavras e expressões de movimento e espaço, por meio da figura simbólica da distância como amadurecimento.
D substantivos concretos que substituem valores emocionais por descrições objetivas e neutras ao longo do texto.
E verbos de percepção sensorial, que atenuam a dimensão simbólica do poema e reforçam o seu realismo.
Texto associado
Atenção : Para responder às questões de números 9 a 14, baseie-se no texto abaixo.
Um inseto sentimental
A primeira frase da crônica é quase sempre a mais difícil, mas quando as palavras aparecem no papel, a mão que segura a caneta fica mais leve e envereda para um lugar desconhecido...
No entanto, basta surgir um inseto para mudar toda a história: o movimento da mão é interrompido pelo intruso, que voa em círculos e zoa com insistência. Uma picada no pescoço ou no braço pode acabar com a alegria de escrever uma crônica, mesmo sabendo que vou reescrevê-la mais tarde. Deixo a caneta na mesa, pego ao acaso uma revista e tento afugentar o intruso. Não há mais silêncio, já me desconcentrou, apagou a ideia luminosa da crônica que nasceria.
Apago a lâmpada: talvez ele se acalme na penumbra. O voo lento pode ser uma trégua e, pensando bem, o inseto não é tão ameaçador assim. De repente, um voo rápido em espiral, e a três palmos ele se equilibra no ar, helicóptero perfeito. Uns segundos depois, navega na horizontal e se refugia numa caixa de papelão.
Acendo a lâmpada, me aproximo da caixa e vejo meu ex-inimigo no centro de uma fotografia antiga. Repousa no rosto de uma mulher ainda jovem, que sorri para a lente do fotógrafo. Pego com cuidado a foto, saio do quarto e o inseto some na tarde morna. Minha mãe me abraça numa manhã de 1960: nós dois aninhados no banco da praça da Matriz, aonde ela levara seu menino para ver o aviário e conversar com os pássaros. Devo essa lembrança ao inseto estranho e sentimental, que me roubou a ideia de uma crônica, mas me deu outra. Agora, quando já escurece, é pegar a caneta e escrever a primeira frase, quase sempre a mais difícil.
(Adaptado de HATOUM, Milton. Um solitário à espreita. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 11-12)

Entre os recursos da elaboração deste texto, pode-se afirmar que

A a expressão Agora (...) é pegar a caneta (4º parágrafo) considera uma providência hipotética a ser tomada.
B as expressões rosto de uma mulher e seu menino acabam por tornar ambíguas as identidades dessas personagens.
C na oração já me desconcentrou (2º parágrafo) o termo que está subentendido como sujeito é "silêncio".
D a hipótese manifesta em pode ser uma trégua é logo contraditada pela constatação não é tão ameaçador assim (3º parágrafo).
E a afirmação a caneta fica mais leve e envereda para um lugar desconhecido (1º parágrafo) constitui uma personificação .
Texto associado
Texto 2

Metamorfose

Luís Fernando Veríssimo

Uma barata acordou um dia e viu que tinha se transformado num ser humano. Começou a mexer suas patas e descobriu que só tinha quatro, que eram grandes e pesadas e de articulação difícil. Acionou suas antenas e não tinha mais antenas. Quis emitir um pequeno som de surpresa e, sem querer, deu um grunhido. As outras baratas fugiram aterrorizadas para trás do móvel. Ela quis segui-las, mas não coube atrás do móvel. O seu primeiro pensamento humano foi: que vergonha, estou nua! O seu segundo pensamento humano foi: que horror! Preciso me livrar dessas baratas!
Pensar, para a ex-barata, era uma novidade. Antigamente, ela seguia o seu instinto. Agora precisava raciocinar. Fez uma espécie de manto da cortina da sala para cobrir sua nudez. Saiu pela casa, caminhando junto à parede, porque os hábitos morrem devagar. Encontrou um quarto, um armário, roupas de baixo, um vestido. Olhou-se no espelho e achou-se bonita. Para uma ex-barata. Maquilou-se. Todas as baratas são iguais, mas uma mulher precisa realçar a sua personalidade. Adotou um nome: Vandirene. Mais tarde descobriu que só um nome não bastava. A que classe pertencia? Tinha educação? Referências? Conseguiu, a muito custo, um emprego como faxineira. Sua experiência de barata lhe dava acesso a sujeiras mal suspeitadas; era uma boa faxineira.
[...]
Vandirene acordou um dia e viu que tinha se transformado de novo numa barata. Seu penúltimo pensamento humano foi: meu Deus, a casa foi dedetizada há dois dias! Seu último pensamento humano foi para o seu dinheiro rendendo na financeira e o que o safado do marido, seu herdeiro legal, faria com tudo. Depois desceu pelo pé da cama e correu para trás de um móvel. Não pensava mais em nada. Era puro instinto. Morreu em cinco minutos, mas foram os cinco minutos mais felizes da sua vida. Kafka não significa nada para as baratas.

Adaptado de: https://ielrs.blogspot.com/2012/12/metamorfose-luis-fernando-verissimo.html. Acesso em: 28 mar. 2026.

Na obra A Metamorfose , de Franz Kafka, um homem desperta transformado em inseto. Considerando essa informação e a crônica de Luís Fernando Veríssimo (Texto 2), a referência ao texto-fonte permite reconhecer um procedimento de

A paráfrase, pois o texto retoma o conteúdo do original sem alteração significativa de sentido.
B paródia, pois reelabora intertextualmente um motivo literário conhecido em chave de inversão e humor.
C citação neutra, pois a menção ao autor não altera a construção do texto.
D imitação fiel, pois a narrativa conserva a organização essencial do texto-fonte.
E negação metalinguística, pois o texto discute criticamente a linguagem da obra de Kafka.
Órgão: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará Cargo: Professor - Área: Língua Portuguesa Prova: Instituto AOCP - IFCE - Professor - Área: Língua Portuguesa - 2026