Texto 14A1-I
As línguas são, de certo ponto de vista, totalmente equivalentes quanto ao que podem expressar, e o fazem com igual facilidade (embora lançando mão de recursos bem diferentes). Entretanto, dois fatores dificultam a aplicação de algumas línguas a certos assuntos: um, objetivo, a deficiência de vocabulário; outro, subjetivo, a existência de preconceitos.
É preciso saber distinguir claramente os méritos de uma língua dos méritos (culturais, científicos ou literários) daquilo que ela serve para expressar. Por exemplo, se a literatura francesa é particularmente importante, isso não quer dizer que a língua francesa seja superior às outras línguas para a expressão literária. O desenvolvimento de uma literatura é decorrência de fatores históricos independentes da estrutura da língua; a qualidade da literatura francesa diz algo dos méritos da cultura dos povos de língua francesa, não de uma imaginária vantagem literária de se utilizar o francês como veículo de expressão. Victor Hugo poderia ter sido tão importante quanto foi mesmo se falasse outra língua — desde que pertencesse a uma cultura equivalente, em grau de adiantamento, riqueza de tradição intelectual etc., à cultura francesa de seu tempo.
Igualmente, sabe-se que a maior fonte de trabalhos científicos da contemporaneidade são as instituições e os pesquisadores norte-americanos; isso fez do inglês a língua científica internacional. Todavia, se os fatores históricos que produziram a supremacia científica norte-americana se tivessem verificado, por exemplo, na Holanda, o holandês nos estaria servindo exatamente tão bem quanto o inglês o faz agora. Não há no inglês traços estruturais intrínsecos que o façam superior ao holandês como língua adequada à expressão de conceitos científicos.
Não se conhece caso em que o desenvolvimento da superioridade literária ou científica de um povo possa ser claramente atribuído à qualidade da língua desse povo. Ao contrário, as grandes literaturas e os grandes movimentos científicos surgem nas grandes nações (as mais ricas, as mais livres de restrições ao pensamento e também — ai de nós! — as mais poderosas política e militarmente). O desenvolvimento dos diversos aspectos materiais e culturais de uma nação se dá mais ou menos harmoniosamente; a ciência e a arte são também produtos da riqueza e da estabilidade de uma sociedade.
O maior perigo que correm as línguas, hoje em dia, é o de não desenvolverem vocabulário técnico e científico suficiente para acompanhar a corrida tecnológica. Se a defasagem chegar a ser muito grande, os próprios falantes acabarão optando por utilizar uma língua estrangeira ao tratarem de assuntos científicos e técnicos.
Mário A. Perini. O rock português (a melhor língua para
fazer ciência) . In : Ciência Hoje , 1994 (com adaptações).
Considerando os sentidos e os aspectos linguísticos do texto 14A1-I, julgue os itens a seguir.
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Texto associado
Conto: uma morada
O sonho de uma velha
senhora
Juremir Machado da
Silva
Contava-se que ela havia passado a vida lutando
contra homens, doenças e intempéries. Dizia-se
que criara sozinha onze filhos e enfrentara oito
tormentas de derrubar casas e deixar muita gente
desesperada. Durante muito tempo, teve um
apelido: a flagelada. Era alta, magérrima e de
olhos muito negros, duas bolas escuras que
pareciam cintilar à beira do abismo. Era uma
mulher de fala forte, voz rouca, agravada pelo
cigarro, não menos de trinta por dia, do palheiro ao
sem filtro, o que viesse, qualquer coisa que lhe
permitisse sair do ar.
– Meu silêncio diz tudo – era o máximo que
concedia a algum vizinho.
Apesar do seu jeito esquisito, era amada por
quase todos. Gostava-se da sua coragem, da sua
franqueza, alguns até falavam de uma ternura
escondida por trás dos gestos de fera indomável.
Muitos nem sabiam mais o nome dela. Era
chamada simplesmente de “a velha”. Contava-se
que prometera a si mesma viver cem anos para
debochar das agruras da vida. Servira durante
décadas de parteira, de benzedeira e até de
responsável pela ordem nas redondezas. Impunha
respeito, resolvia litígios, dava bons conselhos,
sentia pena das jovens apaixonadas. Com o
passar do tempo, ficou mais impaciente e menos
propensa a ouvir longas e repetitivas histórias.
(...)
Destino – Não se contava, porém, quando havia
perdido tudo. Ficara sem casa. Vivia na cidade
num quarto emprestado por um velho conhecido.
Quando se imaginava que estava esgotada, que
só esperava o fim para se livrar dos tormentos, ela
se revelou mais firme do que nunca. Queria viver.
Mais do que isso, deu para dizer a quem quisesse
ouvir que tinha um sonho.
– Um sonho?
– Sim, a Velha tem um
sonho.
A notícia espalhou-se como um acontecimento
improvável. Com o que podia sonhar a velha?
Contava-se que homens faziam apostas enquanto
jogavam cartas ou discutiam futebol, mulheres
especulavam sobre esse sonho, crianças se
interessavam pelo assunto, todos queriam entender como podia aquela mulher árida ter um
sonho, algo que a maioria, mais nova, já não tinha.
Por alguns meses, pois
ela fazia do seu novo
silêncio um trunfo, foi cercada de atenção na
busca obsessiva por uma resposta. Teriam até lhe
oferecido dinheiro para revelar o seu sonho num
programa de rádio.
Conta-se que numa tarde mormacenta de janeiro,
com um temporal prestes a desabar, ela disse com
a sua voz grave um pouco mais vibrante para
quem pudesse ouvir (nunca se soube quem foi o
primeiro saber):
– Quero voltar para casa.
Que casa era
essa? A velha queria retornar ao
lugar onde havia nascido, um lugar perdido na
campanha onde vicejava solitário um cinamomo.
Sonhava em ter uma casinha ali para viver os seus
últimos anos. Desse ponto de observação, podia-se
enxergar um enorme vazio. A comunidade,
sempre tão dispersa, mobilizou-se como se, de
repente, tudo fizesse sentido. O dono da terra
aceitou que lhe erguessem um rancho no meio do
nada para que ela fincasse suas raízes por alguns
anos. Um mutirão foi organizado para erguer a
morada. Até políticos contribuíram para a compra
do modesto material – tábuas, pregos, latas –
necessário à construção da residência. Num final
de semana de fevereiro, a casa foi erguida.
Um rancho de duas peças: quarto
e cozinha. Uma
latrina a dez passos do cinamomo. Caía a noite
quando tudo ficou pronto. Os homens
embarcaram na carroceria de um velho caminhão
e partiram. Ela ficou só no lugar que escolhera
para viver depois de tantas lutas encarniçadas
com o destino. Sentia-se vitoriosa. A lua cheia
banhou os campos naquela noite. Ela passeou até
onde as velhas pernas lhe permitiram. Deitou-se
no catre com colchão novo. Fez questão de
manter a sua cama. Morreu ao amanhecer com o
sol faiscando na cobertura de lata reluzindo de tão
nova e duradoura.
Adaptado de:
< https://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/contouma-
morada-1.392657 >. Acesso em 26 jan. 2020.
O sonho de uma velha
senhora
Juremir Machado da
Silva
Contava-se que ela havia passado a vida lutando
contra homens, doenças e intempéries. Dizia-se
que criara sozinha onze filhos e enfrentara oito
tormentas de derrubar casas e deixar muita gente
desesperada. Durante muito tempo, teve um
apelido: a flagelada. Era alta, magérrima e de
olhos muito negros, duas bolas escuras que
pareciam cintilar à beira do abismo. Era uma
mulher de fala forte, voz rouca, agravada pelo
cigarro, não menos de trinta por dia, do palheiro ao
sem filtro, o que viesse, qualquer coisa que lhe
permitisse sair do ar.
– Meu silêncio diz tudo – era o máximo que
concedia a algum vizinho.
Apesar do seu jeito esquisito, era amada por
quase todos. Gostava-se da sua coragem, da sua
franqueza, alguns até falavam de uma ternura
escondida por trás dos gestos de fera indomável.
Muitos nem sabiam mais o nome dela. Era
chamada simplesmente de “a velha”. Contava-se
que prometera a si mesma viver cem anos para
debochar das agruras da vida. Servira durante
décadas de parteira, de benzedeira e até de
responsável pela ordem nas redondezas. Impunha
respeito, resolvia litígios, dava bons conselhos,
sentia pena das jovens apaixonadas. Com o
passar do tempo, ficou mais impaciente e menos
propensa a ouvir longas e repetitivas histórias.
(...)
Destino – Não se contava, porém, quando havia
perdido tudo. Ficara sem casa. Vivia na cidade
num quarto emprestado por um velho conhecido.
Quando se imaginava que estava esgotada, que
só esperava o fim para se livrar dos tormentos, ela
se revelou mais firme do que nunca. Queria viver.
Mais do que isso, deu para dizer a quem quisesse
ouvir que tinha um sonho.
– Um sonho?
– Sim, a Velha tem um
sonho.
A notícia espalhou-se como um acontecimento
improvável. Com o que podia sonhar a velha?
Contava-se que homens faziam apostas enquanto
jogavam cartas ou discutiam futebol, mulheres
especulavam sobre esse sonho, crianças se
interessavam pelo assunto, todos queriam entender como podia aquela mulher árida ter um
sonho, algo que a maioria, mais nova, já não tinha.
Por alguns meses, pois
ela fazia do seu novo
silêncio um trunfo, foi cercada de atenção na
busca obsessiva por uma resposta. Teriam até lhe
oferecido dinheiro para revelar o seu sonho num
programa de rádio.
Conta-se que numa tarde mormacenta de janeiro,
com um temporal prestes a desabar, ela disse com
a sua voz grave um pouco mais vibrante para
quem pudesse ouvir (nunca se soube quem foi o
primeiro saber):
– Quero voltar para casa.
Que casa era
essa? A velha queria retornar ao
lugar onde havia nascido, um lugar perdido na
campanha onde vicejava solitário um cinamomo.
Sonhava em ter uma casinha ali para viver os seus
últimos anos. Desse ponto de observação, podia-se
enxergar um enorme vazio. A comunidade,
sempre tão dispersa, mobilizou-se como se, de
repente, tudo fizesse sentido. O dono da terra
aceitou que lhe erguessem um rancho no meio do
nada para que ela fincasse suas raízes por alguns
anos. Um mutirão foi organizado para erguer a
morada. Até políticos contribuíram para a compra
do modesto material – tábuas, pregos, latas –
necessário à construção da residência. Num final
de semana de fevereiro, a casa foi erguida.
Um rancho de duas peças: quarto
e cozinha. Uma
latrina a dez passos do cinamomo. Caía a noite
quando tudo ficou pronto. Os homens
embarcaram na carroceria de um velho caminhão
e partiram. Ela ficou só no lugar que escolhera
para viver depois de tantas lutas encarniçadas
com o destino. Sentia-se vitoriosa. A lua cheia
banhou os campos naquela noite. Ela passeou até
onde as velhas pernas lhe permitiram. Deitou-se
no catre com colchão novo. Fez questão de
manter a sua cama. Morreu ao amanhecer com o
sol faiscando na cobertura de lata reluzindo de tão
nova e duradoura.
Adaptado de:
< https://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/contouma-
morada-1.392657 >. Acesso em 26 jan. 2020.
O termo em destaque, no trecho “Não se
contava, porém , quando havia perdido
tudo.”, NÃO poderia ser substituído, sem
alteração de sentido, por
No excerto “[...] tornando tanto a polícia
mais eficaz e reconhecida como também
a população mais ativa e participativa
nesse processo.”, a expressão em
destaque indica uma relação de
Texto associado
Para responder às questões de 1 a 5 , leia o texto abaixo.
Espetáculos públicos e exibição de animais
Desde que se tem notícia da existência do homem sobre a terra, está ele, de uma forma ou de outra, interagindo com os animais. Das arenas romanas até nossos dias, vê-se que o homem pouco evoluiu, vez que ainda se regozija com o sofrimento alheio. Com o monoteísmo, difundiu-se a ideia de que o homem deveria dominar a natureza e as criaturas que nela habitavam, dogma que tem sido levado a efeito de forma irracional e irresponsável.
É relativamente recente a consciência da finitude dos recursos naturais. Do mesmo modo a ideia acerca da dignidade animal e, como decorrência, a visão de que os animais são, por si mesmos, detentores de direitos em face do homem.
A questão é posta, por outro lado, dentro do conceito amplo de dignidade humana e, especificamente, em comparação com as diretrizes traçadas pela União no respeitante à política de educação ambiental.
Analisa-se a questão, ainda, sob a ótica da ciência, da ética e da medicina veterinária.
Todas essas considerações são contrapostas aos preceitos e princípios constitucionais ambientais, focando, depois, a análise sobre a constitucionalidade da legislação específica infraconstitucional, propondo, ao final, adoção de medidas práticas visando a mais ampla e efetiva defesa da vida animal.
O Ministério Público fundamenta sua atuação protetiva da fauna no disposto nos artigos 129, inciso III e 225, § 1º, inciso VII, da Constituição da República e no artigo 5º, da Lei nº 7347/85.
Ressalte-se, ainda, que o Brasil é subscritor de um tratado internacional denominado “Declaração Universal dos Direitos dos Animais”, firmado em Bruxelas, na Bélgica, em 27/01/78, em Assembleia da UNESCO, no qual é conferido a todos os bichos o direito à vida e à existência, à consideração e ao respeito, à cura e à proteção do homem.
Declara o repúdio à tortura para com os animais, impedindo a destruição ou violação da integridade de um ser vivo e prevê no artigo 3º que nenhum animal será submetido a maus tratos e a atos cruéis e no artigo 5º que cada animal pertencente a uma espécie que vive habitualmente no ambiente do homem, tem o direito de viver e crescer segundo o ritmo e as condições de vida e de liberdade que são próprias da sua espécie, sendo que toda modificação desse ritmo e dessas condições, imposta pelo homem para fins mercantis, é contrária a esse direito.
Deve ressaltar-se, por fim, que o artigo 10 prevê que nenhum animal deve ser usado para divertimento do homem e que a exibição deles e os espetáculos que deles se utilizam são incompatíveis com a sua dignidade.
(Adaptado de http://www.portalseer.ufba.br)
Espetáculos públicos e exibição de animais
Desde que se tem notícia da existência do homem sobre a terra, está ele, de uma forma ou de outra, interagindo com os animais. Das arenas romanas até nossos dias, vê-se que o homem pouco evoluiu, vez que ainda se regozija com o sofrimento alheio. Com o monoteísmo, difundiu-se a ideia de que o homem deveria dominar a natureza e as criaturas que nela habitavam, dogma que tem sido levado a efeito de forma irracional e irresponsável.
É relativamente recente a consciência da finitude dos recursos naturais. Do mesmo modo a ideia acerca da dignidade animal e, como decorrência, a visão de que os animais são, por si mesmos, detentores de direitos em face do homem.
A questão é posta, por outro lado, dentro do conceito amplo de dignidade humana e, especificamente, em comparação com as diretrizes traçadas pela União no respeitante à política de educação ambiental.
Analisa-se a questão, ainda, sob a ótica da ciência, da ética e da medicina veterinária.
Todas essas considerações são contrapostas aos preceitos e princípios constitucionais ambientais, focando, depois, a análise sobre a constitucionalidade da legislação específica infraconstitucional, propondo, ao final, adoção de medidas práticas visando a mais ampla e efetiva defesa da vida animal.
O Ministério Público fundamenta sua atuação protetiva da fauna no disposto nos artigos 129, inciso III e 225, § 1º, inciso VII, da Constituição da República e no artigo 5º, da Lei nº 7347/85.
Ressalte-se, ainda, que o Brasil é subscritor de um tratado internacional denominado “Declaração Universal dos Direitos dos Animais”, firmado em Bruxelas, na Bélgica, em 27/01/78, em Assembleia da UNESCO, no qual é conferido a todos os bichos o direito à vida e à existência, à consideração e ao respeito, à cura e à proteção do homem.
Declara o repúdio à tortura para com os animais, impedindo a destruição ou violação da integridade de um ser vivo e prevê no artigo 3º que nenhum animal será submetido a maus tratos e a atos cruéis e no artigo 5º que cada animal pertencente a uma espécie que vive habitualmente no ambiente do homem, tem o direito de viver e crescer segundo o ritmo e as condições de vida e de liberdade que são próprias da sua espécie, sendo que toda modificação desse ritmo e dessas condições, imposta pelo homem para fins mercantis, é contrária a esse direito.
Deve ressaltar-se, por fim, que o artigo 10 prevê que nenhum animal deve ser usado para divertimento do homem e que a exibição deles e os espetáculos que deles se utilizam são incompatíveis com a sua dignidade.
(Adaptado de http://www.portalseer.ufba.br)
Observe as seguintes passagens do texto, dando especial atenção às palavras em destaque.
I. vê- se que o homem pouco evoluiu.
II. ainda se regozija com o sofrimento alheio.
III. difundiu- se a ideia de que o homem deveria dominar a natureza.
IV. Analisa- se a questão, ainda, sob a ótica da ciência.
A palavra “se”, como se sabe, pode pertencer a diferentes classes gramaticais, incluindo a das conjunções. Quantas das ocorrências de “se”, acima, pertencem à classe das conjunções?
Texto associado
Entrevista com Frédéric Martel
Uma guerra mundial pelo conteúdo dos meios
de comunicação se trava pela conquista do público
dentro e fora dos países criadores. Batalhas se
desenrolam pelo domínio da notícia, do formato de
5 programas de TV e pela exibição de filmes, vídeos,
música, livros. Nesse processo, um gigante domina:
os Estados Unidos, com sua capacidade de produzir
cultura de massas que agrada ao grande público
em todos os continentes. Essa penetração cultural
10 americana, que muitos críticos preferem chamar de
imperialismo, leva os filmes, a música e a televisão
americana para o mundo. Sua arma é o inverso
da alta cultura, da contracultura, da subcultura, de
nichos especializados. Visa o público em geral,
15 cultura de massa, de milhões. Tornou-se a cultura
internacional dominante, principal, a chamada
mainstream, conforme o título do livro escrito pelo
sociólogo francês Frédéric Martel. Para escrever
Mainst ream , ele percorreu 30 países durante cinco
20 anos, entrevistou mais de 1.200 pessoas em todas
as capitais do entertainment , analisou a ação dos
protagonistas, a lógica dos grupos e acompanhou a
circulação internacional de conteúdo.
É um imperialismo diferente daquele político e
militar. É uma espécie de imperialismo cultural que
é bem recebido no mundo. A esse respeito, afirma
Frédéric Martel: “É o que basicamente chamamos
de soft power. Soft power significa influenciar as
pessoas com coisas legais. Você é amigável,
30 não é contundente. Você tem as forças armadas,
tem a diplomacia tradicional e grandes empresas
econômicas, que formam o hard power , e tem o soft
power, que influencia as pessoas através de filmes,
de livros, da internet e de valores.”
35 “A língua é importante. Eu acredito — e essa é
a principal conclusão do meu livro — que, no mundo
em que estamos entrando, que reúne globalização e
digitalização, a língua é importante. E eu acredito que
a batalha, a luta, mesmo a guerra de conteúdo, será
40 uma batalha a respeito da cultura nacional. Você pode
ouvir Lady Gaga, gostar de Avatar e ler O Código
Da Vinci, mas, no final das contas, a maior parte
da cultura que você consome e ama geralmente é
nacional, local, regional, e não global. A cultura global
45 é apenas uma pequena parte do que você gosta.
Então, no final das contas, os americanos são os
únicos a poder prover essa cultura dominante global,
mas essa cultura dominante global continua pequena.
Por quê? Porque a língua é muito importante,
50 porque a identidade é muito importante. Quando
você compra um livro de não ficção, quer saber o
que acontece aqui, no seu país, e não na Coreia do
Sul, por exemplo. Na Coreia do Sul você quer ouvir
K-pop, que é a música pop coreana, e ver um drama
55 coreano, e não ouvir uma música brasileira. Portanto,
nós estamos em um mundo cada vez mais global,
mas, ao mesmo tempo, a cultura ainda é e será muito
nacional. Para resumir as coisas, eu diria que todos
temos duas culturas: a nossa e a americana.”
60 “Nós, como europeus, temos o mesmo tipo de
relação que você, como brasileiro, tem com os EUA.
Nós os amamos e odiamos. É uma complicada relação
de amor e ódio. Nós esperamos que eles sejam
como são; nós queremos criticá-los, mas, ao mesmo
65 tempo, nós protestamos contra eles com tênis Nike
nos pés. Nós trabalhamos para ser um pouco como
eles, muito embora nós queiramos manter nossa
identidade e cultura. E, a propósito, a boa notícia é
que o debate no mundo hoje e no futuro não será
70 entre nós — brasileiros, franceses, europeus — e os
americanos. Será entre todos nós. O que eu quero
dizer é que hoje não há apenas dois povos: nós e os
EUA. O mundo é muito mais complicado, com países
emergentes, que serão fundamentais nesse novo
75 jogo.”
“Para resumir, afirma Martel, eu diria que os
EUA continuarão sendo peça importante da guerra
de conteúdo, podemos dizer, nos próximos anos e
décadas. Eu não acredito e não compro a ideia do
80 declínio da cultura americana. Eu acho que eles são
fortes e continuarão sendo fortes. Mas eles não são os
únicos no jogo. Agora temos os países emergentes,
que estão emergindo não só demográfica e
economicamente, como pensávamos. E eu fui um
85 dos primeiros a mostrar que eles estão emergindo
com sua cultura, sua mídia e com a internet.”
“Nesse mundo, a internet pode ser uma peça
importante. O Brasil, por exemplo, vai crescer com
a internet, com certeza. Criam-se ferramentas
90 inovadoras de alfabetização, por exemplo, em
comunidades, em favelas, em lugares onde os
moradores não têm acesso a uma livraria ou
biblioteca. Mas eles terão acesso à internet em lan
houses , por exemplo, e mesmo no telefone. Hoje,
95 todo mundo tem um telefone celular barato. Mesmo
na África, todos têm celulares com funções básicas.
Em cinco anos, todos terão um smartphone, pois os
preços estão caindo muito. Assim, todos poderão
acessar a internet pelo smartphone. Se você tem
100 acesso à internet, pode baixar livros, acessar a rede,
pode ver filmes e daí por diante.”
“A questão não é se essa tecnologia é boa,
conclui Martel. A questão é: ela não será boa ou
ruim sozinha. Ela será o que você, o povo, o governo
100 deste país e nós formos capazes de fazer com ela,
criando uma boa internet e uma maneira melhor de
ter acesso ao conteúdo através da internet.”
BOCCANERA, S. Entrevista concedida pelo sociólogo Frédéric Martel, Programa Milênio, Globo News . Disponível em: . Acesso em: 10 nov. 2015. Adaptado.
Uma guerra mundial pelo conteúdo dos meios
de comunicação se trava pela conquista do público
dentro e fora dos países criadores. Batalhas se
desenrolam pelo domínio da notícia, do formato de
5 programas de TV e pela exibição de filmes, vídeos,
música, livros. Nesse processo, um gigante domina:
os Estados Unidos, com sua capacidade de produzir
cultura de massas que agrada ao grande público
em todos os continentes. Essa penetração cultural
10 americana, que muitos críticos preferem chamar de
imperialismo, leva os filmes, a música e a televisão
americana para o mundo. Sua arma é o inverso
da alta cultura, da contracultura, da subcultura, de
nichos especializados. Visa o público em geral,
15 cultura de massa, de milhões. Tornou-se a cultura
internacional dominante, principal, a chamada
mainstream, conforme o título do livro escrito pelo
sociólogo francês Frédéric Martel. Para escrever
Mainst ream , ele percorreu 30 países durante cinco
20 anos, entrevistou mais de 1.200 pessoas em todas
as capitais do entertainment , analisou a ação dos
protagonistas, a lógica dos grupos e acompanhou a
circulação internacional de conteúdo.
É um imperialismo diferente daquele político e
militar. É uma espécie de imperialismo cultural que
é bem recebido no mundo. A esse respeito, afirma
Frédéric Martel: “É o que basicamente chamamos
de soft power. Soft power significa influenciar as
pessoas com coisas legais. Você é amigável,
30 não é contundente. Você tem as forças armadas,
tem a diplomacia tradicional e grandes empresas
econômicas, que formam o hard power , e tem o soft
power, que influencia as pessoas através de filmes,
de livros, da internet e de valores.”
35 “A língua é importante. Eu acredito — e essa é
a principal conclusão do meu livro — que, no mundo
em que estamos entrando, que reúne globalização e
digitalização, a língua é importante. E eu acredito que
a batalha, a luta, mesmo a guerra de conteúdo, será
40 uma batalha a respeito da cultura nacional. Você pode
ouvir Lady Gaga, gostar de Avatar e ler O Código
Da Vinci, mas, no final das contas, a maior parte
da cultura que você consome e ama geralmente é
nacional, local, regional, e não global. A cultura global
45 é apenas uma pequena parte do que você gosta.
Então, no final das contas, os americanos são os
únicos a poder prover essa cultura dominante global,
mas essa cultura dominante global continua pequena.
Por quê? Porque a língua é muito importante,
50 porque a identidade é muito importante. Quando
você compra um livro de não ficção, quer saber o
que acontece aqui, no seu país, e não na Coreia do
Sul, por exemplo. Na Coreia do Sul você quer ouvir
K-pop, que é a música pop coreana, e ver um drama
55 coreano, e não ouvir uma música brasileira. Portanto,
nós estamos em um mundo cada vez mais global,
mas, ao mesmo tempo, a cultura ainda é e será muito
nacional. Para resumir as coisas, eu diria que todos
temos duas culturas: a nossa e a americana.”
60 “Nós, como europeus, temos o mesmo tipo de
relação que você, como brasileiro, tem com os EUA.
Nós os amamos e odiamos. É uma complicada relação
de amor e ódio. Nós esperamos que eles sejam
como são; nós queremos criticá-los, mas, ao mesmo
65 tempo, nós protestamos contra eles com tênis Nike
nos pés. Nós trabalhamos para ser um pouco como
eles, muito embora nós queiramos manter nossa
identidade e cultura. E, a propósito, a boa notícia é
que o debate no mundo hoje e no futuro não será
70 entre nós — brasileiros, franceses, europeus — e os
americanos. Será entre todos nós. O que eu quero
dizer é que hoje não há apenas dois povos: nós e os
EUA. O mundo é muito mais complicado, com países
emergentes, que serão fundamentais nesse novo
75 jogo.”
“Para resumir, afirma Martel, eu diria que os
EUA continuarão sendo peça importante da guerra
de conteúdo, podemos dizer, nos próximos anos e
décadas. Eu não acredito e não compro a ideia do
80 declínio da cultura americana. Eu acho que eles são
fortes e continuarão sendo fortes. Mas eles não são os
únicos no jogo. Agora temos os países emergentes,
que estão emergindo não só demográfica e
economicamente, como pensávamos. E eu fui um
85 dos primeiros a mostrar que eles estão emergindo
com sua cultura, sua mídia e com a internet.”
“Nesse mundo, a internet pode ser uma peça
importante. O Brasil, por exemplo, vai crescer com
a internet, com certeza. Criam-se ferramentas
90 inovadoras de alfabetização, por exemplo, em
comunidades, em favelas, em lugares onde os
moradores não têm acesso a uma livraria ou
biblioteca. Mas eles terão acesso à internet em lan
houses , por exemplo, e mesmo no telefone. Hoje,
95 todo mundo tem um telefone celular barato. Mesmo
na África, todos têm celulares com funções básicas.
Em cinco anos, todos terão um smartphone, pois os
preços estão caindo muito. Assim, todos poderão
acessar a internet pelo smartphone. Se você tem
100 acesso à internet, pode baixar livros, acessar a rede,
pode ver filmes e daí por diante.”
“A questão não é se essa tecnologia é boa,
conclui Martel. A questão é: ela não será boa ou
ruim sozinha. Ela será o que você, o povo, o governo
100 deste país e nós formos capazes de fazer com ela,
criando uma boa internet e uma maneira melhor de
ter acesso ao conteúdo através da internet.”
BOCCANERA, S. Entrevista concedida pelo sociólogo Frédéric Martel, Programa Milênio, Globo News . Disponível em: . Acesso em: 10 nov. 2015. Adaptado.
A relação lógica expressa pela palavra em destaque está indicada adequadamente entre colchetes em:
Texto associado
Até onde vai nossa capacidade de memória?
Ao contrário de smartphones, tablets e pen drives, o cérebro humano parece ter uma capacidade infinita. Ainda assim, muitos de nós temos dificuldade de decorarmos um simples nome, aniversário ou número de telefone.
Neurocientistas há tempos vêm tentando medir o quanto cabe na memória humana, mas a tarefa se torna quase impossível quando sabemos de casos de pessoas extremamente dedicadas que realizam feitos incríveis com seus cérebros.
Um deles é o chinês Chao Lu, que, em 2005, quando era um estudante universitário de 24 anos, recitou corretamente os 67.980 dígitos do número Pi (π), durante um período de 24 horas, sem intervalos.
Outros gênios realizaram façanhas até mais incríveis, lembrando-se até dos complexos detalhes de uma imagem, por exemplo.
Em casos raríssimos, uma lesão pode também ocasionar a chamada síndrome da sabedoria adquirida. Foi o que aconteceu com o americano Orlando Serrel, que, aos 10 anos, foi atingido por uma bola de beisebol no lado esquerdo da cabeça. De uma hora para outra, ele começou a mostrar ser capaz de se lembrar de inúmeras placas de registro de veículos ou ainda fazer cálculos sobre datas de décadas anteriores.
E será que as pessoas dotadas de uma supermemória têm, portanto, cérebros excepcionais?
Não necessariamente. Nelson Dellis, atual campeão do Torneio de Memória dos Estados Unidos, conta que o feito foi resultado de muita prática. “Eu era bem esquecido, mas depois de algumas semanas treinando, me vi fazendo algo que parecia quase impossível. Todos nós temos essa capacidade”, afirma Dellis.
Assim como outros campeões, ele utiliza estratégias já testadas e aprovadas para memorizar itens rapidamente. Um dos truques mais usados é a construção de um “palácio da memória”. A técnica consiste em visualizar um lugar que ele conhece bem, como, por exemplo, a casa onde morou na infância.
Dellis então “traduz” os itens que precisa memorizar em imagens que são colocadas nos móveis e cantos da casa. “Você navega mentalmente por aquele espaço e seleciona aquelas imagens que você deixou ali, ‘traduzindoas’ novamente para aquilo que você memorizou”, explica.
Pessoas como o chinês Chao, que recitam algarismos em sequência, recorrem a outra tática comum: converter pequenas séries de números em palavras que são unidas por uma história.
O sucesso dessas estratégias indica que praticamente qualquer pessoa pode se tornar um ás da memória, bastando apenas muita dedicação.
[...]
(Adam Hadhazy, 8 de abril de 2015. Texto retirado de BBC Future. Disponível em http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/04/150408_vert_fut_capacidade_cerebro_ml - adaptado)
Ao contrário de smartphones, tablets e pen drives, o cérebro humano parece ter uma capacidade infinita. Ainda assim, muitos de nós temos dificuldade de decorarmos um simples nome, aniversário ou número de telefone.
Neurocientistas há tempos vêm tentando medir o quanto cabe na memória humana, mas a tarefa se torna quase impossível quando sabemos de casos de pessoas extremamente dedicadas que realizam feitos incríveis com seus cérebros.
Um deles é o chinês Chao Lu, que, em 2005, quando era um estudante universitário de 24 anos, recitou corretamente os 67.980 dígitos do número Pi (π), durante um período de 24 horas, sem intervalos.
Outros gênios realizaram façanhas até mais incríveis, lembrando-se até dos complexos detalhes de uma imagem, por exemplo.
Em casos raríssimos, uma lesão pode também ocasionar a chamada síndrome da sabedoria adquirida. Foi o que aconteceu com o americano Orlando Serrel, que, aos 10 anos, foi atingido por uma bola de beisebol no lado esquerdo da cabeça. De uma hora para outra, ele começou a mostrar ser capaz de se lembrar de inúmeras placas de registro de veículos ou ainda fazer cálculos sobre datas de décadas anteriores.
E será que as pessoas dotadas de uma supermemória têm, portanto, cérebros excepcionais?
Não necessariamente. Nelson Dellis, atual campeão do Torneio de Memória dos Estados Unidos, conta que o feito foi resultado de muita prática. “Eu era bem esquecido, mas depois de algumas semanas treinando, me vi fazendo algo que parecia quase impossível. Todos nós temos essa capacidade”, afirma Dellis.
Assim como outros campeões, ele utiliza estratégias já testadas e aprovadas para memorizar itens rapidamente. Um dos truques mais usados é a construção de um “palácio da memória”. A técnica consiste em visualizar um lugar que ele conhece bem, como, por exemplo, a casa onde morou na infância.
Dellis então “traduz” os itens que precisa memorizar em imagens que são colocadas nos móveis e cantos da casa. “Você navega mentalmente por aquele espaço e seleciona aquelas imagens que você deixou ali, ‘traduzindoas’ novamente para aquilo que você memorizou”, explica.
Pessoas como o chinês Chao, que recitam algarismos em sequência, recorrem a outra tática comum: converter pequenas séries de números em palavras que são unidas por uma história.
O sucesso dessas estratégias indica que praticamente qualquer pessoa pode se tornar um ás da memória, bastando apenas muita dedicação.
[...]
(Adam Hadhazy, 8 de abril de 2015. Texto retirado de BBC Future. Disponível em http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/04/150408_vert_fut_capacidade_cerebro_ml - adaptado)