Instruções para cantar
Comece por quebrar os espelhos de sua casa, deixe cair os braços, olhe vagamente a parede, esqueça. Cante uma nota só, escute por dentro. Se ouvir (mas isto acontecerá muito depois) algo como uma paisagem afundada no medo, com fogueiras entre as pedras, com silhuetas seminuas de cócoras, acho que estará bem encaminhado, e do mesmo modo se ouvir um rio por onde descem barcos pintados de amarelo e preto, se ouvir um gosto de pão, um tato de dedos, uma sombra de cavalo.
Depois compre cadernos de solfejo e uma casaca, e por favor não cante pelo nariz e deixe Schumann em paz.
CORTÁZAR, Júlio. Instruções para chorar. In: Histórias de cronópios e de famas. São Paulo: Editora Best Seller, 2013.
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Texto associado
Texto para os itens de 1 a 12.
No que se refere ao texto e a seus aspectos linguísticos, julgue
os itens de 1 a 7.
No que se refere ao texto e a seus aspectos linguísticos, julgue
os itens de 1 a 7.
Na linha 3, a acentuação gráfica em “têm” indica que o
verbo está no plural, concordando com o núcleo do
sujeito da oração, o substantivo “recomendações”.
Texto associado
A cidade caminhava devagar
Henrique Fendrich
Então você que é o Henrique? Ah, mas é uma
criança ainda. Meu filho fala muito de você, ele
lê o que você escreve. Mas sente-se! Você gosta
de ouvir sobre essas coisas de antigamente, não
é? Caso raro, menino. A gente já não tem mais
com quem falar, a não ser com os outros velhos.
Só que os velhos vão morrendo, e com eles
vão morrendo as histórias que eles tinham para
contar. Olha, do meu tempo já são poucos por
aqui. Da minha família mesmo, eu sou o último,
não tenho mais irmão, cunhado, nada. Só na
semana passada eu fui a dois enterros. Um foi o
do velho Bubi. Esse você não deve ter conhecido.
Era alfaiate, foi casado com uma prima minha. E
a gente vai a esses enterros e fica pensando que
dali a pouco pode ser a nossa vez. Mas faz parte,
não é? É assim que a vida funciona e a gente só
pode aceitar.
Agora, muita coisa mudou também. A cidade já
é outra, nem se compara com a da minha época.
As coisas caminhavam mais devagar naquele
tempo. Hoje é essa correria toda, ninguém mais
consegue sossegar. Mudou muita coisa, muitos
costumes que a gente tinha foram ficando para
trás. Olha, é preciso que se diga também que
havia mais respeito. Eu vejo pelos meus próprios
netos, quanta diferença no jeito que eles tratam
os pais deles! Se deixar, são eles que governam a
casa. Consegue ver aquele quadro ali na parede?
Papai e mamãe… Eu ainda tinha que pedir bênção
a eles. A gente fazia as refeições juntos todos os
dias, e sempre no mesmo horário. Hoje é cada um
para um lado, uma coisa estranha, sabe? Parece
que as coisas mudam e a gente não se adapta.
E vai a gente tentar falar algo… Ninguém ouve,
olham para você como se tivessem muita pena da
sua velhice.
Aqui para cima tem um colégio. Cinco horas
da tarde, eles saem em bando. A gente até evita
estar na rua nesse horário. Por que você pensa
que eles se preocupam com a gente? Só falta eles
nos derrubarem, de tão rápido que eles andam.
As calçadas são estreitas e, se a gente encontrar
uma turma caminhando na nossa direção, quem
você acha que precisa descer, eles ou nós, os velhos? É a gente… Nem parece que um dia eles
também vão ficar velhos como a gente.
A verdade é que as pessoas estão se
afastando, não estão se importando mais umas
com as outras. Nem os vizinhos a gente conhece
mais. Faz mais de um mês que chegou vizinho
novo na casa que era do Seu Erico e até agora a
gente não sabe quem é que foi morar lá. A Isolda
veio com umas histórias de a gente ir lá fazer
amizade, mas eu falei para ela que essa gente
vive em outro mundo, outros valores, e é capaz
até de pensarem mal da gente se a gente for lá.
Mas você deve achar que eu só sei reclamar,
não é? Tem coisa boa também, claro que tem.
Hoje as pessoas já não sofrem como na nossa
época. Ali faltava tudo, a gente não tinha nem
igreja para ir no domingo, imagine só. O padre
aparecia uma vez a cada dois meses e olhe lá. E
viajar para o centro? Só de carroça, e não tinha
asfalto, não tinha nada. Se chovia, a estrada
virava um lamaçal e a gente tinha que voltar. Isso
mudou, hoje está melhor. Hoje tem todas essas
tecnologias aí, é mais fácil tratar doença também.
Olha, se eu vivesse no tempo do meu pai, acho
que não teria chegado tão longe assim, porque ali
não tinha os remédios que eles precisavam, né?
Só que também tem essa questão da segurança,
que hoje a gente não tem quase nenhuma. A
gente tem até medo que alguém entre aqui em
casa. São dois velhos, o que a gente vai poder
fazer contra o ladrão?
Mas vamos sentar e tomar um café, a Isolda
já preparou. Tem cuque, lá da festa da igreja.
Se você viesse ontem, teria encontrado meu
filho, ele quem trouxe. Depois quero te mostrar
o álbum de fotos do papai. Está meio gasto, as
fotos estão amarelas… Mas é normal, né? São
coisas de outro tempo. Do tempo em que a cidade
caminhava mais devagar.
Adaptado de: < http: a-cidade-caminhava-devagar="" henrique-fendrich="" cronicas="" www.aescotilha.com.br="" >. Acesso em: 28 jun. 2019.
Henrique Fendrich
Então você que é o Henrique? Ah, mas é uma
criança ainda. Meu filho fala muito de você, ele
lê o que você escreve. Mas sente-se! Você gosta
de ouvir sobre essas coisas de antigamente, não
é? Caso raro, menino. A gente já não tem mais
com quem falar, a não ser com os outros velhos.
Só que os velhos vão morrendo, e com eles
vão morrendo as histórias que eles tinham para
contar. Olha, do meu tempo já são poucos por
aqui. Da minha família mesmo, eu sou o último,
não tenho mais irmão, cunhado, nada. Só na
semana passada eu fui a dois enterros. Um foi o
do velho Bubi. Esse você não deve ter conhecido.
Era alfaiate, foi casado com uma prima minha. E
a gente vai a esses enterros e fica pensando que
dali a pouco pode ser a nossa vez. Mas faz parte,
não é? É assim que a vida funciona e a gente só
pode aceitar.
Agora, muita coisa mudou também. A cidade já
é outra, nem se compara com a da minha época.
As coisas caminhavam mais devagar naquele
tempo. Hoje é essa correria toda, ninguém mais
consegue sossegar. Mudou muita coisa, muitos
costumes que a gente tinha foram ficando para
trás. Olha, é preciso que se diga também que
havia mais respeito. Eu vejo pelos meus próprios
netos, quanta diferença no jeito que eles tratam
os pais deles! Se deixar, são eles que governam a
casa. Consegue ver aquele quadro ali na parede?
Papai e mamãe… Eu ainda tinha que pedir bênção
a eles. A gente fazia as refeições juntos todos os
dias, e sempre no mesmo horário. Hoje é cada um
para um lado, uma coisa estranha, sabe? Parece
que as coisas mudam e a gente não se adapta.
E vai a gente tentar falar algo… Ninguém ouve,
olham para você como se tivessem muita pena da
sua velhice.
Aqui para cima tem um colégio. Cinco horas
da tarde, eles saem em bando. A gente até evita
estar na rua nesse horário. Por que você pensa
que eles se preocupam com a gente? Só falta eles
nos derrubarem, de tão rápido que eles andam.
As calçadas são estreitas e, se a gente encontrar
uma turma caminhando na nossa direção, quem
você acha que precisa descer, eles ou nós, os velhos? É a gente… Nem parece que um dia eles
também vão ficar velhos como a gente.
A verdade é que as pessoas estão se
afastando, não estão se importando mais umas
com as outras. Nem os vizinhos a gente conhece
mais. Faz mais de um mês que chegou vizinho
novo na casa que era do Seu Erico e até agora a
gente não sabe quem é que foi morar lá. A Isolda
veio com umas histórias de a gente ir lá fazer
amizade, mas eu falei para ela que essa gente
vive em outro mundo, outros valores, e é capaz
até de pensarem mal da gente se a gente for lá.
Mas você deve achar que eu só sei reclamar,
não é? Tem coisa boa também, claro que tem.
Hoje as pessoas já não sofrem como na nossa
época. Ali faltava tudo, a gente não tinha nem
igreja para ir no domingo, imagine só. O padre
aparecia uma vez a cada dois meses e olhe lá. E
viajar para o centro? Só de carroça, e não tinha
asfalto, não tinha nada. Se chovia, a estrada
virava um lamaçal e a gente tinha que voltar. Isso
mudou, hoje está melhor. Hoje tem todas essas
tecnologias aí, é mais fácil tratar doença também.
Olha, se eu vivesse no tempo do meu pai, acho
que não teria chegado tão longe assim, porque ali
não tinha os remédios que eles precisavam, né?
Só que também tem essa questão da segurança,
que hoje a gente não tem quase nenhuma. A
gente tem até medo que alguém entre aqui em
casa. São dois velhos, o que a gente vai poder
fazer contra o ladrão?
Mas vamos sentar e tomar um café, a Isolda
já preparou. Tem cuque, lá da festa da igreja.
Se você viesse ontem, teria encontrado meu
filho, ele quem trouxe. Depois quero te mostrar
o álbum de fotos do papai. Está meio gasto, as
fotos estão amarelas… Mas é normal, né? São
coisas de outro tempo. Do tempo em que a cidade
caminhava mais devagar.
Adaptado de: < http: a-cidade-caminhava-devagar="" henrique-fendrich="" cronicas="" www.aescotilha.com.br="" >. Acesso em: 28 jun. 2019.
Por que a palavra “bênção”, na oração
“Eu ainda tinha que pedir bênção a
eles.”, tem acento circunflexo?
Texto associado
1 ____ A adesão voluntária ao discurso moderno que proclama a manutenção de uma sociedade constituída de sujeitos self-made ,
autor e protagonista de seu próprio destino e, ao mesmo tempo, responsabilizado desde sempre pelo fracasso da empreitada
individualista, pode ser percebida a partir da difusão de conceitos como “consumo responsável”, “sustentabilidade”, “consumo
4 consciente”, entre outros slogans similares que procuram alertar os consumidores dos males causados pelo hiperconsumo e
descarte de mercadorias no meio ambiente. A crítica presente na cultura consumista aos danos à natureza não é nova, sempre
teve seu lugar em relação ao discurso hegemônico pregador do consumo sem limites, mas, ao contrário do que ocorre atualmente,
7 esse alerta sempre se manteve marginal. Hoje, a assimilação dessa crítica encontra seu espaço na ideologia da responsabilização
do consumidor. Tal discurso tem-se apoiado no projeto político-ideológico que, na sociedade moderna, sustenta a existência do
eu autônomo.
10 ___ O enfoque de grande parte dos meios midiático e publicitário, com apoio dos órgãos governamentais, tem recaído na ação
individual, isto é, na responsabilização dos indivíduos pelos danos causados pela atividade das corporações no meio ambiente.
Essa é uma ideia que remete ao discurso da liberdade de escolha e de poder decisório do sujeito, que domina a sociedade
13 capitalista contemporânea. A viabilidade de tal discurso torna-se possível em face da inexistência de modelos ou referências que
orientem o sujeito. Desse modo, em um mundo desencantado, os indivíduos devem-se autoforjar singular e coletivamente.
O que está em jogo é a radicalização de uma ordem política e social já atuante, voltada principalmente para a maneira
16 como o sujeito governa a si mesmo. Assim, os problemas originados na dinâmica do sistema socioeconômico, como desemprego,
criminalidade, abuso de drogas etc., não são mais atribuídos a fatores estruturais, mas a categorias subjetivas.
Esse giro discursivo pode ser observado na forma como se privilegiam estilos de vida e sua relação com a prevenção de
19 doenças, estratégia principal da formulação de campanhas publicitárias destinadas a “reeducar” o cidadão para que viva
saudavelmente.
O eu autônomo, responsável por seus atos de consumo, ressurge em mais um cenário de crise do capitalismo, dessa vez,
22 diante dos limites da exploração da natureza, que vem substituir a velha promessa ideológica da igualdade presente no american
way of life , pois, como já não é mais possível sustentar a promessa de acesso a todos das benesses do desenvolvimento,
passa-se a apontar a própria natureza como limite para a impossibilidade de cumprimento da promessa de prosperidade para
25 todos. Os limites do consumo no capitalismo passam a ser definidos em âmbito externo ao sistema econômico.
Afinal, viver como se não existissem limites já não é uma promessa que a ideologia hegemônica neoliberal possa cumprir,
logo a culpa decorrente de tal constatação é comumente explorada pelo próprio mercado por meio do desenvolvimento e
28 exposição de produtos “ecologicamente corretos”, o que permite a expiação da culpa do consumidor ao optar pelo “consumo
consciente”.
Wagner Souza. A ilusão do eu autônomo na sociedade de consumo. Internet: (com adaptações).
No que se refere ao texto e a seus aspectos linguísticos, julgue os itens de 1 a 11.
autor e protagonista de seu próprio destino e, ao mesmo tempo, responsabilizado desde sempre pelo fracasso da empreitada
individualista, pode ser percebida a partir da difusão de conceitos como “consumo responsável”, “sustentabilidade”, “consumo
4 consciente”, entre outros slogans similares que procuram alertar os consumidores dos males causados pelo hiperconsumo e
descarte de mercadorias no meio ambiente. A crítica presente na cultura consumista aos danos à natureza não é nova, sempre
teve seu lugar em relação ao discurso hegemônico pregador do consumo sem limites, mas, ao contrário do que ocorre atualmente,
7 esse alerta sempre se manteve marginal. Hoje, a assimilação dessa crítica encontra seu espaço na ideologia da responsabilização
do consumidor. Tal discurso tem-se apoiado no projeto político-ideológico que, na sociedade moderna, sustenta a existência do
eu autônomo.
10 ___ O enfoque de grande parte dos meios midiático e publicitário, com apoio dos órgãos governamentais, tem recaído na ação
individual, isto é, na responsabilização dos indivíduos pelos danos causados pela atividade das corporações no meio ambiente.
Essa é uma ideia que remete ao discurso da liberdade de escolha e de poder decisório do sujeito, que domina a sociedade
13 capitalista contemporânea. A viabilidade de tal discurso torna-se possível em face da inexistência de modelos ou referências que
orientem o sujeito. Desse modo, em um mundo desencantado, os indivíduos devem-se autoforjar singular e coletivamente.
O que está em jogo é a radicalização de uma ordem política e social já atuante, voltada principalmente para a maneira
16 como o sujeito governa a si mesmo. Assim, os problemas originados na dinâmica do sistema socioeconômico, como desemprego,
criminalidade, abuso de drogas etc., não são mais atribuídos a fatores estruturais, mas a categorias subjetivas.
Esse giro discursivo pode ser observado na forma como se privilegiam estilos de vida e sua relação com a prevenção de
19 doenças, estratégia principal da formulação de campanhas publicitárias destinadas a “reeducar” o cidadão para que viva
saudavelmente.
O eu autônomo, responsável por seus atos de consumo, ressurge em mais um cenário de crise do capitalismo, dessa vez,
22 diante dos limites da exploração da natureza, que vem substituir a velha promessa ideológica da igualdade presente no american
way of life , pois, como já não é mais possível sustentar a promessa de acesso a todos das benesses do desenvolvimento,
passa-se a apontar a própria natureza como limite para a impossibilidade de cumprimento da promessa de prosperidade para
25 todos. Os limites do consumo no capitalismo passam a ser definidos em âmbito externo ao sistema econômico.
Afinal, viver como se não existissem limites já não é uma promessa que a ideologia hegemônica neoliberal possa cumprir,
logo a culpa decorrente de tal constatação é comumente explorada pelo próprio mercado por meio do desenvolvimento e
28 exposição de produtos “ecologicamente corretos”, o que permite a expiação da culpa do consumidor ao optar pelo “consumo
consciente”.
Wagner Souza. A ilusão do eu autônomo na sociedade de consumo. Internet: (com adaptações).
No que se refere ao texto e a seus aspectos linguísticos, julgue os itens de 1 a 11.
Os vocábulos “constituído”, “próprio” e “responsável” são acentuados de acordo com a mesma regra de acentuação gráfica – a que se refere às palavras paroxítonas.
Texto associado
Considerando aspectos linguísticos do texto, julgue os itens
que se seguem.
que se seguem.
“saúde” (linha 3) é acentuada por ser proparoxítona,
assim como “angústia” (linha 5) e “inúmeras”
(linha 15).
Texto associado
SOLIDÃO INTERATIVA
Ronaldo Coelho Teixeira
A primeira vez que vi esse termo foi por
meio de um jeca superjóia: Juraildes da Cruz.
Tocantino de Aurora, radicado em Goiânia, Goiás
e um dos maiores compositores contemporâneos
brasileiros. Não seria pra menos! Afinal, foi ele
quem criou o hit que Genésio Tocantins espalhou
pelo Brasil por meio do Domingão do Faustão, na
TV Globo, em 1999. “Nóis é jeca, mas é joia”, aquele
da farinhada, feita da mandioca, da macaxeira ou
do aipim, a depender da região brasileira. Sacada
de mestre, de quem está sempre antenado ao
mundo e aos seus. Juraíldes da Cruz em sua letra,
visionária – como tudo o que os gênios, as antenas
da raça fazem – já arrepiava: “Tiro o bicho de pé
com canivete, mas já tô na internet”. E isso quando
a www ainda engatinhava.
Mas com esse achado que agora evoco aqui,
o artista quer mesmo é alertar para o mau uso
das tecnologias, sobre coisas que o homem cria,
mas que geralmente acaba escravo delas. Solidão
interativa foi cunhado pelo sociólogo francês
Dominique Wolton. Em sua tese, o autor alerta
quanto ao cuidado para com o uso da internet,
principalmente das redes sociais, chamando
a atenção para um detalhe vital no avanço das
tecnologias de comunicação: não importam formas
e meios de expressão, a comunicação humana não
foi, não é e nunca será algo tão simples, sempre vai
conter grandeza e dificuldade.
Wolton justifica-se dizendo que a internet é
incrível para a comunicação entre pessoas e
grupos que tenham os mesmos interesses, mas
está longe de ser uma ferramenta de comunicação
de coesão entre pessoas e grupos diferentes. E
que por isso, a internet não é uma mídia, mas um
sistema de comunicação comunitário. Ele prova
isso afirmando que podemos passar horas, dias na
internet e sermos incapazes de ter uma verdadeira
relação humana com quer que seja.
A solidão interativa grassa nas redes sociais,
especialmente no facebook. São fotos e fotos
postadas – a maioria – forjando uma felicidade
quando, na verdade, é tudo fake. As mais usuais
são aquelas em que o autor se autofotografa – as
famosas selfies – e sai espalhando-as de um dia
para o outro, quando não, de uma hora para outra.
Tem as gastronômicas. Aquelas em que o autor
antes de comer um prato ou uma iguaria especial,
fotografa e já a lança na rede como a dizer que está
podendo. Mas aquela comidinha do dia a dia, a
da vida real, ele jamais vai postar. Ovo frito? Nem
pensar! E aquelas dos momentos felizes? Sim, tem
gente que acha que os seus instantes de lazer e
diversão têm que, obrigatoriamente, ser vistos
por todos. E lá vai um post ao lado do namorado
ou namorada, dos amigos, geralmente com ares
de forçação de barra. Porque a gaiola do tempo,
forjada por nós mesmos, só pode ser aberta pela
chave da felicidade plena.
E tem aquela que é emblemática: a mensagem
em que o internauta revela o status do seu
sentimento. Mas o ápice da solidão interativa está
naquela figura que posta alguma coisa e ela mesma
vai lá e a curte. De dar dó, não?
Temos milhares de ‘amigos’ nessa cornucópia
virtual. Nessa Caixa de Pandora do Século XXI,
eis-nos diante de uma incoerente quimera: o
autoengano. [...]
O autoengano é peça-chave para a nossa
sobrevivência. Mentimos – a partir dos dois meses de
idade – não só para os outros, mas, principalmente,
para nós mesmos. Mesmo protegidos na redoma da
interatividade, continuamos sós, ali, onde apenas
a solidão nos alcança. Enquanto teclamos a torto
e a direito, sugerindo que estamos sempre ON, a
vida verdadeira continua OFF. E nunca nos damos
conta de que, no fim, toda a solidão que nos rodeia,
essa sim, é real. Porque bytes, bits e pixels não
transmitem calor. E o verbo sem o hálito quente é
apenas palavra morta.
Adaptado de:< http://lounge.obviousmag.org/espantalho_lirico/
2016/08/solidao-interativa.html >.
Ronaldo Coelho Teixeira
A primeira vez que vi esse termo foi por
meio de um jeca superjóia: Juraildes da Cruz.
Tocantino de Aurora, radicado em Goiânia, Goiás
e um dos maiores compositores contemporâneos
brasileiros. Não seria pra menos! Afinal, foi ele
quem criou o hit que Genésio Tocantins espalhou
pelo Brasil por meio do Domingão do Faustão, na
TV Globo, em 1999. “Nóis é jeca, mas é joia”, aquele
da farinhada, feita da mandioca, da macaxeira ou
do aipim, a depender da região brasileira. Sacada
de mestre, de quem está sempre antenado ao
mundo e aos seus. Juraíldes da Cruz em sua letra,
visionária – como tudo o que os gênios, as antenas
da raça fazem – já arrepiava: “Tiro o bicho de pé
com canivete, mas já tô na internet”. E isso quando
a www ainda engatinhava.
Mas com esse achado que agora evoco aqui,
o artista quer mesmo é alertar para o mau uso
das tecnologias, sobre coisas que o homem cria,
mas que geralmente acaba escravo delas. Solidão
interativa foi cunhado pelo sociólogo francês
Dominique Wolton. Em sua tese, o autor alerta
quanto ao cuidado para com o uso da internet,
principalmente das redes sociais, chamando
a atenção para um detalhe vital no avanço das
tecnologias de comunicação: não importam formas
e meios de expressão, a comunicação humana não
foi, não é e nunca será algo tão simples, sempre vai
conter grandeza e dificuldade.
Wolton justifica-se dizendo que a internet é
incrível para a comunicação entre pessoas e
grupos que tenham os mesmos interesses, mas
está longe de ser uma ferramenta de comunicação
de coesão entre pessoas e grupos diferentes. E
que por isso, a internet não é uma mídia, mas um
sistema de comunicação comunitário. Ele prova
isso afirmando que podemos passar horas, dias na
internet e sermos incapazes de ter uma verdadeira
relação humana com quer que seja.
A solidão interativa grassa nas redes sociais,
especialmente no facebook. São fotos e fotos
postadas – a maioria – forjando uma felicidade
quando, na verdade, é tudo fake. As mais usuais
são aquelas em que o autor se autofotografa – as
famosas selfies – e sai espalhando-as de um dia
para o outro, quando não, de uma hora para outra.
Tem as gastronômicas. Aquelas em que o autor
antes de comer um prato ou uma iguaria especial,
fotografa e já a lança na rede como a dizer que está
podendo. Mas aquela comidinha do dia a dia, a
da vida real, ele jamais vai postar. Ovo frito? Nem
pensar! E aquelas dos momentos felizes? Sim, tem
gente que acha que os seus instantes de lazer e
diversão têm que, obrigatoriamente, ser vistos
por todos. E lá vai um post ao lado do namorado
ou namorada, dos amigos, geralmente com ares
de forçação de barra. Porque a gaiola do tempo,
forjada por nós mesmos, só pode ser aberta pela
chave da felicidade plena.
E tem aquela que é emblemática: a mensagem
em que o internauta revela o status do seu
sentimento. Mas o ápice da solidão interativa está
naquela figura que posta alguma coisa e ela mesma
vai lá e a curte. De dar dó, não?
Temos milhares de ‘amigos’ nessa cornucópia
virtual. Nessa Caixa de Pandora do Século XXI,
eis-nos diante de uma incoerente quimera: o
autoengano. [...]
O autoengano é peça-chave para a nossa
sobrevivência. Mentimos – a partir dos dois meses de
idade – não só para os outros, mas, principalmente,
para nós mesmos. Mesmo protegidos na redoma da
interatividade, continuamos sós, ali, onde apenas
a solidão nos alcança. Enquanto teclamos a torto
e a direito, sugerindo que estamos sempre ON, a
vida verdadeira continua OFF. E nunca nos damos
conta de que, no fim, toda a solidão que nos rodeia,
essa sim, é real. Porque bytes, bits e pixels não
transmitem calor. E o verbo sem o hálito quente é
apenas palavra morta.
Adaptado de:< http://lounge.obviousmag.org/espantalho_lirico/
2016/08/solidao-interativa.html >.
No excerto “Wolton justifica-se dizendo que
a internet é incrível para a comunicação entre
pessoas e grupos que tenham os mesmos
interesses, mas está longe de ser uma
ferramenta de comunicação de coesão entre
pessoas e grupos diferentes. E que por isso,
a internet não é uma mídia, mas um sistema
de comunicação comunitário.”, os termos
destacados são, respectivamente:
Texto associado
Texto III
Quando eu for bem velhinho — continuação 2
O tempo do carnaval era obrigatório. A despeito
de todas as mudanças, ele continua sendo a pausa
que dá sentido e razão ao tempo como uma majes-
tade humana. Este imperador sem rivais que diz que
5 passa quando, de fato, quem passa somos nós.
Uma lenda escandinava, traduzida à luz da
análise pelo sábio das línguas e costumes euro-
-europeus Georges Dumézil, conta a história de um
camponês que, sem querer, libertou o diabo de um
10 caixote que ele transportava para um padre na sua
carroça. Livre e solto, o diabo — que está sempre
fazendo alguma coisa — começou a surrar o seu
involuntário libertador, perguntando ansiosamente:
“O que devo fazer?” O camponês mandou que ele
15 construísse uma ponte de pedra e, em instantes, ela
ficou pronta. E logo o diabo perguntou novamente:
“O que devo fazer?” O camponês mandou que o
diabo juntasse todos os excrementos de cavalo do
reino da Dinamarca e, num instante, a tarefa estava
20 cumprida. Aterrorizado porque ia apanhar novamen-
te, o camponês teve a feliz ideia de mandar que o
diabo recuperasse o tempo. Sabendo que o tempo
era precioso, o diabo saiu em sua busca, mas não
conseguia alcançá-lo. Trouxe dele pedaços, mas
25 não o tempo inteiro como ordenara o camponês.
Não tendo observado a tarefa, o diabo voltou para
a caixa.
O tempo como potência impossível de ser apa-
nhada foi brilhantemente descrito por Frei Antônio
30 das Chagas num poema escrito nos mil seiscentos
e tanto:
Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou do meu tempo dar-lhe conta.
Mas como dar, sem tempo, tanta conta
35 ___ Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?
Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado e não fiz conta,
Não quis, sobrando tempo, fazer conta.
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo.
_
40 ___ Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!
_
Pois aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar de prestar conta,
45 ___ Chorarão, como eu, o não ter tempo...
Afinal, somos nós que brincamos o carnaval ou
é o carnaval que brinca conosco o tempo todo?
DAMATTA, R. O Globo, Rio de Janeiro, 10 fev. 2016. Primeiro
Caderno, p. 13. Adaptado.
Quando eu for bem velhinho — continuação 2
O tempo do carnaval era obrigatório. A despeito
de todas as mudanças, ele continua sendo a pausa
que dá sentido e razão ao tempo como uma majes-
tade humana. Este imperador sem rivais que diz que
5 passa quando, de fato, quem passa somos nós.
Uma lenda escandinava, traduzida à luz da
análise pelo sábio das línguas e costumes euro-
-europeus Georges Dumézil, conta a história de um
camponês que, sem querer, libertou o diabo de um
10 caixote que ele transportava para um padre na sua
carroça. Livre e solto, o diabo — que está sempre
fazendo alguma coisa — começou a surrar o seu
involuntário libertador, perguntando ansiosamente:
“O que devo fazer?” O camponês mandou que ele
15 construísse uma ponte de pedra e, em instantes, ela
ficou pronta. E logo o diabo perguntou novamente:
“O que devo fazer?” O camponês mandou que o
diabo juntasse todos os excrementos de cavalo do
reino da Dinamarca e, num instante, a tarefa estava
20 cumprida. Aterrorizado porque ia apanhar novamen-
te, o camponês teve a feliz ideia de mandar que o
diabo recuperasse o tempo. Sabendo que o tempo
era precioso, o diabo saiu em sua busca, mas não
conseguia alcançá-lo. Trouxe dele pedaços, mas
25 não o tempo inteiro como ordenara o camponês.
Não tendo observado a tarefa, o diabo voltou para
a caixa.
O tempo como potência impossível de ser apa-
nhada foi brilhantemente descrito por Frei Antônio
30 das Chagas num poema escrito nos mil seiscentos
e tanto:
Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou do meu tempo dar-lhe conta.
Mas como dar, sem tempo, tanta conta
35 ___ Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?
Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado e não fiz conta,
Não quis, sobrando tempo, fazer conta.
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo.
_
40 ___ Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!
_
Pois aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar de prestar conta,
45 ___ Chorarão, como eu, o não ter tempo...
Afinal, somos nós que brincamos o carnaval ou
é o carnaval que brinca conosco o tempo todo?
DAMATTA, R. O Globo, Rio de Janeiro, 10 fev. 2016. Primeiro
Caderno, p. 13. Adaptado.