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Texto CG1A1-I

O terror torna-se total quando independe de toda oposição; reina supremo quando ninguém mais lhe barra o caminho. Se a legalidade é a essência do governo não tirânico e a ilegalidade é a essência da tirania, então o terror é a essência do domínio totalitário. O terror é a realização da lei do movimento. O seu principal objetivo é tornar possível, à força da natureza ou da história, propagar-se livremente por toda a humanidade, sem o estorvo de qualquer ação humana espontânea. Como tal, o terror procura “estabilizar” os homens, a fim de liberar as forças da natureza ou da história. Esse movimento seleciona os inimigos da humanidade contra os quais se desencadeia o terror, e não pode permitir que qualquer ação livre, de oposição ou de simpatia, interfira com a eliminação do “inimigo objetivo” da história ou da natureza, da classe ou da raça. Culpa e inocência viram conceitos vazios; “culpado” é quem estorva o caminho do processo natural ou histórico que já emitiu julgamento quanto às “raças inferiores”, quanto a quem é “indigno de viver”, quanto a “classes agonizantes e povos decadentes”. O terror manda cumprir esses julgamentos, mas no seu tribunal todos os interessados são subjetivamente inocentes: os assassinados porque nada fizeram contra o regime, e os assassinos porque realmente não assassinaram, mas executaram uma sentença de morte pronunciada por um tribunal superior. Os próprios governantes não afirmam serem justos ou sábios, mas apenas executores de leis, teóricas ou naturais; não aplicam leis, mas executam um movimento segundo a sua lei inerente.
No governo constitucional, as leis positivas destinam-se a erigir fronteiras e a estabelecer canais de comunicação entre os homens, cuja comunidade é continuamente posta em perigo pelos novos homens que nela nascem. A estabilidade das leis corresponde ao constante movimento de todas as coisas humanas, um movimento que jamais pode cessar enquanto os homens nasçam e morram. As leis circunscrevem cada novo começo e, ao mesmo tempo, asseguram a sua liberdade de movimento, a potencialidade de algo inteiramente novo e imprevisível; os limites das leis positivas são para a existência política do homem o que a memória é para a sua existência histórica: garantem a preexistência de um mundo comum, a realidade de certa continuidade que transcende a duração individual de cada geração, absorve todas as novas origens e delas se alimenta.
Confundir o terror total com um sintoma de governo tirânico é tão fácil, porque o governo totalitário tem de conduzir-se como uma tirania e põe abaixo as fronteiras da lei feita pelos homens. Mas o terror total não deixa atrás de si nenhuma ilegalidade arbitrária, e a sua fúria não visa ao benefício do poder despótico de um homem contra todos, muito menos a uma guerra de todos contra todos. Em lugar das fronteiras e dos canais de comunicação entre os homens individuais, constrói um cinturão de ferro que os cinge de tal forma que é como se a sua pluralidade se dissolvesse em Um-Só-Homem de dimensões gigantescas. Abolir as cercas da lei entre os homens — como o faz a tirania — significa tirar dos homens os seus direitos e destruir a liberdade como realidade política viva, pois o espaço entre os homens, delimitado pelas leis, é o espaço vital da liberdade.

Hannah Arendt. Origens do totalitarismo . Internet: (com adaptações).

No último período do segundo parágrafo do texto CG1A1-I, o termo “absorve” refere-se

A a “preexistência de um mundo comum”.
B a “o que a memória é para a sua existência histórica”.
C a “certa continuidade”.
D ao fato de “os limites das leis positivas” serem “para a existência política do homem o que a memória é para a sua existência histórica”.
E a “duração individual de cada geração”.
Órgão: Defensoria Pública do Estado de Rondônia Cargo: Analista da Defensoria Pública - Área: Analista em Engenharia Civil Prova: CESPE/CEBRASPE - DPE RO - Analista da Defensoria Pública - Área: Analista em Engenharia Civil - 2022
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Texto CG1A1-II

Amado nos levou com um grupo para descansarmos na fazenda de um amigo. Esta confirmava as descrições que eu lera no livro de Freyre: embaixo, as habitações de trabalhadores, a moenda, onde se mói a cana, uma capela ao longe; na colina, uma casa. O amigo de Amado e sua família estavam ausentes; tive uma primeira amostra da hospitalidade brasileira: todo mundo achava normal instalar-se na varanda e pedir que servissem bebidas. Amado encheu meu copo de suco de caju amarelo-pálido: ele pensava, como eu, que se conhece um país em grande parte pela boca. A seu pedido, amigos nos convidaram para comer o prato mais típico do Nordeste: a feijoada.
Eu lera no livro de Freyre que as moças do Nordeste casavam-se outrora aos treze anos. Um professor me apresentou sua filha, muito bonita, muito pintada, olhos de brasa: quatorze anos. Nunca encontrei adolescentes: eram crianças ou mulheres feitas. Estas, no entanto, fanavam-se com menos rapidez do que suas antepassadas; aos vinte e seis e vinte e quatro anos, respectivamente, Lucia e Cristina irradiavam juventude. A despeito dos costumes patriarcais do Nordeste, elas tinham liberdades; Lucia lecionava, e Cristina, desde a morte do pai, dirigia, nos arredores de Recife, um hotel de luxo pertencente à família; ambas faziam um pouco de jornalismo, e viajavam.

Simone de Beauvoir. A força das coisas . Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 2018, p. 497-498 (com adaptações).

Com relação às ideias, aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto CG1A1-II, julgue os seguintes itens.

No segundo parágrafo, o vocábulo “suas”, em “suas antepassadas”, refere-se a “crianças”.

C Certo
E Errado
Órgão: Ministério da Justiça e Segurança Pública Cargo: Técnico Especializado - Área: Gestão de Ativos e Parcerias Prova: CESPE/CEBRASPE - MJ - Técnico Especializado - Área: Gestão de Ativos e Parcerias - 2022
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Se é reversível, se joga!
Aline Gomes

Quem me conhece sabe que eu sou a princesa dos ditados, porque a rainha é minha mãe, temos um ditado pra maioria das situações, e quando não temos um inventamos um nosso. E eu vou criar pra gente começar bem nosso colu-papo: Se é reversível vai sem medo, se não é pensa mais 2 minutos e vai com medo mesmo. Tá, mas por que que tô dizendo isso?! Senta que lá vem história!
Desde criança sempre gostei de música, eletrônica, natureza e de consertar qualquer coisa, cantei na igreja, alguma coisa dentro de mim me dizia que seria cantora, escolhi aprender a tocar violão ao invés de inglês, dentre várias decisões fazer computação foi uma delas. É interessante como a decisão da sua formação é tratada como um definidor de que tipo de pessoa você vai ser, é como se isso te colocasse numa caixinha intransferível pra sempre. No meio desse turbilhão de incertezas que estamos vivendo, tenho acompanhado minha sobrinha definir qual curso ela vai fazer, eu já disse logo pra ela, amada infelizmente nessa não posso te ajudar muito, pois quando eu tive que fazer isso o Brasil era outro lá em 2006. Ter que falar isso pra ela no nosso primeiro papo, me fez ficar bem reflexiva sobre essa parada de escolher um curso/profissão. Foi dai que comecei a pensar e a observar melhor todas as pessoas com quem trabalho que fizeram migração de carreira e, vou te falar, com certeza temos muito que aprender com elas, que sangue no olho é o que não falta. [...]
Já faz um tempo que a tecnologia deixou de ser sobre máquinas. É sobre pessoas e suas experiências transformadas em produtos de software, e pra mim quanto mais gente vinda de todas as áreas estiverem envolvidas nisso, mais rica, acessível, inclusiva, bonita e cheirosa será a tecnologia.
E depois de refletir sobre migração de carreira entendi que o dilema de escolher um curso não precisa ser tão doloroso porque, como diz o meu ditado, se é reversível se joga, porque enquanto for possível estar aqui, é possível tomar novos caminhos, aprender novas coisas, carreiras e pessoas. Eu corri pra compartilhar essa minha conclusão com a minha sobrinha e agora com você, desejo aí coragem e leveza por que o que é reversível a gente sempre vai dar um jeito. A tecnologia precisa disso tudo que você já sabe.
Adaptado de: https://midianinja.org/laisgomes/se-ereversivel-se-joga/ Acesso em: 01 dez. 2021.

Sobre o item destacado em “[...] quando eu tive que fazer isso o Brasil era outro [...]”, assinale a alternativa correta.

A É um elemento que pertence ao grupo dos conectores, com a função de fornecer coesão ao texto, estabelecendo uma relação temporal entre as orações.
B Poderia ser substituído por “meu curso de graduação”, sem que isso modificasse o sentido do excerto.
C Possui como referente um substantivo mencionado anteriormente no texto.
D Retoma de modo resumitivo uma ideia complexa na forma de um único termo lexical.
E Poderia ser adequadamente substituído por um pronome pessoal do caso reto do gênero masculino.
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Texto 2A1-I

Tinha de deixar aquela casa. Não sentia saudades. Era uma casa escura, com um cheiro doce e enjoado que nunca passou. Não tinha vista a não ser a da janela que dava para o edifício ao lado. E só via as cozinhas. Quando anoitecia, toda aquela vizinhança começava, ao mesmo tempo, a fazer bife, e o ar ficava cheirando a cebola e alho. Ia-se embora, com alegria até, porque o outro apartamento tinha uma janela de onde era possível ver o mar, não todo, mas um pedacinho que, lá um dia, talvez lhe mostrasse um navio passando. Claro, arejado.
Mas era preciso levar suas poucas coisas. Uma calça, duas camisas, um rádio de cabeceira, talcos, dentifrícios, uma lavanda, quatro ou cinco toalhas. Cabia tudo em uma mala só. Mas tinha a gaveta. Tinha de desocupar aquela gaveta. Cinco ou seis cartas guardadas ali.
Resolveu ler, a começar pela primeira, pondo-as em ordem pelas datas. Ela dizia tanto “te amo, te amo”... e contava que andara chorando na rua, que o fora esperar na estação, que a parenta já andava desconfiada de sua tristeza. No fundo de um envelope, o raminho de cabelo. Havia escurecido com o tempo, mas era um pedacinho de sua beleza e, de qualquer forma, um pouco de presença a querer bem.

Antônio Maria. Com vocês, Antônio Maria. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1994, p. 83-84 (com adaptações).

Com referência às ideias e aos aspectos linguísticos do texto 2A1-I, julgue os itens a seguir.

Os vocábulos “Claro” e “arejado” (ao final do primeiro parágrafo) fazem referência a “navio”, vocábulo que os antecede no período anterior.

C Certo
E Errado
Texto associado
Atenção : Considere o texto abaixo, para responder às questões de números 1 a 4.

O bafo largo do animal revelava- lhe o porte, mas a densidade do escuro escondia tudo. Estavam como dois ruídos inimigos em lugar nenhum. Saberiam nada mais do que o ruído e o odor de cada um. Mediam a mútua coragem e o mútuo medo sem se poderem ver. O artesão pensou. Se o predador estivesse capaz já o teria mordido avidamente. Por isso, talvez se salvasse se lhe evitasse a boca pousada para um ou outro lado. Fez contas. A respiração aflita do companheiro vinha da sua esquerda, precisava claramente de conservar-se à direita, longe de dentes, mais seguro. Julgou que à luz do dia veria o inimigo e alguém o acudiria. Se lhe descessem uma lâmina haveria de a enfiar nas tripas nervosas do bicho e o saberia morto. Poderia descansar na sua provação, que era já coisa bastante para o arreliado do espírito que costumava ter.
A noite toda se foi medindo no exíguo espaço e prestou atenção àquela aflição contínua. Mas, com o dia, seguiu sem ver. A roda de céu que declinava ao chão transbordava, pelo que quase nada baixava. No fundo tão fundo eram só cegos. Foi quando Itaro distinguiu lucidamente o que lhe ocorria. Estar no fundo do poço era menos estar no fundo do poço e mais estar cego, igual a Matsu, a sua irmã. Estava, por fim, capturado pelo mundo da irmã. A menina habitava o radical puro da natureza.

(MÃE, Valter Hugo. A lenda do poço in Homens imprudentemente poéticos . São Paulo: Biblioteca Azul, 2016, p. 124-125)

Em suas quatro ocorrências, o pronome lhe , sublinhado no texto, refere-se à personagem

A Itaro em duas ocasiões, a Matsu em uma e ao animal em uma.
B Matsu em três ocasiões e ao animal em uma.
C Itaro em três ocasiões e ao animal em uma.
D Matsu em duas ocasiões, a Itaro em uma e ao animal em uma.
E Itaro em três ocasiões e a Matsu em uma.
Texto associado
Atenção : Considere o texto abaixo, para responder às questões de números 5 e 6.

15 DE JULHO DE 1955. Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos gêneros alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela usar.
Eu não tinha um tostão para comprar pão. Então eu levei 3 litros e troquei com o Arnaldo. Ele ficou com os litros e deu-me pão. Fui receber o dinheiro do papel. Recebi 65 cruzeiros. Comprei 20 de carne. 1 quilo de toucinho e 1 quilo de açúcar e seis cruzeiros de queijo. E o dinheiro acabou-se.
Passei o dia indisposta. Percebi que estava resfriada. À noite o peito doía-me. Comecei tossir. Resolvi não sair à noite para catar papel. Procurei meu filho João José. Ele estava na rua Felisberto de Carvalho, perto do mercadinho. O ônibus atirou um garoto na calçada e a turba afluiu-se. Ele estava no núcleo. Dei-lhe uns tapas e em 5 minutos ele chegou em casa.
Ablui as crianças e aleitei-as e ablui-me e aleitei-me. Esperei até às 11 horas, um certo alguém. Ele não veio. Tomei um melhoral e deitei-me novamente. Quando despertei o astro rei deslizava no espaço. A minha filha Vera Eunice dizia: − Vai buscar água, mamãe!

(Adaptado de: JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada . São Paulo: Editora Ática, 1992, p. 9)

Em Ele estava no núcleo (3 o parágrafo), o pronome refere-se a

A João José.
B Felisberto de Carvalho.
C ônibus.
D mercadinho.
E garoto.
Texto associado
Atenção : Para responder às questões de números 1 a 5, baseie-se no texto abaixo.

Distribuição justa

A justiça de um resultado distributivo das riquezas depende das dotações iniciais dos participantes e da lisura do processo do qual ele decorre. Do ponto de vista coletivo, a questão crucial é: a desigualdade observada reflete essencialmente os talentos, esforços e valores diferenciados dos indivíduos, ou, ao contrário, ela resulta de um jogo viciado na origem e no processo, de uma profunda falta de equidade nas condições iniciais de vida, da privação de direitos elementares ou da discriminação racial, sexual, de gênero ou religiosa?
A condição da família em que uma criança tiver a sorte ou o infortúnio de nascer, um risco comum, a todos, passa a exercer um papel mais decisivo na definição de seu futuro do que qualquer outra coisa ou escolha que possa fazer no ciclo da vida. A falta de um mínimo de equidade nas condições iniciais e na capacitação para a vida tolhe a margem de escolha, vicia o jogo distributivo e envenena os valores da convivência. A igualdade de oportunidades está na origem da emancipação das pessoas. Crianças e jovens precisam ter a oportunidade de desenvolver seus talentos de modo a ampliar seu leque de escolhas possíveis na vida prática e eleger seus projetos, apostas e sonhos de realização.

(Adaptado de: GIANETTI, Eduardo. Trópicos utópicos . São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 106)

No contexto do primeiro parágrafo, as expressões dotações iniciais de participantes e lisura do processo constituem

A as metas mais justas a serem alcançadas por um conveniente processo distributivo das limitadas riquezas disponíveis.
B os fatores diretamente condicionantes da possibilidade de haver justiça no processo distributivo das riquezas.
C as razões de ser de todo processo de distribuição de riquezas que premie o talento inato dos mais competentes.
D um objetivo idealista cuja aparência de justiça se apaga quando competidores aproveitam mal oportunidades iguais.
E as causas ocultas da distribuição de riquezas que acaba por não fazer justiça às habilidades próprias dos indivíduos.
Órgão: Assembléia Legislativa do Amapá Cargo: Analista Legislativo Atividade de Comunicação - Área: Comunicador Social Publicidade e Propaganda Prova: FCC - ALE AP - Analista Legislativo Atividade de Comunicação - Área: Comunicador Social Publicidade e Propaganda - 2020