Sou feliz pelos amigos que tenho. Um deles muito sofre pelo meu descuido com o vernáculo. Por alguns anos ele sistematicamente me enviava missivas eruditas com precisas informações sobre as regras da gramática, que eu não respeitava, e sobre a grafia correta dos vocábulos, que eu ignorava. Fi-lo sofrer pelo uso errado que fiz de uma palavra no último Quarto de Badulaques . Acontece que eu, acostumado a conversar com a gente das Minas Gerais, falei em “varreção” — do verbo “varrer”. De fato, tratava-se de um equívoco que, num vestibular, poderia me valer uma reprovação. Pois o meu amigo, paladino da língua portuguesa, se deu ao trabalho de fazer um xerox da página 827 do dicionário. O certo é “varrição”, e não “varreção”. Mas estou com medo de que os mineiros da roça façam troça de mim, porque nunca os ouvi falar de “varrição”. E se eles rirem de mim não vai me adiantar mostrar-lhes o xerox da página do dicionário. Porque para eles não é o dicionário que faz a língua. É o povo. E o povo, lá nas montanhas de Minas Gerais, fala “varreção”, quando não “barreção”. O que me deixa triste sobre esse amigo oculto é que nunca tenha dito nada sobre o que eu escrevo, se é bonito ou se é feio. Toma a minha sopa, não diz nada sobre ela, mas reclama sempre que o prato está rachado.
Rubem Alves. Internet: (com adaptações).
A respeito dos sentidos e dos aspectos linguísticos do texto anterior, julgue os seguintes itens.
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Texto associado
Texto CG1A1-I
Algumas das primeiras incursões pelos mundos paralelos ocorreram na década de 50 do século passado, graças ao trabalho de pesquisadores interessados em certos aspectos da mecânica quântica — teoria desenvolvida para explicar os fenômenos que ocorrem no reino microscópico dos átomos e das partículas subatômicas. A mecânica quântica quebrou o molde da mecânica clássica, que a antecedeu, ao firmar o conceito de que as previsões científicas são necessariamente probabilísticas. Podemos prever a probabilidade de alcançar determinado resultado ou outro, mas em geral não podemos prever qual deles acontecerá. Essa quebra de rumo com relação a centenas de anos de pensamento científico já é suficientemente chocante, mas há outro aspecto da teoria quântica que nos confunde ainda mais, embora desperte menos atenção. Depois de anos de criterioso estudo da mecânica quântica, e depois da acumulação de uma pletora de dados que confirmam suas previsões probabilísticas, ninguém até hoje soube explicar por que razão apenas uma das muitas resoluções possíveis de qualquer situação que se estude torna-se real. Quando fazemos experimentos, quando examinamos o mundo, todos estamos de acordo com o fato de que deparamos com uma realidade única e definida. Contudo, mais de um século depois do início da revolução quântica, não há consenso entre os físicos quanto à razão e à forma de compatibilizar esse fato básico com a expressão matemática da teoria.
Brian Greene. A realidade oculta: universos paralelos e as leis profundas do cosmo. José Viegas Jr. (Trad.) São Paulo: Cia das Letras, 2012, p. 15-16 (com adaptações).
Com relação aos aspectos linguísticos do texto CG1A1-I, julgue os itens a seguir.
Algumas das primeiras incursões pelos mundos paralelos ocorreram na década de 50 do século passado, graças ao trabalho de pesquisadores interessados em certos aspectos da mecânica quântica — teoria desenvolvida para explicar os fenômenos que ocorrem no reino microscópico dos átomos e das partículas subatômicas. A mecânica quântica quebrou o molde da mecânica clássica, que a antecedeu, ao firmar o conceito de que as previsões científicas são necessariamente probabilísticas. Podemos prever a probabilidade de alcançar determinado resultado ou outro, mas em geral não podemos prever qual deles acontecerá. Essa quebra de rumo com relação a centenas de anos de pensamento científico já é suficientemente chocante, mas há outro aspecto da teoria quântica que nos confunde ainda mais, embora desperte menos atenção. Depois de anos de criterioso estudo da mecânica quântica, e depois da acumulação de uma pletora de dados que confirmam suas previsões probabilísticas, ninguém até hoje soube explicar por que razão apenas uma das muitas resoluções possíveis de qualquer situação que se estude torna-se real. Quando fazemos experimentos, quando examinamos o mundo, todos estamos de acordo com o fato de que deparamos com uma realidade única e definida. Contudo, mais de um século depois do início da revolução quântica, não há consenso entre os físicos quanto à razão e à forma de compatibilizar esse fato básico com a expressão matemática da teoria.
Brian Greene. A realidade oculta: universos paralelos e as leis profundas do cosmo. José Viegas Jr. (Trad.) São Paulo: Cia das Letras, 2012, p. 15-16 (com adaptações).
Com relação aos aspectos linguísticos do texto CG1A1-I, julgue os itens a seguir.
No trecho “por que razão”, no quinto período, o vocábulo “que” poderia ser substituído por qual , sem prejuízo da correção gramatical do texto.
Texto associado
Atenção : Para responder às questões de números 1 a 7, baseie-se no texto abaixo.
a fim de melhorar a situação do mundo em que operam. (8 o parágrafo)
O segmento sublinhado acima pode ser corretamente substituído por:
Texto associado
Atenção: Para responder às questões de números 6 a 10, baseie-se no texto abaixo.
O século XX, Era dos Extremos
O século XX deixou um legado inegável de questões e impasses. Para o grande historiador Eric Hobsbawm, neste livro Era
dos Extremos - o breve século XX - 1914-1991 , esse século foi breve e extremado: sua história e suas possibilidades edificaram-se
sobre catástrofes, incertezas e crises, decompondo o que fora construído no longo século XIX.
Hobsbawm divide a história do século XX em três “eras”. A primeira, “da catástrofe”, é marcada pelas duas grandes guerras,
pelas ondas de revolução global em que o sistema político e econômico da URSS surgia como alternativa histórica para o capitalismo
e pela virulência da crise econômica de 1929. Também nesse período os fascismos e o descrédito das democracias liberais surgem
como proposta mundial.
A segunda “era” são os anos dourados das décadas de 1950 e 1960 que, em sua paz congelada, viram a viabilização e a
estabilização do capitalismo, responsável pela promoção de uma extraordinária expansão econômica e profundas transformações
sociais.
Por fim, entre 1970 e 1991, dá-se o “desmoronamento” final, em que caem por terra os sistemas institucionais que previnem e
limitam o barbarismo contemporâneo, dando lugar à brutalização da política e à irresponsabilidade teórica da ortodoxia econômica,
abrindo as portas para um futuro incerto.
(Adaptado da “orelha”, sem indicação autoral, do livro de Eric Hobsbawm acima referido, editado em São Paulo pela Companhia das Letras,
em 1995)
O século XX, Era dos Extremos
O século XX deixou um legado inegável de questões e impasses. Para o grande historiador Eric Hobsbawm, neste livro Era
dos Extremos - o breve século XX - 1914-1991 , esse século foi breve e extremado: sua história e suas possibilidades edificaram-se
sobre catástrofes, incertezas e crises, decompondo o que fora construído no longo século XIX.
Hobsbawm divide a história do século XX em três “eras”. A primeira, “da catástrofe”, é marcada pelas duas grandes guerras,
pelas ondas de revolução global em que o sistema político e econômico da URSS surgia como alternativa histórica para o capitalismo
e pela virulência da crise econômica de 1929. Também nesse período os fascismos e o descrédito das democracias liberais surgem
como proposta mundial.
A segunda “era” são os anos dourados das décadas de 1950 e 1960 que, em sua paz congelada, viram a viabilização e a
estabilização do capitalismo, responsável pela promoção de uma extraordinária expansão econômica e profundas transformações
sociais.
Por fim, entre 1970 e 1991, dá-se o “desmoronamento” final, em que caem por terra os sistemas institucionais que previnem e
limitam o barbarismo contemporâneo, dando lugar à brutalização da política e à irresponsabilidade teórica da ortodoxia econômica,
abrindo as portas para um futuro incerto.
(Adaptado da “orelha”, sem indicação autoral, do livro de Eric Hobsbawm acima referido, editado em São Paulo pela Companhia das Letras,
em 1995)
É inegável que o século XX deixou-nos um legado de impasses, a gravidade desses impasses se faz sentir até hoje, uma vez
que não solucionamos esses impasses nem mesmo amenizamos as consequências desses impasses .
Evitam-se as viciosas repetições da frase acima substituindo-se os elementos sublinhados, na ordem dada, por:
Texto associado
ENTENDENDO DIALETOS
Clara Braga
Quem já teve a oportunidade de conviver minimamente com uma criança, sabe que o processo de aprender a falar pode render boas histórias.
As crianças, antes de desenvolverem 100% dessa habilidade, parece que criam um dialeto. E engana-se quem acha que o dialeto de todas as crianças é igual e que, se você entende o que seu sobrinho ou priminho fala, vai entender todas as crianças.
O dialeto da criança é tão complexo que, com exceção de poucas palavras que todas parecem falar de uma forma igual, só aquela criança fala aquela língua e só uma pessoa entende 100% do que está sendo dito: o ser que eu chamo de “pãe”.
“Pãe” seria a mistura do pai e da mãe, pois raramente um dos dois entende tudo o que o filho está dizendo, eles podem entender a frase toda pelo contexto, mas decifrar e compreender palavrinha por palavrinha, é um trabalho de grupo.
Às vezes pode parecer complicada essa coisa de não entender o que a criança está querendo dizer, mas confiem, em alguns momentos isso pode ser bom.
Outro dia estava em um restaurante com meu filho e, como toda criança, ele ficou um tempo sentado e depois foi explorar a redondeza. Fui acompanhando e, no caminho, encontramos uma avó que estava acompanhando a neta enquanto a mãe jantava no mesmo restaurante onde estávamos.
A senhora começou a puxar assunto com meu filho, na tentativa de aproximar a neta. Meu filho se mostrou aberto à aproximação e ia respondendo tudo que a senhora perguntava. Lá pelas tantas, quando eu já estava surpreendida com a quantidade de palavras que a senhora estava entendendo do dialeto do meu filho, ele decidiu pegar algo com a mão e mostrar para a senhora e para a pequena netinha o quão forte ele era. Foi então que a senhora soltou a frase: uau, como você é forte!
Ele respondeu com uma de suas frases prediletas, aprendida por causa de seu interesse e do vício do pai pelo universo dos heróis: Hulk esmagaaaaaa! Mas ele não disse com um ar doce, ele disse como se estivesse com raiva e de fato esmagando o que estava na sua mão, tudo isso enquanto olhava bem nos olhos na netinha da senhora.
Eu fiquei um pouco assustada e com receio do que viria depois, já dei um riso meio sem graça e estava procurando uma desculpa para aquela frase nada acolhedora. Porém, os santos do dialeto me salvaram. Quando ouviu a frase a senhora logo respondeu para meu filho: ah sim, você é forte porque come manga! Vou dar muita manga para minha netinha, assim ela fica forte como você!
Fiquei aliviada com a interpretação que ela fez da frase que, para mim, ele tinha dito com muita clareza. Muito melhor uma neta comendo muita manga do que traumatizada com um bebê que estava prestes a ficar verde e esmagar as coisas ao redor. Acho que vou optar por mostrar para ele desenhos com frases mais amigáveis, ele está indo bem no processo da fala, mas talvez algo mais dócil ajude no processo de socialização.
Disponível em:
< http://www.cronicadodia.com.br/2020/ 01/entendendo-dialetos-clara-braga.html >. Acesso em: 04 fev. 2020.
Clara Braga
Quem já teve a oportunidade de conviver minimamente com uma criança, sabe que o processo de aprender a falar pode render boas histórias.
As crianças, antes de desenvolverem 100% dessa habilidade, parece que criam um dialeto. E engana-se quem acha que o dialeto de todas as crianças é igual e que, se você entende o que seu sobrinho ou priminho fala, vai entender todas as crianças.
O dialeto da criança é tão complexo que, com exceção de poucas palavras que todas parecem falar de uma forma igual, só aquela criança fala aquela língua e só uma pessoa entende 100% do que está sendo dito: o ser que eu chamo de “pãe”.
“Pãe” seria a mistura do pai e da mãe, pois raramente um dos dois entende tudo o que o filho está dizendo, eles podem entender a frase toda pelo contexto, mas decifrar e compreender palavrinha por palavrinha, é um trabalho de grupo.
Às vezes pode parecer complicada essa coisa de não entender o que a criança está querendo dizer, mas confiem, em alguns momentos isso pode ser bom.
Outro dia estava em um restaurante com meu filho e, como toda criança, ele ficou um tempo sentado e depois foi explorar a redondeza. Fui acompanhando e, no caminho, encontramos uma avó que estava acompanhando a neta enquanto a mãe jantava no mesmo restaurante onde estávamos.
A senhora começou a puxar assunto com meu filho, na tentativa de aproximar a neta. Meu filho se mostrou aberto à aproximação e ia respondendo tudo que a senhora perguntava. Lá pelas tantas, quando eu já estava surpreendida com a quantidade de palavras que a senhora estava entendendo do dialeto do meu filho, ele decidiu pegar algo com a mão e mostrar para a senhora e para a pequena netinha o quão forte ele era. Foi então que a senhora soltou a frase: uau, como você é forte!
Ele respondeu com uma de suas frases prediletas, aprendida por causa de seu interesse e do vício do pai pelo universo dos heróis: Hulk esmagaaaaaa! Mas ele não disse com um ar doce, ele disse como se estivesse com raiva e de fato esmagando o que estava na sua mão, tudo isso enquanto olhava bem nos olhos na netinha da senhora.
Eu fiquei um pouco assustada e com receio do que viria depois, já dei um riso meio sem graça e estava procurando uma desculpa para aquela frase nada acolhedora. Porém, os santos do dialeto me salvaram. Quando ouviu a frase a senhora logo respondeu para meu filho: ah sim, você é forte porque come manga! Vou dar muita manga para minha netinha, assim ela fica forte como você!
Fiquei aliviada com a interpretação que ela fez da frase que, para mim, ele tinha dito com muita clareza. Muito melhor uma neta comendo muita manga do que traumatizada com um bebê que estava prestes a ficar verde e esmagar as coisas ao redor. Acho que vou optar por mostrar para ele desenhos com frases mais amigáveis, ele está indo bem no processo da fala, mas talvez algo mais dócil ajude no processo de socialização.
Disponível em:
< http://www.cronicadodia.com.br/2020/ 01/entendendo-dialetos-clara-braga.html >. Acesso em: 04 fev. 2020.
Assinale a alternativa que apresenta uma palavra que NÃO poderia substituir, sem alterar o sentido pretendido no texto, o vocábulo destacado em “Eu fiquei um pouco assustada e com receio do que viria depois, já dei um riso meio sem graça e estava procurando uma desculpa para aquela frase nada acolhedora .”.
Texto associado
Texto
I
Culpa
Mario Prata
Por que a culpa? É o que eu
tenho perguntado
à minha psicanalista.
No princípio era o verbo e
eu achava que só
eu me sentia culpado. Com o passar do tempo
(e da verba), fui descobrindo que todo
criador tem culpa. Não no cartório. Mas na
consciência.
Vou
tentar explicar.
Todo mundo acha que a pessoa
que vive de
criar, ou seja, um criador, não faz nada o
dia inteiro. Fica só pensando. É verdade. O
problema é que ninguém considera o trabalho
de pensar como ofício. Daí a culpa
ensimesmada. Será que só pode ser
considerado trabalhador o sujeito que fica o
dia inteiro numa mesa de escritório, ouvindo
pela janela olha a uva de Atibaia,
melancia
barata, melancia barata ?
Você vê uma frase num out-
door tipo refresca
até pensamento . São três palavrinhas
mágicas. O sujeito que inventou isso deve
ganhar uma fortuna por mês. O que ninguém
entende é que ele trabalha há vinte neste
ofício. Pode ser que a frase tenha saído de
um estalo. Mas um estalo vinte anos depois.
Não precisa ser nenhuma brastemp para se ter
uma ideia dessas. Ou precisa? Mas o povo
pensa: ganhar essa fortuna para escrever uma
bobagem dessas?
Para aliviar meu sofrimento,
penso no
Romário que trabalha umas dez horas por mês
e ganha 100 mil dólares. Será que ele tem
culpa? O Chico Buarque, que fica meses sem
trabalhar , jogando futebol, será que
ele
acorda com culpa? E o Erasmo Carlos? Tem uma
culpa tremendona?
Vou almoçar fora e quase
emendo com o fim do
dia. Bebendo cerveja. Mas pensando. Pensando
nessas besteiras que vocês estão a ler
agora. Juro que eu trabalho, gente. Penso,
invento, crio. E esses funcionários
fantasmas, que trabalham em várias
repartições e nunca comparecem? Será que
eles não têm culpa? Será que só eu me sinto
culpado neste país?
Uma vez perguntei para o
Chico Buarque, que
acabava de acordar às duas da tarde, se ele
não tinha culpa. Já tive. Superei . E
o
Caetano Veloso que nunca acorda antes das
quatro (da tarde)?
Foram anos e anos de culpa
para conseguir
escrever esta crônica. Mas saiu. Mas não
adiantou nada. Continuo com culpa. Acho que
eu nunca deveria ter saído do Banco do
Brasil. Não bater ponto desnorteia a minha
vida.
Adaptado
de: .
Acesso em: 13 Jan. 2020
I
Culpa
Mario Prata
Por que a culpa? É o que eu
tenho perguntado
à minha psicanalista.
No princípio era o verbo e
eu achava que só
eu me sentia culpado. Com o passar do tempo
(e da verba), fui descobrindo que todo
criador tem culpa. Não no cartório. Mas na
consciência.
Vou
tentar explicar.
Todo mundo acha que a pessoa
que vive de
criar, ou seja, um criador, não faz nada o
dia inteiro. Fica só pensando. É verdade. O
problema é que ninguém considera o trabalho
de pensar como ofício. Daí a culpa
ensimesmada. Será que só pode ser
considerado trabalhador o sujeito que fica o
dia inteiro numa mesa de escritório, ouvindo
pela janela olha a uva de Atibaia,
melancia
barata, melancia barata ?
Você vê uma frase num out-
door tipo refresca
até pensamento . São três palavrinhas
mágicas. O sujeito que inventou isso deve
ganhar uma fortuna por mês. O que ninguém
entende é que ele trabalha há vinte neste
ofício. Pode ser que a frase tenha saído de
um estalo. Mas um estalo vinte anos depois.
Não precisa ser nenhuma brastemp para se ter
uma ideia dessas. Ou precisa? Mas o povo
pensa: ganhar essa fortuna para escrever uma
bobagem dessas?
Para aliviar meu sofrimento,
penso no
Romário que trabalha umas dez horas por mês
e ganha 100 mil dólares. Será que ele tem
culpa? O Chico Buarque, que fica meses sem
trabalhar , jogando futebol, será que
ele
acorda com culpa? E o Erasmo Carlos? Tem uma
culpa tremendona?
Vou almoçar fora e quase
emendo com o fim do
dia. Bebendo cerveja. Mas pensando. Pensando
nessas besteiras que vocês estão a ler
agora. Juro que eu trabalho, gente. Penso,
invento, crio. E esses funcionários
fantasmas, que trabalham em várias
repartições e nunca comparecem? Será que
eles não têm culpa? Será que só eu me sinto
culpado neste país?
Uma vez perguntei para o
Chico Buarque, que
acabava de acordar às duas da tarde, se ele
não tinha culpa. Já tive. Superei . E
o
Caetano Veloso que nunca acorda antes das
quatro (da tarde)?
Foram anos e anos de culpa
para conseguir
escrever esta crônica. Mas saiu. Mas não
adiantou nada. Continuo com culpa. Acho que
eu nunca deveria ter saído do Banco do
Brasil. Não bater ponto desnorteia a minha
vida.
Adaptado
de: .
Acesso em: 13 Jan. 2020
No trecho “Pensando nessas besteiras que vocês estão a ler agora.”, a perífrase verbal em destaque pode ser substituída adequadamente pelo verbo
Texto associado
TEXTO 1
A CRIAÇÃO DO MUNDO
(Revista e diminuída)
E no princípio era o verbo
depois o advérbio e o composto
veio então a raiz quadrada
povoar de teoremas as águas
do cérebro
como toda ciência – e muita, mas
muita paciência – criou
toda matéria que há
separando a geografia o
mar da terra
lá pela hora do recreio
veio a arte e a história
dar seus palpites
e foi depois da sétima aula
que o Professor descansou
não sem antes passar dois
mil anos de lição de casa
para que todos aprendessem
um pouco de tudo que há no mundo
e não levasse bomba no fim do ano.
(Ulisses Tavares, Viva a poesia, 1997, p. 48).
A CRIAÇÃO DO MUNDO
(Revista e diminuída)
E no princípio era o verbo
depois o advérbio e o composto
veio então a raiz quadrada
povoar de teoremas as águas
do cérebro
como toda ciência – e muita, mas
muita paciência – criou
toda matéria que há
separando a geografia o
mar da terra
lá pela hora do recreio
veio a arte e a história
dar seus palpites
e foi depois da sétima aula
que o Professor descansou
não sem antes passar dois
mil anos de lição de casa
para que todos aprendessem
um pouco de tudo que há no mundo
e não levasse bomba no fim do ano.
(Ulisses Tavares, Viva a poesia, 1997, p. 48).
Assinale o termo que pode ser utilizado
para substituir a expressão popular
“levasse bomba” sem alterar o sentido
apresentado no texto.
Texto associado
Somos solidários?
Juremir
Machado da Silva
Um
cachorrinho entrou na
ambulância para
acompanhar o dono. Um desempregado
enfrentou
um pitbull para salvar uma criança.
Pessoas
servem refeições sob os viadutos para
moradores
em situações de rua. Uma mulher faz
protesto
solitário contra os bilhões destinados ao
fundo
eleitoral que alimentará campanhas
políticas
cheias de truques publicitários. Como é a
vida
nestes tempos trepidantes e
tecnológicos?
Estávamos
em Santa
Catarina numa linda
pequena praia numa zona de proteção
ambiental.
Ao final da tarde, conseguimos, contra
todas as
expectativas, um Uber para ir a uma praia
vizinha
com uma faixa de areia maior para
caminhar. O
motorista não podia nos esperar para o
retorno.
Tentamos obter um carro de aplicativo até
que os
celulares começaram a sinalizar que
ficariam sem
bateria. Era um bairro fashion de imensas
casas,
carros poderosos e muita gente nas ruas,
mas
nada de bares, salvo uma padaria. A
estrada de
volta para a nossa praia, cheia de curvas,
não
tinha acostamento. Era um convite para um
acidente.
Táxis não
havia. A noite caía no último dia do
ano. Parou uma camionete. Fui conversar
com o
motorista. Ele disse que estávamos na
mesma
pousada, a uns 15 minutos de carro dali,
mas que
não podia nos levar por ter pressa de
chegar a
uma festa, a uns 15 minutos na direção
contrária,
onde passaria a noite. Tratei de mostrar-
lhe que
entendia perfeitamente a situação. A
pousada não
tinha carro disponível que soubéssemos.
Ainda
assim, se nada rolasse, ligaríamos para
pedir
resgate. Tão perto e tão longe. Meu
celular se
apagou. O da Cláudia ainda resistia.
Surgiu, então,
a esposa do homem da camionete. Ela saía
da
padaria com as últimas encomendas para a
festa.
Ficou constrangida com a nossa situação.
Quando
já se preparavam para sair, ela nos acenou
com
um papel: o telefone de um senhor que
fazia
corridas na região.
Ligamos. O homem que atendeu nos
prometeu aparecer em 40 minutos. Será que
viria?
Enquanto esperávamos, sentados na calçada,
víamos gente passar. Ninguém parecia nos
notar.
Comecei a me sentir profundamente
infeliz.
Refletia:
eu teria levado
aquele homem à pousada
se fosse eu a estar de carro e ele a
procurar uma
saída para a bobagem em que se metera? É
fácil
acusar o egoísmo alheio quando se está em
apuros. Faltando dez minutos, usamos o
último
restinho de bateria para conferir com Seu
Antônio
se, de fato, ele viria. Confirmou. No
máximo em 20
minutos. Passaria por nós, acenaria,
seguiria na
direção oposta com passageiros e voltaria
para
nos pegar. Assim aconteceu.
Precisamente.
O nosso
problema era tão
pequeno. Mesmo
assim, desagradável. Como teríamos
resolvido se
o desconhecido Seu Antônio, fazendo
corridas
havia apenas 15 dias, não fosse um homem
de
palavra, que queria, além de tudo, apenas
20 reais
pela viagem? Aprendi algumas pequenas
coisas:
não confiar cegamente na sorte e em
aplicativos,
ter fé nos homens simples, negociar melhor
a volta
quando a ida já é duvidosa. Uma coisa
ainda não
resolvi: eu teria voltado para deixar o
outro na
pousada?
Disponível em:
<
https://www.correiodopovo.com.br/blogs/jur
emirmachado/somossolid%
C3%A1rios-1.392893 >. Acesso em: 25
jan.
2020.
Juremir
Machado da Silva
Um
cachorrinho entrou na
ambulância para
acompanhar o dono. Um desempregado
enfrentou
um pitbull para salvar uma criança.
Pessoas
servem refeições sob os viadutos para
moradores
em situações de rua. Uma mulher faz
protesto
solitário contra os bilhões destinados ao
fundo
eleitoral que alimentará campanhas
políticas
cheias de truques publicitários. Como é a
vida
nestes tempos trepidantes e
tecnológicos?
Estávamos
em Santa
Catarina numa linda
pequena praia numa zona de proteção
ambiental.
Ao final da tarde, conseguimos, contra
todas as
expectativas, um Uber para ir a uma praia
vizinha
com uma faixa de areia maior para
caminhar. O
motorista não podia nos esperar para o
retorno.
Tentamos obter um carro de aplicativo até
que os
celulares começaram a sinalizar que
ficariam sem
bateria. Era um bairro fashion de imensas
casas,
carros poderosos e muita gente nas ruas,
mas
nada de bares, salvo uma padaria. A
estrada de
volta para a nossa praia, cheia de curvas,
não
tinha acostamento. Era um convite para um
acidente.
Táxis não
havia. A noite caía no último dia do
ano. Parou uma camionete. Fui conversar
com o
motorista. Ele disse que estávamos na
mesma
pousada, a uns 15 minutos de carro dali,
mas que
não podia nos levar por ter pressa de
chegar a
uma festa, a uns 15 minutos na direção
contrária,
onde passaria a noite. Tratei de mostrar-
lhe que
entendia perfeitamente a situação. A
pousada não
tinha carro disponível que soubéssemos.
Ainda
assim, se nada rolasse, ligaríamos para
pedir
resgate. Tão perto e tão longe. Meu
celular se
apagou. O da Cláudia ainda resistia.
Surgiu, então,
a esposa do homem da camionete. Ela saía
da
padaria com as últimas encomendas para a
festa.
Ficou constrangida com a nossa situação.
Quando
já se preparavam para sair, ela nos acenou
com
um papel: o telefone de um senhor que
fazia
corridas na região.
Ligamos. O homem que atendeu nos
prometeu aparecer em 40 minutos. Será que
viria?
Enquanto esperávamos, sentados na calçada,
víamos gente passar. Ninguém parecia nos
notar.
Comecei a me sentir profundamente
infeliz.
Refletia:
eu teria levado
aquele homem à pousada
se fosse eu a estar de carro e ele a
procurar uma
saída para a bobagem em que se metera? É
fácil
acusar o egoísmo alheio quando se está em
apuros. Faltando dez minutos, usamos o
último
restinho de bateria para conferir com Seu
Antônio
se, de fato, ele viria. Confirmou. No
máximo em 20
minutos. Passaria por nós, acenaria,
seguiria na
direção oposta com passageiros e voltaria
para
nos pegar. Assim aconteceu.
Precisamente.
O nosso
problema era tão
pequeno. Mesmo
assim, desagradável. Como teríamos
resolvido se
o desconhecido Seu Antônio, fazendo
corridas
havia apenas 15 dias, não fosse um homem
de
palavra, que queria, além de tudo, apenas
20 reais
pela viagem? Aprendi algumas pequenas
coisas:
não confiar cegamente na sorte e em
aplicativos,
ter fé nos homens simples, negociar melhor
a volta
quando a ida já é duvidosa. Uma coisa
ainda não
resolvi: eu teria voltado para deixar o
outro na
pousada?
Disponível em:
<
https://www.correiodopovo.com.br/blogs/jur
emirmachado/somossolid%
C3%A1rios-1.392893 >. Acesso em: 25
jan.
2020.
A palavra destacada em “Como é a vida
nestes tempos trepidantes e
tecnológicos?” poderia ser substituída,
sem alteração de sentido em relação ao
contexto em que aparece, por
Texto associado
1 Nunca os litígios estruturais estiveram tão em voga no
Brasil. Uma confluência de fatores contribui para tanto. Entre
eles, é possível mencionar o avanço na conscientização da luta
4 pela implementação de direitos — decorrente tanto da
amplitude do texto constitucional de 1988 quanto das
inovações tecnológicas de comunicação que estendem sua
7 divulgação —, o crescimento expressivo do número de
profissionais do direito dispostos a litigar essa espécie de
causas e o deslocamento do eixo de poder em favor do Poder
10 Judiciário. Garantida sua autonomia, era previsível que o Poder
Judiciário, elevado ao papel de guardião do texto
constitucional, expandisse sua atuação para searas antes inauditas.
13 Curiosamente, essa é uma revolução silenciosa, pelo
menos do ponto de vista prático: ressalvados casos específicos,
boa parte dos operadores envolvidos em um processo relativo
16 a um litígio estrutural sequer percebe, conscientemente, sua
posição. A teoria brasileira sobre o assunto, desenvolvida pelos
estudiosos, apesar de existente, ainda não se pode dizer
19 disseminada.
E. V. D. Lima. Litígios estruturais: decisão e implementação de mudanças socialmente relevantes pela via processual. In: Marco Félix Jobim e Sérgio Cruz Arenhart (Org.). Processos estruturais. 1.ª ed. Salvador: Editora Juspodivm, v. 1, 2017, p. 369-422 (com adaptações).
Com relação às ideias e aos aspectos linguísticos do texto precedente, julgue os itens a seguir.
Brasil. Uma confluência de fatores contribui para tanto. Entre
eles, é possível mencionar o avanço na conscientização da luta
4 pela implementação de direitos — decorrente tanto da
amplitude do texto constitucional de 1988 quanto das
inovações tecnológicas de comunicação que estendem sua
7 divulgação —, o crescimento expressivo do número de
profissionais do direito dispostos a litigar essa espécie de
causas e o deslocamento do eixo de poder em favor do Poder
10 Judiciário. Garantida sua autonomia, era previsível que o Poder
Judiciário, elevado ao papel de guardião do texto
constitucional, expandisse sua atuação para searas antes inauditas.
13 Curiosamente, essa é uma revolução silenciosa, pelo
menos do ponto de vista prático: ressalvados casos específicos,
boa parte dos operadores envolvidos em um processo relativo
16 a um litígio estrutural sequer percebe, conscientemente, sua
posição. A teoria brasileira sobre o assunto, desenvolvida pelos
estudiosos, apesar de existente, ainda não se pode dizer
19 disseminada.
E. V. D. Lima. Litígios estruturais: decisão e implementação de mudanças socialmente relevantes pela via processual. In: Marco Félix Jobim e Sérgio Cruz Arenhart (Org.). Processos estruturais. 1.ª ed. Salvador: Editora Juspodivm, v. 1, 2017, p. 369-422 (com adaptações).
Com relação às ideias e aos aspectos linguísticos do texto precedente, julgue os itens a seguir.