Leia o texto a seguir para responder às questões de 15 a 29.
Os impactos ambientais da computação
Intensivo em uso de energia e água, o setor responde
por 1,7% das emissões de carbono na atmosfera;
uma nova área de pesquisa surge para lidar com o problema
Parte essencial da vida moderna, a computação está em todos os lugares. É difícil imaginar o cotidiano sem os recursos do mundo digital, como internet, redes sociais, streaming de vídeo, programas de inteligência artificial e os mais variados aplicativos. Governos, organizações e empresas de diversos setores dependem cada vez mais das tecnologias da informação e comunicação (TIC). O crescente aumento da demanda computacional, contudo, gera impactos no meio ambiente. Estima-se que entre 5% e 9% da energia elétrica consumida no mundo se destine à infraestrutura de TI e comunicações em geral e ao seu uso. A Agência Internacional de Energia (IEA) alerta para uma tendência de forte aumento nessa demanda. O gasto energético de data centers , instalações com robusto poder de armazenamento e processamento de dados, e dos setores de inteligência artificial (IA) e criptomoedas, segundo a entidade, poderá dobrar no mundo em 2026 em relação a 2022, quando foi de 460 terawatts-hora (TWh) – naquele mesmo ano, o Brasil consumiu 508 TWh de energia elétrica.
“O uso de energia é inerente à computação”, constata a cientista da computação Sarajane Marques Peres, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e pesquisadora do Centro de Inteligência Artificial C4AI, financiado por FAPESP e IBM. [...]
“Todas as nossas atividades digitais, como navegar na internet, acessar redes sociais, participar de videoconferências e enviar fotos para os amigos, têm, em última instância, efeitos sobre o ambiente”, aponta a cientista da computação Thais Batista, presidente da Sociedade Brasileira de Computação (SBC) e professora do Departamento de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
A energia destinada aos data centers é usada não apenas para a operação dos servidores, mas também para manter em funcionamento seu sistema de refrigeração. “Por trabalharem sem parar em processamento numérico, os computadores aquecem, emitem calor e precisam ser resfriados e mantidos em uma temperatura razoavelmente baixa”, ressalta o cientista da computação Marcelo Finger, do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP. “A depender da matriz que produz essa energia, haverá mais ou menos efeitos nocivos no ambiente”, afirma Peres, referindo-se à emissão de dióxido de carbono (CO₂) quando são queimados combustíveis fósseis para a obtenção da energia elétrica utilizada.
Google, Microsoft, Apple, Amazon e outras grandes multinacionais de tecnologia, as chamadas big techs, comprometeram-se a zerar suas emissões de carbono até 2030 – segundo especialistas ouvidos pela reportagem, não há indícios de que esse objetivo possa ser atingido. Em 2023, último ano com dados disponíveis, as emissões dessas companhias cresceram principalmente por causa dos sistemas de inteligência artificial, que demandam grande poder de processamento – e, portanto, elevada carga energética – para serem treinados e funcionar.
O aumento do consumo de energia e da emissão de carbono não é o único fator que preocupa. O uso intensivo de água por data centers para manter em operação seus sistemas de refrigeração, bem como a emissão de calor no ambiente, também acendem um sinal de alerta. “O consumo hídrico é uma preocupação mais recente, visto que a maioria dos grandes data centers usa refrigeração líquida para seus equipamentos de grande porte”, ressalta o bacharel em computação científica Álvaro Luiz Fazenda, do Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus de São José dos Campos. Uma das soluções é usar fontes de água não potável para realizar os processos de resfriamento.
A exploração muitas vezes insustentável de elementos terras-raras e outros minerais, como silício, cobre e lítio, usados para a produção de discos rígidos, chips e baterias, e o descarte de computadores, celulares e outros aparelhos eletrônicos que rapidamente se tornam obsoletos, também elevam a pressão da computação sobre os ecossistemas. [...]
Buscando enfrentar o problema, uma nova área de estudos, conhecida como computação verde ou sustentável, tem ganhado força no Brasil e no mundo. “Ela se refere ao conjunto de práticas, técnicas e procedimentos aplicados à fabricação, ao uso e ao descarte de sistemas computacionais com a finalidade de minimizar seu impacto ambiental”, explica o pesquisador da UFABC.
A fim de alcançar esse objetivo, várias práticas têm sido propostas, como elevar a eficiência energética de hardwares e softwares, permitindo que realizem as mesmas operações consumindo menos energia. Projetar sistemas mais duradouros, reparáveis e recicláveis, que reduzam a geração de lixo eletrônico, é outra abordagem, assim como priorizar o emprego de materiais sustentáveis na produção e operação de dispositivos computacionais e o uso de energias renováveis em data centers. [...]
Reduzir o gasto energético dos sistemas de inteligência artificial foi o que tentaram fazer os pesquisadores da startup chinesa DeepSeek. O chatbot DeepSeek-V3, lançado no fim de janeiro, causou surpresa ao apresentar desempenho comparável ao dos modelos da OpenAI e do Google, mas com custo substancialmente menor.
“O DeepSeek é um exemplo de que é possível desenvolver IA de boa qualidade usando menos recursos computacionais e energia”, ressalta o cientista da computação Daniel de Angelis Cordeiro, da EACH-USP. “Investir em pesquisa de algoritmos mais eficientes e em melhorias na gestão dos recursos computacionais usados nas etapas de treinamento e inferência pode contribuir para a criação de uma IA mais sustentável.” [...]
Adaptado de: https://revistapesquisa.fapesp.br/os-impactos-ambientais-da-computacao/ Acesso em: 15 mar. 2025.
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Texto associado
Considerando o tema tratado no texto e a função da
linguagem nele predominante, julgue os seguintes itens.
linguagem nele predominante, julgue os seguintes itens.
São dissílabas as palavras “impõe” e “outro”, ao passo
que “realidade” tem quatro sílabas.
Texto associado
A BELEZA E A ARTE NÃO CONSTITUEM NENHUMA GARANTIA MORAL
Contardo Calligaris
Gostei muito de “Francofonia”, de Aleksandr Sokurov. Um jeito de resumir o filme é este: nossa civilização é um navio cargueiro avançando num mar hostil, levando contêineres repletos dos objetos expostos nos grandes museus do mundo. Será que o esplendor do passado facilita nossa navegação pela tempestade de cada dia? Será que, carregados de tantas coisas que nos parecem belas, seremos capazes de produzir menos feiura? Ou, ao contrário, os restos do passado tornam nosso navio menos estável, de forma que se precisará jogar algo ao mar para evitar o naufrágio?
Essa discussão já aconteceu. Na França de 1792, em plena Revolução, a Assembleia emitiu um decreto pelo qual não era admissível expor o povo francês à visão de “monumentos elevados ao orgulho, ao preconceito e à tirania” – melhor seria destruí-los. Nascia assim o dito vandalismo revolucionário – que continua.
Os guardas vermelhos da Revolução Cultural devastaram os monumentos históricos da China. O Talibã destruiu os Budas de Bamiyan (séculos 4 e 5). Em Palmira, Síria, o Estado Islâmico destruiu os restos do templo de Bel (de quase 2.000 anos atrás). A ideia é a seguinte: se preservarmos os monumentos das antigas ideias, nunca teremos a força de nos inventarmos de maneira radicalmente livre.
Na mesma Assembleia francesa de 1792, também surgiu a ideia de que não era preciso destruir as obras, elas podiam ser conservadas como patrimônio “artístico” ou “cultural” – ou seja, esquecendo sua significação religiosa, política e ideológica.
Sentado no escuro do cinema, penso que nós não somos o navio, somos os contêineres que ele carrega: um emaranhado de esperanças, saberes, intuições, dúvidas, lamentos, heranças, obrigações e gostos. Tudo dito belamente: talvez o belo artístico surja quando alguém consegue sintetizar a nossa complexidade num enigma, como o sorriso de “Mona Lisa”.
Os vândalos dirão que a arte não tem o poder de redimir ou apagar a ignomínia moral. Eles têm razão: a estátua de um deus sanguinário pode ser bela sem ser verdadeira nem boa. Será que é possível apreciá-la sem riscos morais?
Não sei bem o que é o belo e o que é arte. Mas, certamente, nenhum dos dois garante nada.
Por exemplo, gosto muito de um quadro de Arnold Böcklin, “A Ilha dos Mortos”, obra imensamente popular entre o século 19 e 20, que me evoca o cemitério de Veneza, que é, justamente, uma ilha, San Michele. Agora, Hitler tinha, em sua coleção particular, a terceira versão de “A Ilha dos Mortos”, a melhor entre as cinco que Böcklin pintou. Essa proximidade com Hitler só não me atormenta porque “A Ilha dos Mortos” era também um dos quadros preferidos de Freud (que chegou a sonhar com ele).
Outro exemplo: Hitler pintava, sobretudo aquarelas, que retratam edifícios austeros e solitários, e que não são ruins; talvez comprasse uma, se me fosse oferecida por um jovem artista pelas ruas de Viena. Para mim, as aquarelas de Hitler são melhores do que as de Churchill. Pela pior razão: há, nelas, uma espécie de pressentimento trágico de que o mundo se dirigia para um banho de sangue.
É uma pena a arte não ser um critério moral. Seria fácil se as pessoas que desprezamos tivessem gostos estéticos opostos aos nossos. Mas, nada feito.
Os nazistas queimavam a “arte degenerada”, mas só da boca para fora. Na privacidade de suas casas, eles penduraram milhares de obras “degeneradas” que tinham pretensamente destruído. Em Auschwitz, nas festinhas clandestinas só para SS, os nazistas pediam que a banda dos presos tocasse suingue e jazz – oficialmente proibidos.
Para Sokurov, o museu dos museus é o Louvre. Para mim, sempre foi a Accademia, em Veneza. A cada vez que volto para lá, desde a infância, medito na frente de três quadros, um dos quais é “A Tempestade”, do Giorgione. Com o tempo, o maior enigma do quadro se tornou, para mim, a paisagem de fundo, deserta e inquietante. Pintado em 1508, “A Tempestade” inaugura dois séculos que produziram mais beleza do que qualquer outro período de nossa história. Mas aquele fundo, mais tétrico que uma aquarela de Hitler, lembra-me que os dois séculos da beleza também foram um triunfo de guerra, peste e morte – Europa afora.
É isto mesmo: infelizmente, a arte não salva.
Texto adaptado de: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2016/08/1806530-a-beleza-e-a-arte-nao-constituem-nenhuma-garantia-moral.shtml
Contardo Calligaris
Gostei muito de “Francofonia”, de Aleksandr Sokurov. Um jeito de resumir o filme é este: nossa civilização é um navio cargueiro avançando num mar hostil, levando contêineres repletos dos objetos expostos nos grandes museus do mundo. Será que o esplendor do passado facilita nossa navegação pela tempestade de cada dia? Será que, carregados de tantas coisas que nos parecem belas, seremos capazes de produzir menos feiura? Ou, ao contrário, os restos do passado tornam nosso navio menos estável, de forma que se precisará jogar algo ao mar para evitar o naufrágio?
Essa discussão já aconteceu. Na França de 1792, em plena Revolução, a Assembleia emitiu um decreto pelo qual não era admissível expor o povo francês à visão de “monumentos elevados ao orgulho, ao preconceito e à tirania” – melhor seria destruí-los. Nascia assim o dito vandalismo revolucionário – que continua.
Os guardas vermelhos da Revolução Cultural devastaram os monumentos históricos da China. O Talibã destruiu os Budas de Bamiyan (séculos 4 e 5). Em Palmira, Síria, o Estado Islâmico destruiu os restos do templo de Bel (de quase 2.000 anos atrás). A ideia é a seguinte: se preservarmos os monumentos das antigas ideias, nunca teremos a força de nos inventarmos de maneira radicalmente livre.
Na mesma Assembleia francesa de 1792, também surgiu a ideia de que não era preciso destruir as obras, elas podiam ser conservadas como patrimônio “artístico” ou “cultural” – ou seja, esquecendo sua significação religiosa, política e ideológica.
Sentado no escuro do cinema, penso que nós não somos o navio, somos os contêineres que ele carrega: um emaranhado de esperanças, saberes, intuições, dúvidas, lamentos, heranças, obrigações e gostos. Tudo dito belamente: talvez o belo artístico surja quando alguém consegue sintetizar a nossa complexidade num enigma, como o sorriso de “Mona Lisa”.
Os vândalos dirão que a arte não tem o poder de redimir ou apagar a ignomínia moral. Eles têm razão: a estátua de um deus sanguinário pode ser bela sem ser verdadeira nem boa. Será que é possível apreciá-la sem riscos morais?
Não sei bem o que é o belo e o que é arte. Mas, certamente, nenhum dos dois garante nada.
Por exemplo, gosto muito de um quadro de Arnold Böcklin, “A Ilha dos Mortos”, obra imensamente popular entre o século 19 e 20, que me evoca o cemitério de Veneza, que é, justamente, uma ilha, San Michele. Agora, Hitler tinha, em sua coleção particular, a terceira versão de “A Ilha dos Mortos”, a melhor entre as cinco que Böcklin pintou. Essa proximidade com Hitler só não me atormenta porque “A Ilha dos Mortos” era também um dos quadros preferidos de Freud (que chegou a sonhar com ele).
Outro exemplo: Hitler pintava, sobretudo aquarelas, que retratam edifícios austeros e solitários, e que não são ruins; talvez comprasse uma, se me fosse oferecida por um jovem artista pelas ruas de Viena. Para mim, as aquarelas de Hitler são melhores do que as de Churchill. Pela pior razão: há, nelas, uma espécie de pressentimento trágico de que o mundo se dirigia para um banho de sangue.
É uma pena a arte não ser um critério moral. Seria fácil se as pessoas que desprezamos tivessem gostos estéticos opostos aos nossos. Mas, nada feito.
Os nazistas queimavam a “arte degenerada”, mas só da boca para fora. Na privacidade de suas casas, eles penduraram milhares de obras “degeneradas” que tinham pretensamente destruído. Em Auschwitz, nas festinhas clandestinas só para SS, os nazistas pediam que a banda dos presos tocasse suingue e jazz – oficialmente proibidos.
Para Sokurov, o museu dos museus é o Louvre. Para mim, sempre foi a Accademia, em Veneza. A cada vez que volto para lá, desde a infância, medito na frente de três quadros, um dos quais é “A Tempestade”, do Giorgione. Com o tempo, o maior enigma do quadro se tornou, para mim, a paisagem de fundo, deserta e inquietante. Pintado em 1508, “A Tempestade” inaugura dois séculos que produziram mais beleza do que qualquer outro período de nossa história. Mas aquele fundo, mais tétrico que uma aquarela de Hitler, lembra-me que os dois séculos da beleza também foram um triunfo de guerra, peste e morte – Europa afora.
É isto mesmo: infelizmente, a arte não salva.
Texto adaptado de: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2016/08/1806530-a-beleza-e-a-arte-nao-constituem-nenhuma-garantia-moral.shtml
Em relação às palavras “feiura”, “admissível”, “complexidade” e “ideológica” , retiradas do texto, assinale a alternativa que apresenta a correta divisão silábica delas.
Texto associado
O que é ética hoje?
Sem uma discussão
lúcida sobre a ética não é
possível agir com
ética
Marcia Tiburi
A
palavra ética aparece em muitos contextos
de
nossas vidas. Falamos sobre ética em tom de
clamor
por salvação. Cheios de esperança, alguns
com certa
empáfia, exigimos ou reclamamos da falta de
ética,
mas não sabemos exatamente o que queremos
dizer
com isso. Há um desejo de ética, mas mesmo
em
relação a ele não conseguimos avançar com
ética.
Este é nosso primeiro grande problema.
O que
falta na abordagem sobre ética é
justamente
o que nos levaria a sermos éticos. Falta
reflexão,
falta pensamento crítico, falta entender “o
que é” agir
e “como” se deve agir. Com tais perguntas é
que a
ética inicia. Para que ela inicie é preciso
sair da mera
indignação moral baseada em emoções
passageiras,
que tantos acham magnífico expor, e chegar à
reflexão ética. Aqueles que expõem suas
emoções se
mostram como pessoas sensíveis, bondosas,
creem-se
como antecipadamente éticos porque emotivos.
Porém, não basta. As emoções em relação à
política,
à miséria ou à violência, passam e tudo
continua
como antes. A passagem das emoções
indignadas
para a elaboração de uma sensibilidade
elaborada
que possa sustentar a ação boa e justa - o
foco de
qualquer ética desde sempre - é o que está
em jogo.
Falta, para isso, entendimento. Ou
seja,
compreensão de um sentido comum na nossa
reivindicação pela ética. Falta, para se
chegar a isso,
que haja diálogo, ou seja, capacidade de
expor e de
ouvir o que a ética pode ser. Clamamos pela
ética,
mas não sabemos conversar. E para que haja
ética
é preciso diálogo. E, por isso, permanecemos
num
círculo vicioso em que só a inação e a
ignorância
triunfam.
Na inanição intelectual em voga,
esperamos
que os cultos, os intelectuais, os
professores,
os jornalistas, todos os que constroem a
opinião
pública, tragam respostas. Nem estes podem
ajudar
muito, pois desconhecem ou evitam a
profundidade
da questão. Há, neste contexto, quem pense
que ser
corrupto não exclui a ética. E isso não é
opinião de
ignorantes que não frequentaram escola
alguma,
mas de muitos ditos “cultos” e
“inteligentes”. Quem
hoje se preocupa em entender do que se
trata? Quem
se preocupa em não cair na contradição entre
teoria
e prática? Em discutir ética para além dos
códigos de
ética das profissões pensando-a como
princípio que
deve reger nossas relações?
Exatamente pela
falta de compreensão do seu
fundamento, do que significa a ética como
elemento
estrutural para cada um como pessoa e para a
sociedade como um todo, é que perdemos de
vista a possibilidade de uma realização da
ética. A
ética não entra em nossas vidas porque nem
bem
sabemos o que deveria entrar. Nem sabemos
como.
Mas quando perguntamos pela ética, em geral,
é
pelo “como fazemos para sermos éticos” que
tudo
começa. Aí começa também o erro em relação à
ética. Pois ético é o que ultrapassa o mero
uso que
podemos fazer da própria ética quando se
trata de
sobreviver. Ética é o que diz respeito ao
modo de nos
comportamos e decidirmos nosso convívio e o
modo
como partilhamos valores e a própria
liberdade.
Ela é o sentido da convivência, mais do que
o já
tão importante respeito do limite próprio e
alheio.
Portanto, desde que ela diz respeito à
relação entre
um “eu” e um “tu”, ela envolve pensar o
outro, o seu
lugar, sua vida, sua potencialidade, seus
direitos,
como eu o vejo e como posso defendê-
lo.
A Ética permanece, porém, sendo uma
palavra
vã,
que usamos a esmo, sem pensar no conteúdo
que
ela carrega. Ninguém é ético só porque quer
parecer
ético. Ninguém é ético porque discorda do
que se faz
contra a ética. Só é ético aquele que
enfrenta o limite
da própria ação, da racionalidade que a
sustenta
e luta pela construção de uma sensibilidade
que
possa dar sentido à felicidade. Mas esta é
mais do
que satisfação na vida privada. A felicidade
de que
se trata é a “felicidade política”, ou seja,
a vida justa
e boa no universo público. A ética quando
surgiu
na antiguidade tinha este ideal. A
felicidade na vida
privada – que hoje também se tornou debate
em torno
do qual cresce a ignorância - depende
disso.
Por isso, antes de mais nada, a
urgência que
se
tornou essencial hoje – e que por isso
mesmo, por
ser essencial, muitos não percebem – é
tratar a ética
como um trabalho da lucidez quanto ao que
estamos
fazendo com nosso presente, mas sobretudo,
com o
que nele se planta e define o rumo futuro.
Para isso
é preciso renovar nossa capacidade de
diálogo e
propor um novo projeto de sociedade no qual
o bem
de todos esteja realmente em vista.
(http://www.marciatiburi.com.br/textos/somos
livre.htm)
Questões:
Sem uma discussão
lúcida sobre a ética não é
possível agir com
ética
Marcia Tiburi
A
palavra ética aparece em muitos contextos
de
nossas vidas. Falamos sobre ética em tom de
clamor
por salvação. Cheios de esperança, alguns
com certa
empáfia, exigimos ou reclamamos da falta de
ética,
mas não sabemos exatamente o que queremos
dizer
com isso. Há um desejo de ética, mas mesmo
em
relação a ele não conseguimos avançar com
ética.
Este é nosso primeiro grande problema.
O que
falta na abordagem sobre ética é
justamente
o que nos levaria a sermos éticos. Falta
reflexão,
falta pensamento crítico, falta entender “o
que é” agir
e “como” se deve agir. Com tais perguntas é
que a
ética inicia. Para que ela inicie é preciso
sair da mera
indignação moral baseada em emoções
passageiras,
que tantos acham magnífico expor, e chegar à
reflexão ética. Aqueles que expõem suas
emoções se
mostram como pessoas sensíveis, bondosas,
creem-se
como antecipadamente éticos porque emotivos.
Porém, não basta. As emoções em relação à
política,
à miséria ou à violência, passam e tudo
continua
como antes. A passagem das emoções
indignadas
para a elaboração de uma sensibilidade
elaborada
que possa sustentar a ação boa e justa - o
foco de
qualquer ética desde sempre - é o que está
em jogo.
Falta, para isso, entendimento. Ou
seja,
compreensão de um sentido comum na nossa
reivindicação pela ética. Falta, para se
chegar a isso,
que haja diálogo, ou seja, capacidade de
expor e de
ouvir o que a ética pode ser. Clamamos pela
ética,
mas não sabemos conversar. E para que haja
ética
é preciso diálogo. E, por isso, permanecemos
num
círculo vicioso em que só a inação e a
ignorância
triunfam.
Na inanição intelectual em voga,
esperamos
que os cultos, os intelectuais, os
professores,
os jornalistas, todos os que constroem a
opinião
pública, tragam respostas. Nem estes podem
ajudar
muito, pois desconhecem ou evitam a
profundidade
da questão. Há, neste contexto, quem pense
que ser
corrupto não exclui a ética. E isso não é
opinião de
ignorantes que não frequentaram escola
alguma,
mas de muitos ditos “cultos” e
“inteligentes”. Quem
hoje se preocupa em entender do que se
trata? Quem
se preocupa em não cair na contradição entre
teoria
e prática? Em discutir ética para além dos
códigos de
ética das profissões pensando-a como
princípio que
deve reger nossas relações?
Exatamente pela
falta de compreensão do seu
fundamento, do que significa a ética como
elemento
estrutural para cada um como pessoa e para a
sociedade como um todo, é que perdemos de
vista a possibilidade de uma realização da
ética. A
ética não entra em nossas vidas porque nem
bem
sabemos o que deveria entrar. Nem sabemos
como.
Mas quando perguntamos pela ética, em geral,
é
pelo “como fazemos para sermos éticos” que
tudo
começa. Aí começa também o erro em relação à
ética. Pois ético é o que ultrapassa o mero
uso que
podemos fazer da própria ética quando se
trata de
sobreviver. Ética é o que diz respeito ao
modo de nos
comportamos e decidirmos nosso convívio e o
modo
como partilhamos valores e a própria
liberdade.
Ela é o sentido da convivência, mais do que
o já
tão importante respeito do limite próprio e
alheio.
Portanto, desde que ela diz respeito à
relação entre
um “eu” e um “tu”, ela envolve pensar o
outro, o seu
lugar, sua vida, sua potencialidade, seus
direitos,
como eu o vejo e como posso defendê-
lo.
A Ética permanece, porém, sendo uma
palavra
vã,
que usamos a esmo, sem pensar no conteúdo
que
ela carrega. Ninguém é ético só porque quer
parecer
ético. Ninguém é ético porque discorda do
que se faz
contra a ética. Só é ético aquele que
enfrenta o limite
da própria ação, da racionalidade que a
sustenta
e luta pela construção de uma sensibilidade
que
possa dar sentido à felicidade. Mas esta é
mais do
que satisfação na vida privada. A felicidade
de que
se trata é a “felicidade política”, ou seja,
a vida justa
e boa no universo público. A ética quando
surgiu
na antiguidade tinha este ideal. A
felicidade na vida
privada – que hoje também se tornou debate
em torno
do qual cresce a ignorância - depende
disso.
Por isso, antes de mais nada, a
urgência que
se
tornou essencial hoje – e que por isso
mesmo, por
ser essencial, muitos não percebem – é
tratar a ética
como um trabalho da lucidez quanto ao que
estamos
fazendo com nosso presente, mas sobretudo,
com o
que nele se planta e define o rumo futuro.
Para isso
é preciso renovar nossa capacidade de
diálogo e
propor um novo projeto de sociedade no qual
o bem
de todos esteja realmente em vista.
(http://www.marciatiburi.com.br/textos/somos
livre.htm)
Questões:
Assinale a alternativa em que todos os
vocábulos tenham 6 fonemas.
Texto associado
Música clássica reduz ansiedade de crianças em atendimentos odontológicos
Estudos da medicina apontam que a música clássica tem efeito significativo sobre o sistema cardiovascular e influencia diretamente os batimentos cardíacos e pressão arterial. Ela provoca uma redução nos marcadores neurohormonais de estresse, o que resulta em uma sensação de relaxamento. Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), originada da dissertação de mestrado da cirurgiãdentista Marcela de Oliveira Brant (CRO 42733), concluiu que o método é eficaz na diminuição dos níveis de ansiedade de crianças durante o atendimento em consultórios odontológicos.
A pesquisa foi um ensaio clínico realizado nas cidades mineiras de Brumadinho e Confins entre agosto de 2014 e abril de 2015. A seleção das crianças, que deveriam ter de quatro a seis anos para participar do estudo, foi feita nas escolas públicas desses municípios. “Precisávamos de 35 crianças nessa faixa etária e que não tivessem experiência com o dentista”, explica Marcela. Para chegar a esse número, a odontopediatra conta que foram enviadas 313 cartas-convite aos pais dos pequenos. “Eu era a única dentista que selecionava, avaliava e realizava o atendimento”, acrescenta. No final, o estudo contava com 34 crianças que cumpriram todos os procedimentos.
Os critérios para inclusão na pesquisa foram que os pacientes não tivessem experiência odontológica prévia e que apresentassem, no mínimo, dois dentes molares de leite com lesões cariosas em superfície oclusal (ou seja, a parte de cima dos dentes), em que fosse possível utilizar o Tratamento Restaurador Atraumático Modificado (ARTm). A técnica consiste em uma restauração de intervenção mínima, sem o uso de anestesia local. Durante a realização do estudo, as crianças foram divididas em dois grupos, ambos submetidos à ARTm com e sem utilização de música.
Para os atendimentos com música, os pacientes utilizaram fones de ouvidos, acoplados a um iPod que reproduzia a Sinfonia 40 em sol menor, de Wolfgang Amadeus Mozart. “Trata-se de uma canção instrumental lenta e relaxante, já testada em estudos anteriores da medicina. O volume foi ajustado de maneira que as crianças pudessem ouvir a música de forma clara, assim como as minhas instruções”, informa Marcela. Os níveis de ansiedade foram mensurados através da obtenção das medidas de frequência cardíaca e saturação de oxigênio, com o uso de um oxímetro de pulso, colocado no dedo indicador da criança ao início da consulta odontológica.
Ao fim da coleta dos dados, os resultados foram analisados. “Vimos estatisticamente que durante a intervenção com música as crianças apresentaram redução nos níveis de frequência cardíaca quando comparado com a intervenção sem música”, comenta Marcela. Essa estratégia de distração, segundo a odontopediatra, pode se apresentar como uma prática possível de reduzir a ansiedade do paciente na cadeira odontológica. “Ela é uma técnica segura, de simples execução, com baixo custo financeiro e que não apresenta efeitos nocivos.” Outro fator importante é que a música pode auxiliar a dispersar a atenção da criança quanto aos ruídos que existem dentro do consultório, como o “motorzinho” ou o barulho do sugador.
A psicóloga e professora de psicoterapia infantil da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc) Karin Martins Gomes esclarece que muitos pacientes já chegam tensos aos consultórios odontológicos e a música serve como distração, desviando o foco de atenção dos pequenos. “A criança vai pensando em outras coisas, o que faz com que a tensão acumulada vá se dissuadindo e o procedimento não seja doloroso e traumático.”
[...] O tema do mestrado de Marcela surgiu do desejo de oferecer melhor atendimento aos pacientes infantis. “Sabemos hoje que 39% a 43% das crianças, de quatro a 12 anos, no Brasil, apresentam sentimentos de ansiedade frente a um tratamento odontológico. Busco com esta pesquisa mostrar como é importante eliminar ou reduzir esse problema”, diz. [...].
Retirado e adaptado de: . Acesso em: 25 mar. 2016.
Estudos da medicina apontam que a música clássica tem efeito significativo sobre o sistema cardiovascular e influencia diretamente os batimentos cardíacos e pressão arterial. Ela provoca uma redução nos marcadores neurohormonais de estresse, o que resulta em uma sensação de relaxamento. Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), originada da dissertação de mestrado da cirurgiãdentista Marcela de Oliveira Brant (CRO 42733), concluiu que o método é eficaz na diminuição dos níveis de ansiedade de crianças durante o atendimento em consultórios odontológicos.
A pesquisa foi um ensaio clínico realizado nas cidades mineiras de Brumadinho e Confins entre agosto de 2014 e abril de 2015. A seleção das crianças, que deveriam ter de quatro a seis anos para participar do estudo, foi feita nas escolas públicas desses municípios. “Precisávamos de 35 crianças nessa faixa etária e que não tivessem experiência com o dentista”, explica Marcela. Para chegar a esse número, a odontopediatra conta que foram enviadas 313 cartas-convite aos pais dos pequenos. “Eu era a única dentista que selecionava, avaliava e realizava o atendimento”, acrescenta. No final, o estudo contava com 34 crianças que cumpriram todos os procedimentos.
Os critérios para inclusão na pesquisa foram que os pacientes não tivessem experiência odontológica prévia e que apresentassem, no mínimo, dois dentes molares de leite com lesões cariosas em superfície oclusal (ou seja, a parte de cima dos dentes), em que fosse possível utilizar o Tratamento Restaurador Atraumático Modificado (ARTm). A técnica consiste em uma restauração de intervenção mínima, sem o uso de anestesia local. Durante a realização do estudo, as crianças foram divididas em dois grupos, ambos submetidos à ARTm com e sem utilização de música.
Para os atendimentos com música, os pacientes utilizaram fones de ouvidos, acoplados a um iPod que reproduzia a Sinfonia 40 em sol menor, de Wolfgang Amadeus Mozart. “Trata-se de uma canção instrumental lenta e relaxante, já testada em estudos anteriores da medicina. O volume foi ajustado de maneira que as crianças pudessem ouvir a música de forma clara, assim como as minhas instruções”, informa Marcela. Os níveis de ansiedade foram mensurados através da obtenção das medidas de frequência cardíaca e saturação de oxigênio, com o uso de um oxímetro de pulso, colocado no dedo indicador da criança ao início da consulta odontológica.
Ao fim da coleta dos dados, os resultados foram analisados. “Vimos estatisticamente que durante a intervenção com música as crianças apresentaram redução nos níveis de frequência cardíaca quando comparado com a intervenção sem música”, comenta Marcela. Essa estratégia de distração, segundo a odontopediatra, pode se apresentar como uma prática possível de reduzir a ansiedade do paciente na cadeira odontológica. “Ela é uma técnica segura, de simples execução, com baixo custo financeiro e que não apresenta efeitos nocivos.” Outro fator importante é que a música pode auxiliar a dispersar a atenção da criança quanto aos ruídos que existem dentro do consultório, como o “motorzinho” ou o barulho do sugador.
A psicóloga e professora de psicoterapia infantil da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc) Karin Martins Gomes esclarece que muitos pacientes já chegam tensos aos consultórios odontológicos e a música serve como distração, desviando o foco de atenção dos pequenos. “A criança vai pensando em outras coisas, o que faz com que a tensão acumulada vá se dissuadindo e o procedimento não seja doloroso e traumático.”
[...] O tema do mestrado de Marcela surgiu do desejo de oferecer melhor atendimento aos pacientes infantis. “Sabemos hoje que 39% a 43% das crianças, de quatro a 12 anos, no Brasil, apresentam sentimentos de ansiedade frente a um tratamento odontológico. Busco com esta pesquisa mostrar como é importante eliminar ou reduzir esse problema”, diz. [...].
Retirado e adaptado de: . Acesso em: 25 mar. 2016.
Assinale a alternativa em que as palavras apresentam, respectivamente, dígrafo, encontro vocálico e encontro consonantal.
Texto associado
Lama muda a cor do mar na foz do Rio Doce, em Linhares, ES
A lama mudou a cor da água do Rio Doce na praia de Regência, onde o rio deságua no mar, em Linhares, Norte do Espírito Santo, na tarde deste sábado (21). Por volta das 16h, a água começou a ficar na tonalidade marrom. Uma barreira de 9 km foi montada para proteger a fauna e flora na região e amenizar os impactos da lama.
O Serviço Geológico do Brasil informou que não tem previsão para que a parte mais densa dos rejeitos de mineração da barragem da Samarco, cujos donos são a Vale e a anglo-australiana BHP Billiton, chegue à foz.
A lama está em três municípios do estado: Linhares, que não usa as águas do Rio Doce para abastecimento da cidade. Baixo Guandu, que passou a usar as águas do Rio Guandu. E Colatina, que há quatro dias parou de usar a água do rio.
O rompimento de uma barragem de rejeitos de minério aconteceu no dia 5 de novembro e causou uma enxurrada de lama no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, na região Central de Minas Gerais.
Justiça
Na quarta-feira, a Justiça Federal deu um prazo de 24 horas para a Samarco apresentar um plano de emergência para diminuir os impactos da lama no estado. Na quinta-feira à noite, a empresa entregou um relatório com o que vinha fazendo e o que planejava fazer, mas o Ministério Público Federal achou as medidas insuficientes. Neste sábado, o juiz federal Rodrigo Botelho decidiu aceitar o plano que a empresa apresentou e suspender temporariamente a multa milionária. Na segunda-feira (23), a Samarco vai ter, até 18h, para detalhar quais medidas serão tomadas. Se desobedecer, a mineradora vai pagar multa de R$ 10 milhões por dia.
Risco de contaminação
De acordo com o presidente substituto do Ibama, Luciano Evaristo, com a chegada ao oceano, a lama pode afetar os animais marinhos. “No percurso que está desenvolvendo agora, a lama afeta a fauna, causa um processo de congestão nos peixes, por causa da densidade do rejeito que está na água. Chegando ao estuário, ela poderá afetar a questão da nidificação das tartarugas, afetar também a ictiofauna marinha”, disse.
Segundo o biólogo André Ruschi, a chegada da lama no oceano pode ter um impacto ambiental equivalente à contaminação de uma floresta tropical do tamanho do Pantanal brasileiro. Ele acredita que, se nada for feito, o prejuízo ambiental do ‘tsunami marrom’ pode demorar 100 anos para ser revertido.
[...]
Abastecimento de água
Segundo a prefeitura de Linhares, o abastecimento de água não será afetado pela chegada da lama, já que a principal fonte de abastecimento do município é o Rio Pequeno, canal entre a Lagoa Juparanã e o Rio Doce.
Para evitar que a água do Rio Doce tenha contato com a do Rio Pequeno, o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Linhares ampliou a barragem construída em outubro deste ano.
Com o abastecimento garantido, a prefeitura de Linhares está enviando caminhões-pipa com água potável para Colatina, que está com o abastecimento de água interrompido há mais de três dias por causa da onda de lama.
O Ministério Público chegou a notificar a Prefeitura de Colatina na sexta-feira (20) após tumultos na distribuição de água mineral fornecida pela Samarco à população. O órgão solicitou 100 postos de distribuição, mas a prefeitura afirma que não tem efetivo para isso.
Em Baixo Guandu, a captação de água do Rio Doce foi cortada desde segunda-feira (16). A prefeitura abriu um canal do Rio Guandu até uma estação de bombeamento e está utilizando a água do rio para abastecer a população.
Barreiras
A Samarco está construindo barragens para isolar a fauna e a flora que vivem no entorno nas duas margens do rio e em algumas ilhas localizadas no estuário, nove mil metros de barreiras continuam sendo instalados em sentido longitudinal. A empresa esclareceu que essas barreiras não têm a função de impedir a chegada da pluma ao mar.
[...]
A Samarco ainda diz que “a Defesa Civil recomenda, por precaução e em caráter temporário, que a população não tome banho de rio e mar nessas regiões, já que, com a chegada da pluma, a cor da água fica mais escura. Reiteramos que a pluma de turbidez não é tóxica”.
Retirado e adaptado de: Acesso em: 10 dez. 2015.
A lama mudou a cor da água do Rio Doce na praia de Regência, onde o rio deságua no mar, em Linhares, Norte do Espírito Santo, na tarde deste sábado (21). Por volta das 16h, a água começou a ficar na tonalidade marrom. Uma barreira de 9 km foi montada para proteger a fauna e flora na região e amenizar os impactos da lama.
O Serviço Geológico do Brasil informou que não tem previsão para que a parte mais densa dos rejeitos de mineração da barragem da Samarco, cujos donos são a Vale e a anglo-australiana BHP Billiton, chegue à foz.
A lama está em três municípios do estado: Linhares, que não usa as águas do Rio Doce para abastecimento da cidade. Baixo Guandu, que passou a usar as águas do Rio Guandu. E Colatina, que há quatro dias parou de usar a água do rio.
O rompimento de uma barragem de rejeitos de minério aconteceu no dia 5 de novembro e causou uma enxurrada de lama no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, na região Central de Minas Gerais.
Justiça
Na quarta-feira, a Justiça Federal deu um prazo de 24 horas para a Samarco apresentar um plano de emergência para diminuir os impactos da lama no estado. Na quinta-feira à noite, a empresa entregou um relatório com o que vinha fazendo e o que planejava fazer, mas o Ministério Público Federal achou as medidas insuficientes. Neste sábado, o juiz federal Rodrigo Botelho decidiu aceitar o plano que a empresa apresentou e suspender temporariamente a multa milionária. Na segunda-feira (23), a Samarco vai ter, até 18h, para detalhar quais medidas serão tomadas. Se desobedecer, a mineradora vai pagar multa de R$ 10 milhões por dia.
Risco de contaminação
De acordo com o presidente substituto do Ibama, Luciano Evaristo, com a chegada ao oceano, a lama pode afetar os animais marinhos. “No percurso que está desenvolvendo agora, a lama afeta a fauna, causa um processo de congestão nos peixes, por causa da densidade do rejeito que está na água. Chegando ao estuário, ela poderá afetar a questão da nidificação das tartarugas, afetar também a ictiofauna marinha”, disse.
Segundo o biólogo André Ruschi, a chegada da lama no oceano pode ter um impacto ambiental equivalente à contaminação de uma floresta tropical do tamanho do Pantanal brasileiro. Ele acredita que, se nada for feito, o prejuízo ambiental do ‘tsunami marrom’ pode demorar 100 anos para ser revertido.
[...]
Abastecimento de água
Segundo a prefeitura de Linhares, o abastecimento de água não será afetado pela chegada da lama, já que a principal fonte de abastecimento do município é o Rio Pequeno, canal entre a Lagoa Juparanã e o Rio Doce.
Para evitar que a água do Rio Doce tenha contato com a do Rio Pequeno, o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Linhares ampliou a barragem construída em outubro deste ano.
Com o abastecimento garantido, a prefeitura de Linhares está enviando caminhões-pipa com água potável para Colatina, que está com o abastecimento de água interrompido há mais de três dias por causa da onda de lama.
O Ministério Público chegou a notificar a Prefeitura de Colatina na sexta-feira (20) após tumultos na distribuição de água mineral fornecida pela Samarco à população. O órgão solicitou 100 postos de distribuição, mas a prefeitura afirma que não tem efetivo para isso.
Em Baixo Guandu, a captação de água do Rio Doce foi cortada desde segunda-feira (16). A prefeitura abriu um canal do Rio Guandu até uma estação de bombeamento e está utilizando a água do rio para abastecer a população.
Barreiras
A Samarco está construindo barragens para isolar a fauna e a flora que vivem no entorno nas duas margens do rio e em algumas ilhas localizadas no estuário, nove mil metros de barreiras continuam sendo instalados em sentido longitudinal. A empresa esclareceu que essas barreiras não têm a função de impedir a chegada da pluma ao mar.
[...]
A Samarco ainda diz que “a Defesa Civil recomenda, por precaução e em caráter temporário, que a população não tome banho de rio e mar nessas regiões, já que, com a chegada da pluma, a cor da água fica mais escura. Reiteramos que a pluma de turbidez não é tóxica”.
Retirado e adaptado de: Acesso em: 10 dez. 2015.