Texto 6A4AAA
1 Todo escritor convive com um terror permanente: o do
erro de revisão. O revisor é a pessoa mais importante na vida
de quem escreve. Ele tem o poder de vida ou de morte
4 profissional sobre o autor. A inclusão ou a omissão de uma
letra ou de uma vírgula no que sai impresso pode decidir se o
autor vai ser entendido ou não, admirado ou ridicularizado,
7 consagrado ou processado. Todo texto tem, na verdade, dois
autores: quem o escreveu e quem o revisou. Toda vez que
manda um texto para ser publicado, o autor se coloca nas mãos
10 do revisor, esperando que seu parceiro não falhe.
Pode-se imaginar o que uma conspiração organizada,
internacional, de revisores significaria para a nossa
13 civilização. Os revisores só não dominam o mundo porque
ainda não se deram conta do poder que têm. Eles
desestabilizariam qualquer regime com acentos indevidos e
16 pontuações maliciosas, além de decretos oficiais ininteligíveis.
Grandes jornais seriam levados à falência por difamações
involuntárias, exércitos inteiros seriam imobilizados por
19 manuais de instrução militar sutilmente alterados, gerações de
estudantes seriam desencaminhadas por cartilhas ambíguas
e fórmulas de química incompletas. E os efeitos de uma
22 revisão subversiva na instrução médica são terríveis demais
para contemplar.
Luis Fernando Veríssimo. Cuidado com os revisores. In: VIP Exame, mar./1995, p. 36-7 (com adaptações).
Em relação às estruturas linguísticas e às ideias do texto 6A4AAA e aos múltiplos aspectos a ele relacionados, julgue os itens seguintes.
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CETRO
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5 questões encontradas
Texto associado
Texto 6A1AAA
1 Está demonstrado, portanto, que o revisor errou, que
se não errou confundiu, que se não confundiu imaginou, mas
venha atirar-lhe a primeira pedra aquele que não tenha errado,
4 confundido ou imaginado nunca. Errar, disse-o quem sabia, é
próprio do homem, o que significa, se não é erro tomar as
palavras à letra, que não seria verdadeiro homem aquele que
7 não errasse. Porém, esta suprema máxima não pode ser
utilizada como desculpa universal que a todos nos absolveria
de juízos coxos e opiniões mancas. Quem não sabe deve
10 perguntar, ter essa humildade, e uma precaução tão elementar
deveria tê-la sempre presente o revisor, tanto mais que nem
sequer precisaria sair de sua casa, do escritório onde agora está
13 trabalhando, pois não faltam aqui os livros que o elucidariam
se tivesse tido a sageza e prudência de não acreditar cegamente
naquilo que supõe saber, que daí é que vêm os enganos piores,
16 não da ignorância. Nestas ajoujadas estantes, milhares e
milhares de páginas esperam a cintilação duma curiosidade
inicial ou a firme luz que é sempre a dúvida que busca o seu
19 próprio esclarecimento. Lancemos, enfim, a crédito do revisor
ter reunido, ao longo duma vida, tantas e tão diversas fontes de
informação, embora um simples olhar nos revele que estão
22 faltando no seu tombo as tecnologias da informática, mas o
dinheiro, desgraçadamente, não chega a tudo, e este ofício, é
altura de dizê-lo, inclui-se entre os mais mal pagos do orbe.
25 Um dia, mas Alá é maior, qualquer corrector de livros terá ao
seu dispor um terminal de computador que o manterá ligado,
noite e dia, umbilicalmente, ao banco central de dados, não
28 tendo ele, e nós, mais que desejar que entre esses dados do
saber total não se tenha insinuado, como o diabo no convento,
o erro tentador.
31 Seja como for, enquanto não chega esse dia, os livros
estão aqui, como uma galáxia pulsante, e as palavras, dentro
deles, são outra poeira cósmica flutuando, à espera do olhar
34 que as irá fixar num sentido ou nelas procurará o sentido novo,
porque assim como vão variando as explicações do universo,
também a sentença que antes parecera imutável para todo o
37 sempre oferece subitamente outra interpretação, a possibilidade
duma contradição latente, a evidência do seu erro próprio.
Aqui, neste escritório onde a verdade não pode ser mais do que
40 uma cara sobreposta às infinitas máscaras variantes, estão os
costumados dicionários da língua e vocabulários, os Morais e
Aurélios, os Morenos e Torrinhas, algumas gramáticas, o
43 Manual do Perfeito Revisor, vademeco de ofício [...].
José Saramago. História do cerco de Lisboa.
São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 25-6.
No que se refere às ideias, aos fatores de textualidade do texto 6A1AAA e à variação linguística, julgue os seguintes itens.
1 Está demonstrado, portanto, que o revisor errou, que
se não errou confundiu, que se não confundiu imaginou, mas
venha atirar-lhe a primeira pedra aquele que não tenha errado,
4 confundido ou imaginado nunca. Errar, disse-o quem sabia, é
próprio do homem, o que significa, se não é erro tomar as
palavras à letra, que não seria verdadeiro homem aquele que
7 não errasse. Porém, esta suprema máxima não pode ser
utilizada como desculpa universal que a todos nos absolveria
de juízos coxos e opiniões mancas. Quem não sabe deve
10 perguntar, ter essa humildade, e uma precaução tão elementar
deveria tê-la sempre presente o revisor, tanto mais que nem
sequer precisaria sair de sua casa, do escritório onde agora está
13 trabalhando, pois não faltam aqui os livros que o elucidariam
se tivesse tido a sageza e prudência de não acreditar cegamente
naquilo que supõe saber, que daí é que vêm os enganos piores,
16 não da ignorância. Nestas ajoujadas estantes, milhares e
milhares de páginas esperam a cintilação duma curiosidade
inicial ou a firme luz que é sempre a dúvida que busca o seu
19 próprio esclarecimento. Lancemos, enfim, a crédito do revisor
ter reunido, ao longo duma vida, tantas e tão diversas fontes de
informação, embora um simples olhar nos revele que estão
22 faltando no seu tombo as tecnologias da informática, mas o
dinheiro, desgraçadamente, não chega a tudo, e este ofício, é
altura de dizê-lo, inclui-se entre os mais mal pagos do orbe.
25 Um dia, mas Alá é maior, qualquer corrector de livros terá ao
seu dispor um terminal de computador que o manterá ligado,
noite e dia, umbilicalmente, ao banco central de dados, não
28 tendo ele, e nós, mais que desejar que entre esses dados do
saber total não se tenha insinuado, como o diabo no convento,
o erro tentador.
31 Seja como for, enquanto não chega esse dia, os livros
estão aqui, como uma galáxia pulsante, e as palavras, dentro
deles, são outra poeira cósmica flutuando, à espera do olhar
34 que as irá fixar num sentido ou nelas procurará o sentido novo,
porque assim como vão variando as explicações do universo,
também a sentença que antes parecera imutável para todo o
37 sempre oferece subitamente outra interpretação, a possibilidade
duma contradição latente, a evidência do seu erro próprio.
Aqui, neste escritório onde a verdade não pode ser mais do que
40 uma cara sobreposta às infinitas máscaras variantes, estão os
costumados dicionários da língua e vocabulários, os Morais e
Aurélios, os Morenos e Torrinhas, algumas gramáticas, o
43 Manual do Perfeito Revisor, vademeco de ofício [...].
José Saramago. História do cerco de Lisboa.
São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 25-6.
No que se refere às ideias, aos fatores de textualidade do texto 6A1AAA e à variação linguística, julgue os seguintes itens.
Conclui-se do texto que é por falta de dinheiro que “o revisor” não tem ao seu dispor “as tecnologias da informática”.
O escrutínio dos cientistas e a possibilidade de repetição de uma experiência em laboratório
Texto associado
Quanto nós merecemos?
Lya Luft
O ser humano é um animal que deu errado em
várias coisas. A maioria das pessoas que conheço,
se fizesse uma terapia, ainda que breve, haveria de
viver melhor. Os problemas podiam continuar ali, mas
5 elas aprenderiam a lidar com eles.
Sem querer fazer uma interpretação barata ou
subir além do chinelo: como qualquer pessoa que
tenha lido Freud e companhia, não raro penso nas
rasteiras que o inconsciente nos passa e em quanto
10 nos atrapalhamos por achar que merecemos pouco.
Pessoalmente, acho que merecemos muito: nas-
cemos para ser bem mais felizes do que somos, mas
nossa cultura, nossa sociedade, nossa família não
nos contaram essa história direito. Fomos onerados
15 com contos de ogros sobre culpa, dívida, deveres e...
mais culpa.
Um psicanalista me disse um dia:
– Minha profissão ajuda as pessoas a manter a
cabeça à tona d’água. Milagres ninguém faz.
20 ____ Nessa tona das águas da vida, por cima da qual
nossa cabeça espia – se não naufragamos de vez –,
somos assediados por pensamentos nem sempre
muito inteligentes ou positivos sobre nós mesmos.
As armadilhas do inconsciente, que é onde nos-
25 so pé derrapa, talvez nos façam vislumbrar nessa
fenda obscura um letreiro que diz: “Eu não mereço
ser feliz. Quem sou eu para estar bem, ter saúde, ter
alguma segurança e alegria? Não mereço uma boa
família, afetos razoavelmente seguros, felicidade em
30 meio aos dissabores”. Nada disso. Não nos ensina-
ram que “Deus faz sofrer a quem ama”?
Portanto, se algo começa a ir muito bem, pos-
sivelmente daremos um jeito de que desmorone – a
não ser que tenhamos aprendido a nos valorizar.
35 ____ Vivemos o efeito de muita raiva acumulada, mui-
to mal-entendido nunca explicado, mágoas infantis,
obrigações excessivas e imaginárias. Somos ofus-
cados pelo danoso mito da mãe santa e da esposa
imaculada e do homem poderoso, pela miragem dos
40 filhos mais que perfeitos, do patrão infalível e do go-
verno sempre confiável. Sofremos sob o peso de
quanto “devemos” a todas essas entidades inventa-
das, pois, afinal, por trás delas existe apenas gente,
tão frágil quanto nós.
45 ____ Esses fantasmas nos questionam, mãos na cin-
tura, sobrancelhas iradas:
– Ué, você está quase se livrando das drogas,
está quase conquistando a pessoa amada, está qua-
se equilibrando sua relação com a família, está qua-
50 se obtendo sucesso, vive com alguma tranquilidade
financeira... será que você merece? Veja lá!
Ouvindo isso, assustados réus, num ato nada
falho tiramos o tapete de nós mesmos e damos um
jeito de nos boicotar – coisa que aliás fazemos de-
55 mais nesta curta vida. Escolhemos a droga em lugar
da lucidez e da saúde; nos fechamos para os afetos
em lugar de lhes abrir espaço; corremos atarantados
em busca de mais dinheiro do que precisaríamos; se
vamos bem em uma atividade, ficamos inquietos e
60 queremos trocar; se uma relação floresce, viramos
críticos mordazes ou traímos o outro, dando um jeito
de podar carinho, confiança ou sensualidade.
Se a gente pudesse mudar um pouco essa pers-
pectiva, e não encarar drogas, bebida em excesso,
65 mentira, egoísmo e isolamento como “proibidos”, mas
como uma opção burra e destrutiva, quem sabe po-
deríamos escolher coisas que nos favorecessem. E
não passar uma vida inteira afastando o que poderia
nos dar alegria, prazer, conforto ou serenidade.
70 ____ No conflitado e obscuro território do inconsciente,
que o velho sábio Freud nos ensinaria a arejar e ilu-
minar, ainda nos consideramos maus meninos e me-
ninas, crianças malcomportadas que merecem casti-
go, privação, desperdício de vida. Bom, isso também
75 somos nós: estranho animal que nasceu precisando
urgente de conserto.
Alguém sabe o endereço de uma oficina boa, ba-
rata, perto de casa – ah, e que não lide com notas
frias?
Disponível em:
veja-lya-luft-quanto-ns-merecemos.html>. Acesso em: 16
mar. 2018.
Lya Luft
O ser humano é um animal que deu errado em
várias coisas. A maioria das pessoas que conheço,
se fizesse uma terapia, ainda que breve, haveria de
viver melhor. Os problemas podiam continuar ali, mas
5 elas aprenderiam a lidar com eles.
Sem querer fazer uma interpretação barata ou
subir além do chinelo: como qualquer pessoa que
tenha lido Freud e companhia, não raro penso nas
rasteiras que o inconsciente nos passa e em quanto
10 nos atrapalhamos por achar que merecemos pouco.
Pessoalmente, acho que merecemos muito: nas-
cemos para ser bem mais felizes do que somos, mas
nossa cultura, nossa sociedade, nossa família não
nos contaram essa história direito. Fomos onerados
15 com contos de ogros sobre culpa, dívida, deveres e...
mais culpa.
Um psicanalista me disse um dia:
– Minha profissão ajuda as pessoas a manter a
cabeça à tona d’água. Milagres ninguém faz.
20 ____ Nessa tona das águas da vida, por cima da qual
nossa cabeça espia – se não naufragamos de vez –,
somos assediados por pensamentos nem sempre
muito inteligentes ou positivos sobre nós mesmos.
As armadilhas do inconsciente, que é onde nos-
25 so pé derrapa, talvez nos façam vislumbrar nessa
fenda obscura um letreiro que diz: “Eu não mereço
ser feliz. Quem sou eu para estar bem, ter saúde, ter
alguma segurança e alegria? Não mereço uma boa
família, afetos razoavelmente seguros, felicidade em
30 meio aos dissabores”. Nada disso. Não nos ensina-
ram que “Deus faz sofrer a quem ama”?
Portanto, se algo começa a ir muito bem, pos-
sivelmente daremos um jeito de que desmorone – a
não ser que tenhamos aprendido a nos valorizar.
35 ____ Vivemos o efeito de muita raiva acumulada, mui-
to mal-entendido nunca explicado, mágoas infantis,
obrigações excessivas e imaginárias. Somos ofus-
cados pelo danoso mito da mãe santa e da esposa
imaculada e do homem poderoso, pela miragem dos
40 filhos mais que perfeitos, do patrão infalível e do go-
verno sempre confiável. Sofremos sob o peso de
quanto “devemos” a todas essas entidades inventa-
das, pois, afinal, por trás delas existe apenas gente,
tão frágil quanto nós.
45 ____ Esses fantasmas nos questionam, mãos na cin-
tura, sobrancelhas iradas:
– Ué, você está quase se livrando das drogas,
está quase conquistando a pessoa amada, está qua-
se equilibrando sua relação com a família, está qua-
50 se obtendo sucesso, vive com alguma tranquilidade
financeira... será que você merece? Veja lá!
Ouvindo isso, assustados réus, num ato nada
falho tiramos o tapete de nós mesmos e damos um
jeito de nos boicotar – coisa que aliás fazemos de-
55 mais nesta curta vida. Escolhemos a droga em lugar
da lucidez e da saúde; nos fechamos para os afetos
em lugar de lhes abrir espaço; corremos atarantados
em busca de mais dinheiro do que precisaríamos; se
vamos bem em uma atividade, ficamos inquietos e
60 queremos trocar; se uma relação floresce, viramos
críticos mordazes ou traímos o outro, dando um jeito
de podar carinho, confiança ou sensualidade.
Se a gente pudesse mudar um pouco essa pers-
pectiva, e não encarar drogas, bebida em excesso,
65 mentira, egoísmo e isolamento como “proibidos”, mas
como uma opção burra e destrutiva, quem sabe po-
deríamos escolher coisas que nos favorecessem. E
não passar uma vida inteira afastando o que poderia
nos dar alegria, prazer, conforto ou serenidade.
70 ____ No conflitado e obscuro território do inconsciente,
que o velho sábio Freud nos ensinaria a arejar e ilu-
minar, ainda nos consideramos maus meninos e me-
ninas, crianças malcomportadas que merecem casti-
go, privação, desperdício de vida. Bom, isso também
75 somos nós: estranho animal que nasceu precisando
urgente de conserto.
Alguém sabe o endereço de uma oficina boa, ba-
rata, perto de casa – ah, e que não lide com notas
frias?
Disponível em:
veja-lya-luft-quanto-ns-merecemos.html>. Acesso em: 16
mar. 2018.
“Pessoalmente, acho que merecemos muito: nascemos para ser bem mais felizes do que somos, mas nossa cultura, nossa sociedade, nossa família não nos contaram essa história direito.” (l. 11-14)
Segundo a autora, para que nós, seres humanos, alcancemos o que merecemos, será necessário
Texto associado
Texto CG1A1CCC
1 ____ As mudanças climáticas já são uma realidade para a
população mundial, com ameaças à infraestrutura de cidades,
diminuição da produtividade nas lavouras, alterações nos
4 oceanos e risco em relação à disponibilidade de peixes.
As transformações são causadas pela emissão
excessiva de gases de efeito estufa, em atividades como
7 desmatamento, queima de combustíveis fósseis para a geração
de energia ou práticas insustentáveis na agricultura e na
pecuária.
10 ____ Caso nada seja feito, a previsão é de que haja um
aumento de 1 ºC em 2020 em relação à era pré-industrial.
Parece pouco, mas é suficiente para gerar consequências para
13 todas as populações do mundo, em especial as comunidades
pobres e vulneráveis, causando impactos na segurança
alimentar, hídrica e energética, aumento do nível do mar,
16 tempestades, ondas de calor e intensificação de secas, chuvas
e inundações.
Internet: (com adaptações).
1 ____ As mudanças climáticas já são uma realidade para a
população mundial, com ameaças à infraestrutura de cidades,
diminuição da produtividade nas lavouras, alterações nos
4 oceanos e risco em relação à disponibilidade de peixes.
As transformações são causadas pela emissão
excessiva de gases de efeito estufa, em atividades como
7 desmatamento, queima de combustíveis fósseis para a geração
de energia ou práticas insustentáveis na agricultura e na
pecuária.
10 ____ Caso nada seja feito, a previsão é de que haja um
aumento de 1 ºC em 2020 em relação à era pré-industrial.
Parece pouco, mas é suficiente para gerar consequências para
13 todas as populações do mundo, em especial as comunidades
pobres e vulneráveis, causando impactos na segurança
alimentar, hídrica e energética, aumento do nível do mar,
16 tempestades, ondas de calor e intensificação de secas, chuvas
e inundações.
Internet: (com adaptações).