Atenção : Para responder às questões de números 1 a 8, baseie-se no texto seguinte.
A não-festa dos meus oito anos
— Quer dizer que não vai ter meu aniversário?
Não me lembro de ter feito a pergunta. Fiz o que pude para abafar essa lembrança —- e quando muitos anos mais tarde me contaram o caso, como quem conta um episódio inocente, quis nada menos que morrer também. Eu já era um adolescente quando essa história me foi lembrada — a mim, que a havia sepultado no fundo do meu inconsciente.
Eu já ia fazer oito anos, mas minha mãe, recostada na cabeceira da cama, estava cercada de tias, primas, sobrinhas, amigas, e mamãe repetindo que Papai do Céu tinha levado nossa irmã. Foi então que perguntei se não ia ter meu aniversário. Ouvindo essa história, adolescente, me senti um monstro. Vergado sob a culpa tardia e envergonhado do papelão de ter pensado em bolo, salgadinhos e presentes numa hora daquelas, nossa mãe sofrendo, papelão ainda mais horrendo quando comparado ao papel bonito dos meus irmãos. O mais velho, olhos cheios de lagrimas, correu ao quarto da irmã, abriu o armário e acariciou os vestidinhos pendurados. O outro irmão compôs uma pulseirinha delicada com pequenos grampos de cabelo. Eu não pensei em nada, pois aquela morte havia destroçado o meu aniversário.
Diante da minha frustração, devem ter dito: vamos dar alguma coisa pra esse menino, coitado — e então fomos para o centro da cidade, tia Nathalia e eu, comprar na loja alguma coisa para mim, qual coisa? —e a coisa resultou ser uma sanfoninha que quase seis décadas depois ainda está aqui, ali no alto dessa estante na minha casa de homem velho, capaz ainda de produzir música, intocada, mas tocável.
Só não garanto que o dono dê conta de extrair dali o “Parabéns pra você”, o parabéns-para-mim que o menino de oito anos tirou sozinho, sentado na escada de uma casa onde os pais chorosos cuidavam do granito preto para o túmulo da menina que partira. A cada vez que me entrego a tais rememorações, é difícil para mim metabolizar a verdade rude dos sentimentos daquele menino que não se conformou ao ver sabotada a festa de seus oito anos.
(Adaptado de: WERNECK, Humberto. Esse inferno vai acabar . Porto Alegre, Arquipélago, 2011, p. 65-66)
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Ouvindo essa história, adolescente , me senti um monstro .
Texto associado
A gratidão tem o poder de salvar vidas (ou por que você deveria escrever aquela nota de agradecimento)
Richard Gunderman. Tradução: Camilo Rocha
A gratidão pode ser mais benéfica do que costumamos supor. Um estudo recente pediu que pessoas escrevessem uma nota de agradecimento para alguém e depois estimassem o quão surpreso e feliz o recebedor ficaria. Invariavelmente, o impacto foi subestimado. Outro estudo avaliou os benefícios para a saúde de se escrever bilhetes de obrigado. Os pesquisadores descobriram que escrever apenas três notas de obrigado ao longo de três semanas melhorava a satisfação com a vida, aumentava sentimentos de felicidade e reduziria sintomas de depressão.
Existem múltiplas explicações para os benefícios da gratidão. Uma é o fato de que expressar gratidão encoraja os outros a continuarem sendo generosos, promovendo, assim, um ciclo virtuoso de bondade em relacionamentos. Da mesma maneira, pessoas agradecidas talvez fiquem mais propensas a retribuir com seus próprios atos de bondade. Falando de modo mais amplo, uma comunidade em que as pessoas se sentem agradecidas umas com as outras tem mais chance de ser um lugar agradável para se viver do que uma caracterizada por suspeição e ressentimento mútuos.
Os efeitos benéficos da gratidão podem ir ainda mais longe. Por exemplo, quando muitas pessoas se sentem bem sobre o que outra pessoa fez por elas, elas sentem um senso de elevação, com um consequente reforço da sua consideração pela humanidade. Alguns se inspiram a tentar se tornar também pessoas melhores, fazendo mais para ajudar a trazer o melhor nos outros e trazendo mais bondade para o mundo à sua volta.
É claro, atos de bondade também podem fomentar desconforto. Por exemplo, se pessoas sentem que não são merecedoras de bondade ou suspeitam que há algum motivo por trás da bondade, os benefícios da gratidão não se realizarão. Do mesmo modo, receber bondade pode fazer surgir um senso de dívida, deixando nos beneficiários uma sensação de que precisam pagar de volta a bondade recebida. A gratidão pode florescer apenas se as pessoas têm confiança o suficiente em si mesmas e nos outros para permitir que isso aconteça.
Outro obstáculo para a gratidão é frequentemente chamado de senso de merecimento. Em vez de sentir um benefício como uma virada boa, as pessoas às vezes o veem como um mero pagamento do que lhes é devido, pelo qual ninguém merece nenhum crédito moral. Ainda que seja importante ver que a justiça está sendo feita, deixar de lado oportunidades por sentimentos genuínos e expressões de generosidade também podem produzir uma comunidade mais impessoal e fragmentada.
Quando Defoe retratou a personagem Robinson Crusoe fazendo da ação de graças uma parte diária de sua vida na ilha, ele estava antecipando descobertas nas ciências sociais e medicina que não apareceriam por centenas de anos. Ele também estava refletindo a sabedoria de tradições religiosas e filosóficas que têm início há milhares de anos. A gratidão é um dos estados mentais mais saudáveis e edificantes, e aqueles que a adotam como hábito estão enriquecendo não apenas suas próprias vidas mas também as vidas daqueles à sua volta.
Adaptado de: https://www.nexojornal.com.br/externo/2018 /08/11/A-gratid%C3%A3o-tem-o-poder-de-salvar- vidas-ou-por-que-voc%C3%AA-deveria-escrever- aquela-nota-de-agradecimento Acesso em: 04 fev. 2020.
Richard Gunderman. Tradução: Camilo Rocha
A gratidão pode ser mais benéfica do que costumamos supor. Um estudo recente pediu que pessoas escrevessem uma nota de agradecimento para alguém e depois estimassem o quão surpreso e feliz o recebedor ficaria. Invariavelmente, o impacto foi subestimado. Outro estudo avaliou os benefícios para a saúde de se escrever bilhetes de obrigado. Os pesquisadores descobriram que escrever apenas três notas de obrigado ao longo de três semanas melhorava a satisfação com a vida, aumentava sentimentos de felicidade e reduziria sintomas de depressão.
Existem múltiplas explicações para os benefícios da gratidão. Uma é o fato de que expressar gratidão encoraja os outros a continuarem sendo generosos, promovendo, assim, um ciclo virtuoso de bondade em relacionamentos. Da mesma maneira, pessoas agradecidas talvez fiquem mais propensas a retribuir com seus próprios atos de bondade. Falando de modo mais amplo, uma comunidade em que as pessoas se sentem agradecidas umas com as outras tem mais chance de ser um lugar agradável para se viver do que uma caracterizada por suspeição e ressentimento mútuos.
Os efeitos benéficos da gratidão podem ir ainda mais longe. Por exemplo, quando muitas pessoas se sentem bem sobre o que outra pessoa fez por elas, elas sentem um senso de elevação, com um consequente reforço da sua consideração pela humanidade. Alguns se inspiram a tentar se tornar também pessoas melhores, fazendo mais para ajudar a trazer o melhor nos outros e trazendo mais bondade para o mundo à sua volta.
É claro, atos de bondade também podem fomentar desconforto. Por exemplo, se pessoas sentem que não são merecedoras de bondade ou suspeitam que há algum motivo por trás da bondade, os benefícios da gratidão não se realizarão. Do mesmo modo, receber bondade pode fazer surgir um senso de dívida, deixando nos beneficiários uma sensação de que precisam pagar de volta a bondade recebida. A gratidão pode florescer apenas se as pessoas têm confiança o suficiente em si mesmas e nos outros para permitir que isso aconteça.
Outro obstáculo para a gratidão é frequentemente chamado de senso de merecimento. Em vez de sentir um benefício como uma virada boa, as pessoas às vezes o veem como um mero pagamento do que lhes é devido, pelo qual ninguém merece nenhum crédito moral. Ainda que seja importante ver que a justiça está sendo feita, deixar de lado oportunidades por sentimentos genuínos e expressões de generosidade também podem produzir uma comunidade mais impessoal e fragmentada.
Quando Defoe retratou a personagem Robinson Crusoe fazendo da ação de graças uma parte diária de sua vida na ilha, ele estava antecipando descobertas nas ciências sociais e medicina que não apareceriam por centenas de anos. Ele também estava refletindo a sabedoria de tradições religiosas e filosóficas que têm início há milhares de anos. A gratidão é um dos estados mentais mais saudáveis e edificantes, e aqueles que a adotam como hábito estão enriquecendo não apenas suas próprias vidas mas também as vidas daqueles à sua volta.
Adaptado de: https://www.nexojornal.com.br/externo/2018 /08/11/A-gratid%C3%A3o-tem-o-poder-de-salvar- vidas-ou-por-que-voc%C3%AA-deveria-escrever- aquela-nota-de-agradecimento Acesso em: 04 fev. 2020.
Considerando que a oração em destaque classifica-se como reduzida por não apresentar conectivo e por apresentar um verbo em sua forma nominal, assinale a alternativa que apresenta um desenvolvimento dessa oração com sentido coerente e redação adequada.
“Uma é o fato de que expressar gratidão encoraja os outros a continuarem sendo generosos, promovendo assim um ciclo virtuoso de bondade em relacionamentos.”.
Texto associado
Quanto nós merecemos?
Lya Luft
O ser humano é um animal que deu errado em
várias coisas. A maioria das pessoas que conheço,
se fizesse uma terapia, ainda que breve, haveria de
viver melhor. Os problemas podiam continuar ali, mas
5 elas aprenderiam a lidar com eles.
Sem querer fazer uma interpretação barata ou
subir além do chinelo: como qualquer pessoa que
tenha lido Freud e companhia, não raro penso nas
rasteiras que o inconsciente nos passa e em quanto
10 nos atrapalhamos por achar que merecemos pouco.
Pessoalmente, acho que merecemos muito: nas-
cemos para ser bem mais felizes do que somos, mas
nossa cultura, nossa sociedade, nossa família não
nos contaram essa história direito. Fomos onerados
15 com contos de ogros sobre culpa, dívida, deveres e...
mais culpa.
Um psicanalista me disse um dia:
– Minha profissão ajuda as pessoas a manter a
cabeça à tona d’água. Milagres ninguém faz.
20 ____ Nessa tona das águas da vida, por cima da qual
nossa cabeça espia – se não naufragamos de vez –,
somos assediados por pensamentos nem sempre
muito inteligentes ou positivos sobre nós mesmos.
As armadilhas do inconsciente, que é onde nos-
25 so pé derrapa, talvez nos façam vislumbrar nessa
fenda obscura um letreiro que diz: “Eu não mereço
ser feliz. Quem sou eu para estar bem, ter saúde, ter
alguma segurança e alegria? Não mereço uma boa
família, afetos razoavelmente seguros, felicidade em
30 meio aos dissabores”. Nada disso. Não nos ensina-
ram que “Deus faz sofrer a quem ama”?
Portanto, se algo começa a ir muito bem, pos-
sivelmente daremos um jeito de que desmorone – a
não ser que tenhamos aprendido a nos valorizar.
35 ____ Vivemos o efeito de muita raiva acumulada, mui-
to mal-entendido nunca explicado, mágoas infantis,
obrigações excessivas e imaginárias. Somos ofus-
cados pelo danoso mito da mãe santa e da esposa
imaculada e do homem poderoso, pela miragem dos
40 filhos mais que perfeitos, do patrão infalível e do go-
verno sempre confiável. Sofremos sob o peso de
quanto “devemos” a todas essas entidades inventa-
das, pois, afinal, por trás delas existe apenas gente,
tão frágil quanto nós.
45 ____ Esses fantasmas nos questionam, mãos na cin-
tura, sobrancelhas iradas:
– Ué, você está quase se livrando das drogas,
está quase conquistando a pessoa amada, está qua-
se equilibrando sua relação com a família, está qua-
50 se obtendo sucesso, vive com alguma tranquilidade
financeira... será que você merece? Veja lá!
Ouvindo isso, assustados réus, num ato nada
falho tiramos o tapete de nós mesmos e damos um
jeito de nos boicotar – coisa que aliás fazemos de-
55 mais nesta curta vida. Escolhemos a droga em lugar
da lucidez e da saúde; nos fechamos para os afetos
em lugar de lhes abrir espaço; corremos atarantados
em busca de mais dinheiro do que precisaríamos; se
vamos bem em uma atividade, ficamos inquietos e
60 queremos trocar; se uma relação floresce, viramos
críticos mordazes ou traímos o outro, dando um jeito
de podar carinho, confiança ou sensualidade.
Se a gente pudesse mudar um pouco essa pers-
pectiva, e não encarar drogas, bebida em excesso,
65 mentira, egoísmo e isolamento como “proibidos”, mas
como uma opção burra e destrutiva, quem sabe po-
deríamos escolher coisas que nos favorecessem. E
não passar uma vida inteira afastando o que poderia
nos dar alegria, prazer, conforto ou serenidade.
70 ____ No conflitado e obscuro território do inconsciente,
que o velho sábio Freud nos ensinaria a arejar e ilu-
minar, ainda nos consideramos maus meninos e me-
ninas, crianças malcomportadas que merecem casti-
go, privação, desperdício de vida. Bom, isso também
75 somos nós: estranho animal que nasceu precisando
urgente de conserto.
Alguém sabe o endereço de uma oficina boa, ba-
rata, perto de casa – ah, e que não lide com notas
frias?
Disponível em:
veja-lya-luft-quanto-ns-merecemos.html>. Acesso em: 16
mar. 2018.
Lya Luft
O ser humano é um animal que deu errado em
várias coisas. A maioria das pessoas que conheço,
se fizesse uma terapia, ainda que breve, haveria de
viver melhor. Os problemas podiam continuar ali, mas
5 elas aprenderiam a lidar com eles.
Sem querer fazer uma interpretação barata ou
subir além do chinelo: como qualquer pessoa que
tenha lido Freud e companhia, não raro penso nas
rasteiras que o inconsciente nos passa e em quanto
10 nos atrapalhamos por achar que merecemos pouco.
Pessoalmente, acho que merecemos muito: nas-
cemos para ser bem mais felizes do que somos, mas
nossa cultura, nossa sociedade, nossa família não
nos contaram essa história direito. Fomos onerados
15 com contos de ogros sobre culpa, dívida, deveres e...
mais culpa.
Um psicanalista me disse um dia:
– Minha profissão ajuda as pessoas a manter a
cabeça à tona d’água. Milagres ninguém faz.
20 ____ Nessa tona das águas da vida, por cima da qual
nossa cabeça espia – se não naufragamos de vez –,
somos assediados por pensamentos nem sempre
muito inteligentes ou positivos sobre nós mesmos.
As armadilhas do inconsciente, que é onde nos-
25 so pé derrapa, talvez nos façam vislumbrar nessa
fenda obscura um letreiro que diz: “Eu não mereço
ser feliz. Quem sou eu para estar bem, ter saúde, ter
alguma segurança e alegria? Não mereço uma boa
família, afetos razoavelmente seguros, felicidade em
30 meio aos dissabores”. Nada disso. Não nos ensina-
ram que “Deus faz sofrer a quem ama”?
Portanto, se algo começa a ir muito bem, pos-
sivelmente daremos um jeito de que desmorone – a
não ser que tenhamos aprendido a nos valorizar.
35 ____ Vivemos o efeito de muita raiva acumulada, mui-
to mal-entendido nunca explicado, mágoas infantis,
obrigações excessivas e imaginárias. Somos ofus-
cados pelo danoso mito da mãe santa e da esposa
imaculada e do homem poderoso, pela miragem dos
40 filhos mais que perfeitos, do patrão infalível e do go-
verno sempre confiável. Sofremos sob o peso de
quanto “devemos” a todas essas entidades inventa-
das, pois, afinal, por trás delas existe apenas gente,
tão frágil quanto nós.
45 ____ Esses fantasmas nos questionam, mãos na cin-
tura, sobrancelhas iradas:
– Ué, você está quase se livrando das drogas,
está quase conquistando a pessoa amada, está qua-
se equilibrando sua relação com a família, está qua-
50 se obtendo sucesso, vive com alguma tranquilidade
financeira... será que você merece? Veja lá!
Ouvindo isso, assustados réus, num ato nada
falho tiramos o tapete de nós mesmos e damos um
jeito de nos boicotar – coisa que aliás fazemos de-
55 mais nesta curta vida. Escolhemos a droga em lugar
da lucidez e da saúde; nos fechamos para os afetos
em lugar de lhes abrir espaço; corremos atarantados
em busca de mais dinheiro do que precisaríamos; se
vamos bem em uma atividade, ficamos inquietos e
60 queremos trocar; se uma relação floresce, viramos
críticos mordazes ou traímos o outro, dando um jeito
de podar carinho, confiança ou sensualidade.
Se a gente pudesse mudar um pouco essa pers-
pectiva, e não encarar drogas, bebida em excesso,
65 mentira, egoísmo e isolamento como “proibidos”, mas
como uma opção burra e destrutiva, quem sabe po-
deríamos escolher coisas que nos favorecessem. E
não passar uma vida inteira afastando o que poderia
nos dar alegria, prazer, conforto ou serenidade.
70 ____ No conflitado e obscuro território do inconsciente,
que o velho sábio Freud nos ensinaria a arejar e ilu-
minar, ainda nos consideramos maus meninos e me-
ninas, crianças malcomportadas que merecem casti-
go, privação, desperdício de vida. Bom, isso também
75 somos nós: estranho animal que nasceu precisando
urgente de conserto.
Alguém sabe o endereço de uma oficina boa, ba-
rata, perto de casa – ah, e que não lide com notas
frias?
Disponível em:
veja-lya-luft-quanto-ns-merecemos.html>. Acesso em: 16
mar. 2018.