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296 questões encontradas

Os professores indígenas não possuem mais tempo para aprender as coisas de sua cultura, pois, como professores oficiais de
sua tribo, de seu grupo, precisam usar todo o tempo para aprender e dar conta dos conteúdos que seus superiores esperam que
eles desenvolvam em sala de aula. Trata-se de conteúdos que lhes chegam pela escrita em cartilhas, textos, livros, documentos.
Deixam, assim, de ter a possibilidade de ser professores interculturais, para atuar no campo das diferenças entre o mundo
indígena e a sociedade inclusiva. Não basta ensinar na língua indígena; é preciso participar, partilhar, trocar e, com isso, manter
a aprendizagem no interior da própria cultura para, como experiência, fazê-la dialogar com tudo isso que vem como exigência e
obrigatoriedade por parte da escola como instituição.
(Adaptado de: GUSMÃO, N. M. M. "Antropologia, diversidade e educação: um campo de possibilidades". Revista Ponto e vírgula , n. 10,
pp. 32-45, 2011)
Com base no conteúdo do texto,

A a educação regular resulta em maior sobrecarga de trabalho para os professores do que a educação intercultural.
B a cultura letrada formal se impõe como um recurso nefasto para as comunidades indígenas, que deixam de cultuar suas
próprias práticas.
C a língua indígena é um forte elemento cultural, mas apenas ela não garante a manutenção da cultura própria, frente à
cultura letrada formal da escola.
D os conteúdos das cartilhas, dos livros, textos e documentos impedem que o professor atue de forma intercultural.
E os conteúdos simbólicos e as práticas culturais da comunidade constituem uma dificuldade para a adaptação dos
professores.
Texto associado
Atenção : Para responder às questões de números 7 a 11, baseie-se no texto abaixo.
Memória de longe
Ao longo da vida, nossas lembranças não apenas se renovam, segundo os fatos que vão acontecendo. A faculdade da memória, em seu misterioso processo, muda de natureza. Na velhice, a memória costuma priorizar as lembranças mais antigas segundo necessidades novas. É o que confirma o caso seguinte.
Meu muito velho vizinho estava morrendo. Ciente de seu estado, pediu que chamassem o filho longínquo, que há tanto tempo estava sem ver, já perdera a conta dos anos. Chamaram, e o filho José se pôs a caminho, ele mesmo, seu filho predileto, o filho Zezito. E o José enfim chegou de sua longa viagem de avião, respondendo contristado ao apelo paterno. Surgiu no quarto penumbroso, achegou-se ao leito, os cabelos e os bigodes já grisalhando contra a luz do abajur.
A filha alertou o velho:
– Olha, aí, pai, o Zezito chegou. Pertinho de você.
O velho entreabriu os olhos turvos e já ia estendendo um braço, quando então o recolheu, murmurando num tom irritado:
– Esse aí não é o Zezito, não! Cadê o Zezito?
Horas depois o velho vizinho partiu. Sem se despedir de ninguém, nem mesmo do menino que há tanto, tanto tempo perdera de vista.
(Jesualdo Calixto, inédito)

O caso narrado no texto é relatado para demonstrar que, como costuma ocorrer na velhice, a memória mais antiga

A torna-se exclusiva, podendo mesmo eliminar a consciência do tempo que já correu.
B traz de novo aos nossos olhos uma imagem realista do que julgávamos esquecido.
C tende a continuar imaginariamente no tempo, compondo uma nova história.
D dá aos fatos mais remotos um novo contorno, no qual se perde todo o valor que tiveram.
E esfuma-se sob as pressões mais recentes, antecipando assim o final de uma vida.
Texto associado
Atenção : Para
responder às questões de
números 1 a 9, considere o texto
abaixo.

1. “Máquinas similares às
hoje existentes
serão construídas a custos mais baixos,
mas com velocidades mais rápidas de
processamento.”
Assim, em um artigo de 1965, o
empreendedor Gordon Moore, hoje com 90
anos de idade, apresentou sua célebre
ideia. Pela “Lei de Moore”, a cada dois
anos, em média, o desempenho dos chips de
computador dobra, sem que aumentem os
custos de fabricação. A máxima,
irretocável, à exceção de pequenos
detalhes, funcionou tal qual intuíra
Moore. É uma regra que
pode, contudo, estar com os dias
contados.
2.
Vive-se, hoje, uma revolução
tecnológica afeita a deixar no passado o
raciocínio da duplicação de capacidade de
cálculos à
base de silício: é a computação quântica.
Ela poderá nos levar a distâncias
inimagináveis: tarefas que o computador
mais poderoso
do planeta demoraria 10.000 anos para
completar seriam feitas em minutos.

3. A
computação quântica, até o início
desta década, não passava de teoria. Nos
últimos anos, começou a ser testada, com
sucesso parcial, até conseguir tração que
parece se encaminhar para uma nova
história. Um documento da NASA, vazado
recentemente,
mostra que uma empresa, ao criar o
primeiro computador quântico funcional da
história, pode estar próxima de romper com
o paradigma imposto pela Lei de
Moore.
4.
A revelação foi resultado de uma
distração. Algum funcionário da NASA,
também envolvido com o projeto,
acidentalmente
publicou no site da agência espacial um
estudo que mostra o feito, realizado por
meio de uma máquina, ainda sob sigilo. O
arquivo, já
programado para ser divulgado
oficialmente, permaneceu poucos segundos
no ar, mas foi flagrado pelo jornal
Financial Times.

5. O avanço ainda se
restringe a âmbitos
estritamente técnicos, sem utilidade
cotidiana, mas já é apelidado de “o Santo
Graal da
computação”. Isso porque o feito, se
comprovado, atingiu o que se conhece como
“supremacia quântica”. A nomenclatura
indica um
momento da civilização em que os
computadores talvez sejam tão (ou mais)
competentes quanto os seres humanos.

6. O
cientista da computação Scott
Aaronson disse, em entrevista: “Isso não
causará mudança imediata na vida das
pessoas.
Mas só por enquanto, pois se trata do
início de um caminho que levará a
transformações radicais em diversas
áreas”. Vale lembrar
que o computador que usamos hoje também
começou com um passo singelo, em 1843,
quando a matemática inglesa Ada Lovelace
(1815-1852) publicou um diagrama numérico
que veio a ser considerado o primeiro
algoritmo computacional.

(Adaptado de:
Revista Veja , edição de
09/10/2019, p. 79)

Considere as afirmações abaixo.
I. No primeiro parágrafo, a menção à Lei de Moore refere-se ao caráter premonitório do artigo publicado por Gordon Moore
em 1965, que, salvo poucos pormenores, mostrou-se futuramente correto.

II. Como estratégia argumentativa, o autor descreve a chamada “Lei de Moore” logo no início do texto para embasar a ideia
de que até mesmo uma máquina de computação quântica a comprova.

III. Ao longo do texto, o autor condena a atitude do funcionário da NASA que vazou, ainda que de modo acidental,
informações confidenciais a respeito de avanços tecnológicos.

IV. Publicado sem a devida permissão, um artigo de jornal antecipou ao público as características de um supercomputador,
apelidado de “o Santo Graal da computação”, a ser brevemente lançado, cujas funcionalidades trarão mudanças
significativas à vida cotidiana do cidadão comum.

Está correto o que consta APENAS de:

A III e IV.
B IV.
C I.
D I, III e IV.
E II e III.
Órgão: Assembléia Legislativa do Amapá Cargo: Assistente Legislativo Atividade Orçamentária e Financeira - Área: Assistente de Contabilidade Prova: FCC - ALE AP - Assistente Legislativo Atividade Orçamentária e Financeira - Área: Assistente de Contabilidade - 2020
Texto associado
Atenção : Para responder às questões de números 1 a 7, baseie-se no texto abaixo.

Para enfrentar os desafios da atualidade, o autor defende um sistema econômico

A que coadune os propósitos da sociedade com os das empresas, de modo que estas venham a implementar ações sustentáveis,
visando à satisfação, a um só tempo, dos interesses corporativos e sociais.
B cujo principal objetivo seja o de promover retorno financeiro a empresas e investidores, os quais, em contrapartida, fomentariam
ações de cuidado com o meio ambiente, na medida em que estas fossem proporcionalmente incentivadas pelo
Estado.
C já testado em países emergentes, como a China, que vem proporcionando níveis altos de desenvolvimento econômico,
bem como a prosperidade sem precedentes da população.
D em que a gestão da economia caiba primordialmente ao Estado, o qual poderia, assim, ter controle sobre a sustentabilidade
de toda a cadeia produtiva.
E em que se criem empregos por meio da expansão do mercado consumidor e da maximização dos benefícios financeiros
aos acionistas de uma corporação.
Texto associado
Atenção : Para responder às questões de números 6 a 10, baseie-se no texto abaixo.

O século XX, Era dos Extremos

O século XX deixou um legado inegável de questões e impasses. Para o grande historiador Eric Hobsbawm, neste livro Era dos Extremos - o breve século XX -1914- 1991 , esse século foi breve e extremado: sua história e suas possibilidades edificaram-se sobre catástrofes, incertezas e crises, decompondo o que fora construído no longo século XIX.
Hobsbawm divide a história do século XX em três “eras”. A primeira, “da catástrofe”, é marcada pelas duas grandes guerras, pelas ondas de revolução global em que o sistema político e econômico da URSS surgia como alternativa histórica para o capitalismo e pela virulência da crise econômica de 1929. Também nesse período os fascismos e o descrédito das democracias liberais surgem como proposta mundial.
A segunda “era” são os anos dourados das décadas de 1950 e 1960 que, em sua paz congelada, viram a viabilização e a estabilização do capitalismo, responsável pela promoção de uma extraordinária expansão econômica e profundas transformações sociais.
Por fim, entre 1970 e 1991, dá-se o “desmoronamento” final, em que caem por terra os sistemas institucionais que previnem e limitam o barbarismo contemporâneo, dando lugar à brutalização da política e à irresponsabilidade teórica da ortodoxia econômica, abrindo as portas para um futuro incerto .

(Adaptado da “orelha”, sem indicação autoral, do livro de Eric Hobsbawm acima referido, editado em São Paulo pela Companhia das Letras, em 1995)

Ao constituir uma visão geral do século XX, que considera breve e extremado, o historiador Eric Hobsbawm

A salienta a importância que tiveram as metas o século XIX para a consecução dos objetivos alcançados no século
seguinte.
B leva em conta, como critério fundamental para essa divisão a emancipação política desfrutada pelas classes trabalhadoras
de diferentes países.
C faz reconhecer uma desconstrução geral e radical das expectativas e dos ideais gerados no decorrer do longo século XIX.
D aponta como único saldo positivo a oportuna emergência do moderno liberalismo econômico, já ao final da década de 1920.
E salienta a importância que alcançaram as décadas de 1950 e 1960, nas quais se efetivou o descrédito das democracias
liberais.
Órgão: Assembléia Legislativa do Amapá Cargo: Analista Legislativo Atividade de Tecnologia da Informação - Área: Técnico de Segurança da Informação Prova: FCC - ALE AP - Analista Legislativo Atividade de Tecnologia da Informação - Área: Técnico de Segurança da Informação - 2020
Texto associado
ENTENDENDO DIALETOS

Clara Braga

Quem já teve a oportunidade de conviver minimamente com uma criança, sabe que o processo de aprender a falar pode render boas histórias.
As crianças, antes de desenvolverem 100% dessa habilidade, parece que criam um dialeto. E engana-se quem acha que o dialeto de todas as crianças é igual e que, se você entende o que seu sobrinho ou priminho fala, vai entender todas as crianças.
O dialeto da criança é tão complexo que, com exceção de poucas palavras que todas parecem falar de uma forma igual, só aquela criança fala aquela língua e só uma pessoa entende 100% do que está sendo dito: o ser que eu chamo de “pãe”.
“Pãe” seria a mistura do pai e da mãe, pois raramente um dos dois entende tudo o que o filho está dizendo, eles podem entender a frase toda pelo contexto, mas decifrar e compreender palavrinha por palavrinha, é um trabalho de grupo.
Às vezes pode parecer complicada essa coisa de não entender o que a criança está querendo dizer, mas confiem, em alguns momentos isso pode ser bom.
Outro dia estava em um restaurante com meu filho e, como toda criança, ele ficou um tempo sentado e depois foi explorar a redondeza. Fui acompanhando e, no caminho, encontramos uma avó que estava acompanhando a neta enquanto a mãe jantava no mesmo restaurante onde estávamos.
A senhora começou a puxar assunto com meu filho, na tentativa de aproximar a neta. Meu filho se mostrou aberto à aproximação e ia respondendo tudo que a senhora perguntava. Lá pelas tantas, quando eu já estava surpreendida com a quantidade de palavras que a senhora estava entendendo do dialeto do meu filho, ele decidiu pegar algo com a mão e mostrar para a senhora e para a pequena netinha o quão forte ele era. Foi então que a senhora soltou a frase: uau, como você é forte!
Ele respondeu com uma de suas frases prediletas, aprendida por causa de seu interesse e do vício do pai pelo universo dos heróis: Hulk esmagaaaaaa! Mas ele não disse com um ar doce, ele disse como se estivesse com raiva e de fato esmagando o que estava na sua mão, tudo isso enquanto olhava bem nos olhos na netinha da senhora.
Eu fiquei um pouco assustada e com receio do que viria depois, já dei um riso meio sem graça e estava procurando uma desculpa para aquela frase nada acolhedora. Porém, os santos do dialeto me salvaram. Quando ouviu a frase a senhora logo respondeu para meu filho: ah sim, você é forte porque come manga! Vou dar muita manga para minha netinha, assim ela fica forte como você!
Fiquei aliviada com a interpretação que ela fez da frase que, para mim, ele tinha dito com muita clareza. Muito melhor uma neta comendo muita manga do que traumatizada com um bebê que estava prestes a ficar verde e esmagar as coisas ao redor. Acho que vou optar por mostrar para ele desenhos com frases mais amigáveis, ele está indo bem no processo da fala, mas talvez algo mais dócil ajude no processo de socialização.

Disponível em:
< http://www.cronicadodia.com.br/2020/ 01/entendendo-dialetos-clara-braga.html >. Acesso em: 04 fev. 2020.

De acordo com a interpretação do texto, assinale a alternativa correta.

A O filho chama a narradora de “pãe”, pois ela é mãe solteira, ou seja, tem o papel de mãe e pai para o menino.
B Somente o pai e a mãe conseguem entender o que os filhos pequenos querem dizer.
C Não compreender exatamente o que as crianças dizem pode ser algo favorável em algumas situações.
D Quando a mãe levou o filho a um restaurante, eles encontraram a avó do menino, com a qual ele conversou bastante.
E O menino citado no texto tem dificuldades de socialização.
Texto associado
TEXTO 1

A CRIAÇÃO DO MUNDO
(Revista e diminuída)

E no princípio era o verbo

depois o advérbio e o composto

veio então a raiz quadrada

povoar de teoremas as águas

do cérebro

como toda ciência – e muita, mas

muita paciência – criou

toda matéria que há

separando a geografia o

mar da terra

lá pela hora do recreio

veio a arte e a história

dar seus palpites

e foi depois da sétima aula

que o Professor descansou

não sem antes passar dois

mil anos de lição de casa

para que todos aprendessem

um pouco de tudo que há no mundo

e não levasse bomba no fim do ano.

(Ulisses Tavares, Viva a poesia, 1997, p. 48).

Em relação ao conteúdo do Texto 1, é
correto afirmar que

A aborda o universo escolar e realiza uma
intertextualidade com o texto bíblico sobre a
criação do mundo.
B tematiza as disciplinas escolares restritas ao
ensino fundamental.
C utiliza uma linguagem denotativa para tratar
do ensino de disciplinas específicas.
D visa igualar o conhecimento escolar com a
criação do universo.
E realiza uma comparação entre o momento
em que Deus criou a terra e as disciplinas de
geografia e história.

A verdadeira substância da linguagem
não é constituída por um sistema
abstrato de formas linguísticas, nem pela
enunciação monológica isolada, nem
pelo ato psicofisiológico de sua
produção, mas pelo fenômeno social da
interação verbal, realizada pela
enunciação ou pelas enunciações. A
interação constitui, assim, a realidade
fundamental da linguagem (BAKHTIN,
1988). Assinale a alternativa em que sua
proposição contrapõe esses
pressupostos, ou seja, que NÃO está de
acordo com a terceira concepção ou
ainda que NÃO leva em consideração a
interação.

A A linguagem é social. É por meio das
relações sociais que o ser humano aprende
e ensina, constrói e desconstrói
conhecimento.
B Hoje se reconhece que, ao falar, o indivíduo
não só descreve o que observa, mas atua no
mundo e faz com que certas coisas
aconteçam.
C A linguagem é um lugar de trocas humanas,
comunicativas, pela produção de efeitos de
sentido entre interlocutores, em uma dada
situação de comunicação e em um contexto
sócio-histórico e ideológico.
D É preciso pensar a linguagem humana como
lugar de interação, de constituição das
identidades, de representação de papéis, de
negociação de sentidos, por palavras, mas é
preciso encarar a linguagem não apenas
como forma de interação social, mas, sim,
acima de tudo, como representação do
mundo e do pensamento ou como
instrumento de comunicação.
E Para Vygotsky (1994), a relação entre
pensamento e linguagem é estreita. A
linguagem (verbal, gestual e escrita) é nosso
instrumento de relação com os outros e, por
isso, é importantíssima na nossa
constituição como sujeitos.
Texto associado
O
cortador de piada

Por Paulo
Pestana

Contar piada é
uma arte. Há o contador
minucioso, que entra em detalhes, sai do
trilho e,
quando menos se espera, volta para o
arremate,
normalmente rindo mais do que quem ouve a
história pela primeira vez; há o conciso,
que usa
poucas frases e normalmente é cortante,
frequentemente maldoso; o histriônico, que
muda
a voz, se levanta, interpreta e exagera, o
pornográfico, que acha palavrão engraçado, o
verborrágico, que emenda uma piada na outra,
entre muitos outros.
Toda boa roda
de botequim tem que ter algum
contador de anedota de repertório amplo,
memória
prodigiosa e paciência. Ainda mais se de vez
em
quando aparecer na conversa um outro
personagem, o cortador de piada. Sim; um
conta,
o outro corta, normalmente se introduzindo
na
história alheia, estragando o final.

Toda boa
piada tem seu clímax no final. Não
é como um conto, uma narrativa, um cordel ou
até
mesmo um ‘causo’, quando a graça, muitas
vezes,
está no desenvolvimento da ação. O fecho da
piada tem que ser surpreendente, definitivo,
deve
conter toda graça em poucas palavras que
muitas
vezes torcem a lógica exposta
anteriormente.
O cortador de
piada é também conhecido
como o chato. Por mais velho que seja o
chiste, é
preciso respeitar o contador, ainda que não
seja
dos mais cativantes, que não tenha o brilho
e a
graça de um Chico Anísio. O cortador muitas
vezes interrompe a narrativa sem a menor
cerimônia, com aquela inocência insuportável
dos
enjoados — o chato de verdade nunca é
proposital; é um traço de caráter inato, o
que só
piora a situação.
Mas há
situações piores, quando o chato se
transforma no ladrão de piada. Também
querendo
dominar o ambiente, o ladino se apodera da
história alheia e conta o final, deixando o
dono da
anedota com a boca aberta e sem ter o que
dizer.
Foi o que aconteceu, não faz muito tempo,
num
famoso boteco da W2 Sul — ou melhor, famoso
para nós, frequentadores, já que não sai nas
colunas de jornal.
A noite ainda
era juvenil, mas aquela turma
dava impressão de estar por ali desde o café
da
manhã, tamanha a animação. Cascos vazios de
cerveja já tinham enchido um engradado e já
eram
colocados com a boca para baixo, entre os
outros.
Um dos rapazes começou a contar uma piada
comprida e que era constantemente
interrompida
por comentários diversos por outro
sujeito.

Havia interessados na narrativa, até
porque
é
uma piada sobre advogados, e os causídicos
são
fregueses habituais do estabelecimento. O
chato
não sossegava, queria ser o centro das
atenções
e diante de tantos ‘psius’ pedindo silêncio,
disparou:

— Que tatu? Não vi nenhum tatu por
aqui!

E se contorcia como o Orlando Furioso,
da
ópera de Vivaldi. Ele havia contado o fim da
piada
numa cena que só pode ser explicada pelo
alto
nível etílico daquela mesa, quando o tempo
fechou
como uma final com Grenal. Até hoje tem
gente
querendo saber como a piada chegaria ao
tatu,
mas tem medo de perguntar.

Adaptado de:
http://df.divirtasemais.com.br/app/noticia/m
aisleitor/ 2019/12/06/noticia-mais-
leitor,162065/cronica-o-cortador-
depiada.shtml. Acesso em: 10 dez. 2019.

Em relação às ideias contidas no texto,
assinale a alternativa correta.

A Uma piada só tem graça se não for
interrompida por alguém.
B O pior cortador de piadas é aquele que, além
de interromper, quer continuar contando a
piada do contador.
C A piada é como um conto: tem emoção do
início ao fim.
D O contador conciso de piadas é aquele que
exagera na interpretação.
Texto associado
Conto: uma morada

O sonho de uma velha
senhora

Juremir Machado da
Silva

Contava-se que ela havia passado a vida lutando
contra homens, doenças e intempéries. Dizia-se
que criara sozinha onze filhos e enfrentara oito
tormentas de derrubar casas e deixar muita gente
desesperada. Durante muito tempo, teve um
apelido: a flagelada. Era alta, magérrima e de
olhos muito negros, duas bolas escuras que
pareciam cintilar à beira do abismo. Era uma
mulher de fala forte, voz rouca, agravada pelo
cigarro, não menos de trinta por dia, do palheiro ao
sem filtro, o que viesse, qualquer coisa que lhe
permitisse sair do ar.
– Meu silêncio diz tudo – era o máximo que
concedia a algum vizinho.
Apesar do seu jeito esquisito, era amada por
quase todos. Gostava-se da sua coragem, da sua
franqueza, alguns até falavam de uma ternura
escondida por trás dos gestos de fera indomável.
Muitos nem sabiam mais o nome dela. Era
chamada simplesmente de “a velha”. Contava-se
que prometera a si mesma viver cem anos para
debochar das agruras da vida. Servira durante
décadas de parteira, de benzedeira e até de
responsável pela ordem nas redondezas. Impunha
respeito, resolvia litígios, dava bons conselhos,
sentia pena das jovens apaixonadas. Com o
passar do tempo, ficou mais impaciente e menos
propensa a ouvir longas e repetitivas histórias.
(...)

Destino – Não se contava, porém, quando havia
perdido tudo. Ficara sem casa. Vivia na cidade
num quarto emprestado por um velho conhecido.
Quando se imaginava que estava esgotada, que
só esperava o fim para se livrar dos tormentos, ela
se revelou mais firme do que nunca. Queria viver.
Mais do que isso, deu para dizer a quem quisesse
ouvir que tinha um sonho.
– Um sonho?
– Sim, a Velha tem um
sonho.
A notícia espalhou-se como um acontecimento
improvável. Com o que podia sonhar a velha?
Contava-se que homens faziam apostas enquanto
jogavam cartas ou discutiam futebol, mulheres
especulavam sobre esse sonho, crianças se
interessavam pelo assunto, todos queriam entender como podia aquela mulher árida ter um
sonho, algo que a maioria, mais nova, já não tinha.
Por alguns meses, pois
ela fazia do seu novo
silêncio um trunfo, foi cercada de atenção na
busca obsessiva por uma resposta. Teriam até lhe
oferecido dinheiro para revelar o seu sonho num
programa de rádio.
Conta-se que numa tarde mormacenta de janeiro,
com um temporal prestes a desabar, ela disse com
a sua voz grave um pouco mais vibrante para
quem pudesse ouvir (nunca se soube quem foi o
primeiro saber):
– Quero voltar para casa.
Que casa era
essa? A velha queria retornar ao
lugar onde havia nascido, um lugar perdido na
campanha onde vicejava solitário um cinamomo.
Sonhava em ter uma casinha ali para viver os seus
últimos anos. Desse ponto de observação, podia-se
enxergar um enorme vazio. A comunidade,
sempre tão dispersa, mobilizou-se como se, de
repente, tudo fizesse sentido. O dono da terra
aceitou que lhe erguessem um rancho no meio do
nada para que ela fincasse suas raízes por alguns
anos. Um mutirão foi organizado para erguer a
morada. Até políticos contribuíram para a compra
do modesto material – tábuas, pregos, latas –
necessário à construção da residência. Num final
de semana de fevereiro, a casa foi erguida.
Um rancho de duas peças: quarto
e cozinha. Uma
latrina a dez passos do cinamomo. Caía a noite
quando tudo ficou pronto. Os homens
embarcaram na carroceria de um velho caminhão
e partiram. Ela ficou só no lugar que escolhera
para viver depois de tantas lutas encarniçadas
com o destino. Sentia-se vitoriosa. A lua cheia
banhou os campos naquela noite. Ela passeou até
onde as velhas pernas lhe permitiram. Deitou-se
no catre com colchão novo. Fez questão de
manter a sua cama. Morreu ao amanhecer com o
sol faiscando na cobertura de lata reluzindo de tão
nova e duradoura.

Adaptado de:
< https://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/contouma-
morada-1.392657 >. Acesso em 26 jan. 2020.

Ao analisar o trecho “Um rancho de duas
peças: quarto e cozinha. Uma latrina a
dez passos do cinamomo.”, o qual
descreve a residência construída para a
personagem principal, é correto afirmar
que

A por mais que tivesse poucos cômodos, era
repleta de requinte e conforto.
B era muito simples, tornando a morada
inviável.
C por ser um rancho, ficava próximo a um rio.
D o banheiro ficava anexo à casa.
E era pequena e simples e o local que serviria
como banheiro ficava próximo à casa.