Texto para as questões de 1 a 19.
1 A geografia da produção global apresenta novas
determinações e novos desafios ao desenvolvimento, em
que diferentes países ou territórios conseguem, por
4 distintos motivos, aderir ao novo padrão da produção global
e apresentam, assim, resultados positivos de crescimento
industrial e econômico e de desenvolvimento
7 socioeducacional, o que leva a uma mudança estrutural.
Inserem‐se nesses grupos a China e os países e
territórios asiáticos de primeira geração — chamados
10 outrora de tigres asiáticos —, que incluem Coreia do Sul,
Cingapura, Hong Kong (região administrativa especial da
República Popular da China) e o território de Taiwan, e os
13 países de segunda geração — denominados de novos tigres
asiáticos, termo cunhado na década de 1990 —, que
incluem Indonésia, Malásia, Tailândia, Filipinas e Vietnã.
16 Embora tenham passado por forte crise econômica e
recessão em 1997, esses países se recuperaram e
apresentam, atualmente, bons desempenhos na área
19 econômica.
A China aparece como um gigante na produção
global e vem atualizando a sua matriz de produção, já sendo
22 líder em vários setores industriais, ranqueada como a
segunda maior economia do mundo, atrás apenas dos
Estados Unidos da América, e posicionada, como centro
25 dinamizador do crescimento econômico asiático, entre as
mais relevantes em termos de comércio exterior. Esse país
apresenta uma forma de desenvolvimento singular que
28 combina socialismo com economia de mercado e que
permite vislumbrar uma alternativa possível ao modelo
norte‐americano.
31 Outro exemplo de país asiático que apresenta grande
êxito é a Coreia do Sul, onde se observa a emergência de
grandes e famosas empresas dirigidas por famílias,
34 conhecidas por chaebols , entre as quais empresas líderes
dos setores automobilístico, como Hyundai e Kia, e
eletrônico, como Samsung e LG. Essas empresas utilizam‐se
37 de várias estratégias voltadas para a concorrência global,
entre elas a da imitação, e têm papel fundamental no
desenvolvimento tecnológico e na expansão de atividades
40 de pesquisa, além de serem responsáveis pelo crescimento
das indústrias têxteis, madeireiras e de cimento no país.
Entretanto, o desenvolvimento sul‐coreano está
43 ligado às formas de desenvolvimento a convite ou
associado — com acesso privilegiado aos mercados e aos
capitais das grandes potências, obtido em troca da
46 submissão a sua política externa e a sua estratégia militar
global —, que ocorrem em contextos geopolíticos
específicos. Do ponto de vista produtivo, o comando da
49 produção global permanece nos países mais desenvolvidos,
porém vão surgindo novos centros. Nesse sentido, há o
desenvolvimento do centro em um país antes considerado
52 periferia, o que demonstra como uma estratégia de
desenvolvimento com participação ativa do Estado pode
promover uma mudança estrutural.
Daniel Pereira Sampaio . Indústria e desenvolvimento no Brasil:
notas sobre o atraso dos últimos 30 anos (1980/2010). VI
Seminário Internacional sobre desenvolvimento regional.
Tema: Crises do Capitalismo, Estado e Desenvolvimento
Regional. Programa de Pós‐Graduação em Desenvolvimento
Regional, Santa Cruz do Sul, RS, Brasil, 4 a 6 de setembro de
2013, p. 6. Internet: (com adaptações).
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Texto associado
Texto para os itens de 1 a 15.
1 --------- No Brasil, no âmbito da segurança alimentar e
---- nutricional, crianças, idosos e mulheres demandam atenção
---- particular, em especial as mulheres trabalhadoras rurais e
4 --- camponesas, mais vulneráveis à pobreza e com acesso mais
---- difícil às políticas públicas.
1 --------- Pesquisas informam que a agricultura familiar
7 --- brasileira produz grande percentagem dos alimentos
---- básicos que chegam à mesa da população, e essa produção
---- certamente não existiria sem o trabalho das mulheres.
10 -------- Historicamente, o trabalho da mulher camponesa
---- não tem visibilidade e evidencia assimetrias importantes,
---- quando comparado ao trabalho masculino, as quais
13 -- reservam aos homens o reconhecimento público do
---- trabalho produtivo, mantendo obscurecido o trabalho das
---- mulheres, que se circunscreve aos domínios privados.
16 -------- Mesmo quando realiza atividades voltadas para o
---- fim produtivo da agricultura, a agricultora familiar é vista
---- como auxiliar e, normalmente, recebe menor remuneração
19 -- (ou nenhuma remuneração) por seu trabalho. As atividades
---- agrícolas por ela exercidas, como plantio e colheita da
22 -- produção para o consumo da família, ordenha de vacas,
---- produção de queijo e pão e, também, práticas orientadas
---- para a pequena escala de comercialização de produtos
---- agrícolas, são vistas como uma extensão intrínseca de suas
25 -- atribuições de mãe e esposa. Ademais, muitas dessas
---- atividades não se enquadram nas categorias do conceito de
---- trabalho aceitas e reconhecidas, formalmente, pela
28 -- sociedade, o que faz com que a jornada cotidiana das
---- mulheres no meio rural seja subestimada pela sociedade.
1 --------- A mulher camponesa é, em geral, a provedora de
31 -- alimentos da família porque os cultiva diretamente nas
---- lavouras ou nos quintais, mas também porque é dela a
---- responsabilidade pelas tarefas domésticas e o cuidado com
34 -- as crianças. Portanto as mulheres sustentam a produção
---- agroecológica familiar e garantem a segurança alimentar e
---- nutricional dos brasileiros, e é preciso reconhecer o
37 -- protagonismo feminino na agricultura familiar e camponesa.
1 --------- Em algumas regiões, como é o caso do Nordeste, a
---- participação das mulheres na produção rural é bastante
40 -- significativa. A organização e produção de alimentos
---- saudáveis por mulheres camponesas tem permitido
---- intensificar qualitativamente a luta pela soberania e pela
43 -- segurança alimentar e nutricional, por meio de diversificada
---- e saudável produção de alimentos. Entretanto, a promoção
---- da alimentação adequada e saudável requer ações
46 -- educativas associadas à prevenção e ao enfrentamento dos
---- males à saúde provocados pela má alimentação, por meio
---- da atenção nutricional no Sistema Único de Saúde (SUS) e
49 -- da regulamentação da publicidade de alimentos.
Marília M. Leão e Renato S. Maluf. A construção social de um sistema público de segurança alimentar e nutricional: a experiência brasileira . Brasília: Ação Brasileira pela Nutrição e Direitos Humanos (ABRANDH), 2012, p. 56‐57 (com adaptações).
Com relação às ideias do texto, julgue os itens de 1 a 6 .
1 --------- No Brasil, no âmbito da segurança alimentar e
---- nutricional, crianças, idosos e mulheres demandam atenção
---- particular, em especial as mulheres trabalhadoras rurais e
4 --- camponesas, mais vulneráveis à pobreza e com acesso mais
---- difícil às políticas públicas.
1 --------- Pesquisas informam que a agricultura familiar
7 --- brasileira produz grande percentagem dos alimentos
---- básicos que chegam à mesa da população, e essa produção
---- certamente não existiria sem o trabalho das mulheres.
10 -------- Historicamente, o trabalho da mulher camponesa
---- não tem visibilidade e evidencia assimetrias importantes,
---- quando comparado ao trabalho masculino, as quais
13 -- reservam aos homens o reconhecimento público do
---- trabalho produtivo, mantendo obscurecido o trabalho das
---- mulheres, que se circunscreve aos domínios privados.
16 -------- Mesmo quando realiza atividades voltadas para o
---- fim produtivo da agricultura, a agricultora familiar é vista
---- como auxiliar e, normalmente, recebe menor remuneração
19 -- (ou nenhuma remuneração) por seu trabalho. As atividades
---- agrícolas por ela exercidas, como plantio e colheita da
22 -- produção para o consumo da família, ordenha de vacas,
---- produção de queijo e pão e, também, práticas orientadas
---- para a pequena escala de comercialização de produtos
---- agrícolas, são vistas como uma extensão intrínseca de suas
25 -- atribuições de mãe e esposa. Ademais, muitas dessas
---- atividades não se enquadram nas categorias do conceito de
---- trabalho aceitas e reconhecidas, formalmente, pela
28 -- sociedade, o que faz com que a jornada cotidiana das
---- mulheres no meio rural seja subestimada pela sociedade.
1 --------- A mulher camponesa é, em geral, a provedora de
31 -- alimentos da família porque os cultiva diretamente nas
---- lavouras ou nos quintais, mas também porque é dela a
---- responsabilidade pelas tarefas domésticas e o cuidado com
34 -- as crianças. Portanto as mulheres sustentam a produção
---- agroecológica familiar e garantem a segurança alimentar e
---- nutricional dos brasileiros, e é preciso reconhecer o
37 -- protagonismo feminino na agricultura familiar e camponesa.
1 --------- Em algumas regiões, como é o caso do Nordeste, a
---- participação das mulheres na produção rural é bastante
40 -- significativa. A organização e produção de alimentos
---- saudáveis por mulheres camponesas tem permitido
---- intensificar qualitativamente a luta pela soberania e pela
43 -- segurança alimentar e nutricional, por meio de diversificada
---- e saudável produção de alimentos. Entretanto, a promoção
---- da alimentação adequada e saudável requer ações
46 -- educativas associadas à prevenção e ao enfrentamento dos
---- males à saúde provocados pela má alimentação, por meio
---- da atenção nutricional no Sistema Único de Saúde (SUS) e
49 -- da regulamentação da publicidade de alimentos.
Marília M. Leão e Renato S. Maluf. A construção social de um sistema público de segurança alimentar e nutricional: a experiência brasileira . Brasília: Ação Brasileira pela Nutrição e Direitos Humanos (ABRANDH), 2012, p. 56‐57 (com adaptações).
Com relação às ideias do texto, julgue os itens de 1 a 6 .
Conforme o texto, é gritante a invisibilidade do trabalho
da mulher camponesa no contexto da agricultura
familiar e da segurança alimentar e nutricional.
Texto associado
Texto para as questões de 1 a 10.
1 Diversas prefeituras vêm estudando e desenvolvendo novos modelos de gestão pública no Brasil, priorizando a eficácia
e a eficiência na concretização dos resultados para a sociedade.
A gestão de políticas públicas na administração municipal é um desafio cada vez mais relevante, na medida em que as
4 necessidades dos cidadãos não param de crescer e a realidade de recursos financeiros disponíveis é finitas
Existem mais de 5 mil municípios no Brasil, com diversas extensões territoriais e diferentes características
socioeconômicas.
7 Administrar as necessidades da população é uma tarefa complexa, uma vez que o principal objetivo das administrações
municipais é garantir e constantemente melhorar a qualidade de vida da população em áreas urbanas e rurais, antecipando e
assegurando o atendimento às necessidades em saúde, educação, moradias, infraestrutura, acessibilidade, segurança, entre
10 outras.
Para alcançar esse objetivo maior, o investimento em planejamento urbano é imprescindível.
O desafio nesse cenário é tomar a decisão certa para uma melhor gestão e para o aproveitamento dos recursos.
13 Nesse sentido, poder contar com uma infraestrutura de informações consistentes, precisas e atualizadas é um diferencial
crítico durante o processo de planejamento urbano.
Os diversos fenômenos e características de uma cidade, necessários a um pleno conhecimento do território e,
16 consequentemente, ao planejamento urbano, estão espacialmente distribuídos em um município.
Para que o planejamento urbano de um município seja realizado adequadamente, é necessário conhecer o território e
realizar mapeamentos temáticos, os quais se originam na consolidação de dados e bases cartográficas.
19 A estruturação de informações em bases de dados geográficos que demonstrem e elucidem o cenário urbano e ambiental
de um município, assim como informações complementares sobre a infraestrutura de educação, saúde e rede viária, potencializa
as análises na tomada de decisões em benefício público e na identificação de demandas e problemas, impactando a prestação
22 de serviços ao cidadão, a qualidade de vida e o desenvolvimento das atividades econômicas de uma cidade. As possibilidades
resultantes da estruturação de uma base cartográfica municipal e sua utilização no planejamento urbano são múltiplas e se
referem, mais comumente, ao mapeamento do uso e cobertura do solo urbano, à identificação de loteamentos irregulares, ao
25 apoio na elaboração de propostas de regularização urbanística e fundiária de bairros ou loteamentos, ao mapeamento dos
vazios urbanos, à definição de áreas para expansão urbana, à análise da infraestrutura pública existente, ao mapeamento de
áreas com ocorrências de doenças e às informações socioeconômicas e cadastro escolar, entre outras.
28 O mais interessante e desafiador no processo de estruturação de uma base cartográfica municipal é que os diversos
setores de uma prefeitura podem contribuir com as informações pertinentes à sua área de atuação, beneficiando‐se da
abordagem holística resultante e conseguindo, então, planejar mais bem suas tarefas e também mais bem atender à população.
31 Muitos gestores públicos no Brasil já chegaram à conclusão de que sem informações corretas, atualizadas e consistentes
não é possível planejar adequadamente.
A utilização de tais dados possibilita a melhor utilização dos recursos públicos e a identificação de respostas mais rápidas
34 frente às demandas da população, o que certamente poderá resultar na melhoria da qualidade de vida de um contingente cada
vez maior de cidadãos.
Internet: , artigo de Letícia Mose (com adaptações).
1 Diversas prefeituras vêm estudando e desenvolvendo novos modelos de gestão pública no Brasil, priorizando a eficácia
e a eficiência na concretização dos resultados para a sociedade.
A gestão de políticas públicas na administração municipal é um desafio cada vez mais relevante, na medida em que as
4 necessidades dos cidadãos não param de crescer e a realidade de recursos financeiros disponíveis é finitas
Existem mais de 5 mil municípios no Brasil, com diversas extensões territoriais e diferentes características
socioeconômicas.
7 Administrar as necessidades da população é uma tarefa complexa, uma vez que o principal objetivo das administrações
municipais é garantir e constantemente melhorar a qualidade de vida da população em áreas urbanas e rurais, antecipando e
assegurando o atendimento às necessidades em saúde, educação, moradias, infraestrutura, acessibilidade, segurança, entre
10 outras.
Para alcançar esse objetivo maior, o investimento em planejamento urbano é imprescindível.
O desafio nesse cenário é tomar a decisão certa para uma melhor gestão e para o aproveitamento dos recursos.
13 Nesse sentido, poder contar com uma infraestrutura de informações consistentes, precisas e atualizadas é um diferencial
crítico durante o processo de planejamento urbano.
Os diversos fenômenos e características de uma cidade, necessários a um pleno conhecimento do território e,
16 consequentemente, ao planejamento urbano, estão espacialmente distribuídos em um município.
Para que o planejamento urbano de um município seja realizado adequadamente, é necessário conhecer o território e
realizar mapeamentos temáticos, os quais se originam na consolidação de dados e bases cartográficas.
19 A estruturação de informações em bases de dados geográficos que demonstrem e elucidem o cenário urbano e ambiental
de um município, assim como informações complementares sobre a infraestrutura de educação, saúde e rede viária, potencializa
as análises na tomada de decisões em benefício público e na identificação de demandas e problemas, impactando a prestação
22 de serviços ao cidadão, a qualidade de vida e o desenvolvimento das atividades econômicas de uma cidade. As possibilidades
resultantes da estruturação de uma base cartográfica municipal e sua utilização no planejamento urbano são múltiplas e se
referem, mais comumente, ao mapeamento do uso e cobertura do solo urbano, à identificação de loteamentos irregulares, ao
25 apoio na elaboração de propostas de regularização urbanística e fundiária de bairros ou loteamentos, ao mapeamento dos
vazios urbanos, à definição de áreas para expansão urbana, à análise da infraestrutura pública existente, ao mapeamento de
áreas com ocorrências de doenças e às informações socioeconômicas e cadastro escolar, entre outras.
28 O mais interessante e desafiador no processo de estruturação de uma base cartográfica municipal é que os diversos
setores de uma prefeitura podem contribuir com as informações pertinentes à sua área de atuação, beneficiando‐se da
abordagem holística resultante e conseguindo, então, planejar mais bem suas tarefas e também mais bem atender à população.
31 Muitos gestores públicos no Brasil já chegaram à conclusão de que sem informações corretas, atualizadas e consistentes
não é possível planejar adequadamente.
A utilização de tais dados possibilita a melhor utilização dos recursos públicos e a identificação de respostas mais rápidas
34 frente às demandas da população, o que certamente poderá resultar na melhoria da qualidade de vida de um contingente cada
vez maior de cidadãos.
Internet: , artigo de Letícia Mose (com adaptações).
Assinale a alternativa correta acerca de aspectos linguísticos do texto.
Texto associado
A respeito das ideias presentes no texto, julgue os itens
de 1 a 5.
de 1 a 5.
O conteúdo inicial do terceiro parágrafo do texto ─ “Que
coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um
homem dentro em si e ver‐se a si mesmo?” ─ representa
uma junção das ideias presentes no primeiro e no
segundo parágrafo.
Texto associado
Atenção : Para responder às questões de números 1 a 6, baseie-se no texto abaixo.
[Aprendizes da alegria]
Fico comovido toda vez que ouço o finalzinho da canção que o Chico Buarque escreveu para a filha recém-nascida, dizendo ser este o seu melhor desejo: “e que você seja da alegria sempre uma aprendiz”. Haverá coisa maior que se possa desejar?
A felicidade é voltar a ser criança. As crianças sabem muito bem disto: que o propósito maior da vida é o prazer. Santo Agostinho, de ortodoxia inquestionável, também sabia disso, e dizia que as coisas da vida se dividem em duas classes: coisas para serem usadas e coisas para serem usufruídas. As coisas para serem usadas são aquelas que não são um fim em si mesmas, como uma panela, um violão, um serrote.
Bom mesmo não é a panela, mas a moqueca que se cozinha nela. Moqueca é objeto de fruição; um pouquinho de felicidade. Bom mesmo não é o violão, mas a música que se toca nele. Pois a música é alegria, objeto de fruição. E bom mesmo não é o serrote, mas a casinha de boneca que se faz com ele, e que faz os olhos da menina brilharem. Felicidade são os olhos da menina...
O objetivo do trabalho não é a simples função do que constrói: o objetivo do trabalho é o prazer do jardim que se planta, a casa que se constrói ou o livro que se escreve. Pensamos que a felicidade é coisa grande, barulhenta, talvez inalcançável... Ao contrário: é discreta, silenciosa e frágil, como uma bolha de sabão. Ela se vai muito rápido, mas deixa a lição de que se podem soprar muitas outras.
(Adaptado de: ALVES, Rubem. Tempus fugit. São Paulo: Paulus, 1990, p. 41-43, passim)
[Aprendizes da alegria]
Fico comovido toda vez que ouço o finalzinho da canção que o Chico Buarque escreveu para a filha recém-nascida, dizendo ser este o seu melhor desejo: “e que você seja da alegria sempre uma aprendiz”. Haverá coisa maior que se possa desejar?
A felicidade é voltar a ser criança. As crianças sabem muito bem disto: que o propósito maior da vida é o prazer. Santo Agostinho, de ortodoxia inquestionável, também sabia disso, e dizia que as coisas da vida se dividem em duas classes: coisas para serem usadas e coisas para serem usufruídas. As coisas para serem usadas são aquelas que não são um fim em si mesmas, como uma panela, um violão, um serrote.
Bom mesmo não é a panela, mas a moqueca que se cozinha nela. Moqueca é objeto de fruição; um pouquinho de felicidade. Bom mesmo não é o violão, mas a música que se toca nele. Pois a música é alegria, objeto de fruição. E bom mesmo não é o serrote, mas a casinha de boneca que se faz com ele, e que faz os olhos da menina brilharem. Felicidade são os olhos da menina...
O objetivo do trabalho não é a simples função do que constrói: o objetivo do trabalho é o prazer do jardim que se planta, a casa que se constrói ou o livro que se escreve. Pensamos que a felicidade é coisa grande, barulhenta, talvez inalcançável... Ao contrário: é discreta, silenciosa e frágil, como uma bolha de sabão. Ela se vai muito rápido, mas deixa a lição de que se podem soprar muitas outras.
(Adaptado de: ALVES, Rubem. Tempus fugit. São Paulo: Paulus, 1990, p. 41-43, passim)
Considerando-se o contexto, traduz-se adequadamente o sentido de um segmento do texto em:
Em relação à passagem do tempo na vida de cada um, o autor acredita que
Texto associado
Atenção : Considere o texto abaixo para responder às questões de números 1 a 6.
1 As rápidas e crescentes mudanças no setor da comunicação puseram em xeque os antigos modelos de negócios. As novas rotinas criadas a partir das plataformas digitais produziram um complexo cenário de incertezas. Vivemos um grande desafio.
2 É preciso refletir sobre a mudança de paradigmas, uma vez que a criatividade e a capacidade de inovação − rápida e de baixo custo − serão fundamentais para a sobrevivência das organizações tradicionais e para o sucesso financeiro das nativas digitais. Mas é preciso, também, que façamos uma autocrítica sobre o modo como vemos o mundo e a maneira como dialogamos com ele.
3 Antes da era digital, em quase todas as famílias existia um álbum de fotos. Lembram disso? Lá estavam as nossas lembranças, os nossos registros afetivos. Muitas vezes abríamos o álbum e a imaginação voava.
4 Agora fotografamos tudo compulsivamente. Nosso antigo álbum foi substituído pelas galerias de fotos digitais de nossos dispositivos móveis. Temos excesso de fotos, mas falta o mais importante: a memória afetiva, a curtição daqueles momentos. Pensamos que o registro do momento reforça sua lembrança, mas não é assim. Milhares de fotos são incapazes de superar a vivência de um instante. É importante guardar imagens. Porém, é mais importante viver cada momento com intensidade. As relações afetivas estão sucumbindo à coletiva solidão digital.
5 Algo análogo se dá com o consumo da informação. Navegamos freneticamente no espaço virtual. A fragmentação dos conteúdos pode transmitir certa sensação de liberdade, já que não dependemos, aparentemente, de ninguém. Somos os editores do nosso diário personalizado. Será? Não creio, sinceramente. Uma enxurrada de estímulos dispersa a inteligência. Ficamos reféns da superficialidade. Perdemos contexto e sensibilidade crítica.
(Adaptado de: DI FRANCO, Carlos Alberto. Disponível em: opiniao.estadao.com.br )
1 As rápidas e crescentes mudanças no setor da comunicação puseram em xeque os antigos modelos de negócios. As novas rotinas criadas a partir das plataformas digitais produziram um complexo cenário de incertezas. Vivemos um grande desafio.
2 É preciso refletir sobre a mudança de paradigmas, uma vez que a criatividade e a capacidade de inovação − rápida e de baixo custo − serão fundamentais para a sobrevivência das organizações tradicionais e para o sucesso financeiro das nativas digitais. Mas é preciso, também, que façamos uma autocrítica sobre o modo como vemos o mundo e a maneira como dialogamos com ele.
3 Antes da era digital, em quase todas as famílias existia um álbum de fotos. Lembram disso? Lá estavam as nossas lembranças, os nossos registros afetivos. Muitas vezes abríamos o álbum e a imaginação voava.
4 Agora fotografamos tudo compulsivamente. Nosso antigo álbum foi substituído pelas galerias de fotos digitais de nossos dispositivos móveis. Temos excesso de fotos, mas falta o mais importante: a memória afetiva, a curtição daqueles momentos. Pensamos que o registro do momento reforça sua lembrança, mas não é assim. Milhares de fotos são incapazes de superar a vivência de um instante. É importante guardar imagens. Porém, é mais importante viver cada momento com intensidade. As relações afetivas estão sucumbindo à coletiva solidão digital.
5 Algo análogo se dá com o consumo da informação. Navegamos freneticamente no espaço virtual. A fragmentação dos conteúdos pode transmitir certa sensação de liberdade, já que não dependemos, aparentemente, de ninguém. Somos os editores do nosso diário personalizado. Será? Não creio, sinceramente. Uma enxurrada de estímulos dispersa a inteligência. Ficamos reféns da superficialidade. Perdemos contexto e sensibilidade crítica.
(Adaptado de: DI FRANCO, Carlos Alberto. Disponível em: opiniao.estadao.com.br )
No contexto, exprime noção de causa o seguinte segmento:
Texto associado
Atenção : Considere o texto abaixo para responder às questões de números 12 a 15.
1 . A ideia do triunfo da democracia ficou associada à obra de Francis Fukuyama. Em controverso ensaio publicado nos anos 1980, Fukuyama afirmava que o encerramento da Guerra Fria levaria à “universalização da democracia liberal ocidental como forma definitiva de governo humano”. O triunfo da democracia, proclamou numa frase que veio a condensar o otimismo de 1989, marcaria o “fim da história”.
2. Muitos criticaram Fukuyama por sua suposta ingenuidade. Alguns alegavam que a democracia liberal estava longe de ser implementada em larga escala, porquanto muitos países se mostrariam resistentes a essa ideia importada do Ocidente. Outros afirmavam que era cedo para prever que tipo de avanço a engenhosidade humana seria capaz de conceber: talvez a democracia liberal fosse apenas o prelúdio de outras formas de governo, mais justas e esclarecidas.
3. A despeito das críticas sofridas, o pressuposto fundamental de Fukuyama se revelou de enorme influência. A maioria dos cientistas políticos acreditava que a democracia liberal permaneceria inabalável em certos redutos, ainda que o sistema não triunfasse no mundo todo. Na verdade, a maior parte dos cientistas políticos, embora evitando fazer grandes generalizações sobre o fim da história, chegou mais ou menos à mesma conclusão de Fukuyama.
4. Impressionados com a estabilidade das democracias ricas, cientistas políticos começaram a conceber a história do pós-guerra como um processo de consolidação democrática. Para sustentar uma democracia duradoura, o país devia atingir níveis altos de riqueza e educação. Tinha de construir uma sociedade civil forte e assegurar a neutralidade de instituições de Estado fundamentais. Todos esses objetivos frequentemente se revelaram fugidios. Mas a recompensa que acenava no horizonte era tão valiosa quanto perene. A consolidação democrática, segundo essa visão, era uma via de mão única.
(Adaptado de: MOUNK, Yascha. O povo contra a democracia . Trad. Cássio de Arantes Leite e Débora Landsberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, edição digital.)
1 . A ideia do triunfo da democracia ficou associada à obra de Francis Fukuyama. Em controverso ensaio publicado nos anos 1980, Fukuyama afirmava que o encerramento da Guerra Fria levaria à “universalização da democracia liberal ocidental como forma definitiva de governo humano”. O triunfo da democracia, proclamou numa frase que veio a condensar o otimismo de 1989, marcaria o “fim da história”.
2. Muitos criticaram Fukuyama por sua suposta ingenuidade. Alguns alegavam que a democracia liberal estava longe de ser implementada em larga escala, porquanto muitos países se mostrariam resistentes a essa ideia importada do Ocidente. Outros afirmavam que era cedo para prever que tipo de avanço a engenhosidade humana seria capaz de conceber: talvez a democracia liberal fosse apenas o prelúdio de outras formas de governo, mais justas e esclarecidas.
3. A despeito das críticas sofridas, o pressuposto fundamental de Fukuyama se revelou de enorme influência. A maioria dos cientistas políticos acreditava que a democracia liberal permaneceria inabalável em certos redutos, ainda que o sistema não triunfasse no mundo todo. Na verdade, a maior parte dos cientistas políticos, embora evitando fazer grandes generalizações sobre o fim da história, chegou mais ou menos à mesma conclusão de Fukuyama.
4. Impressionados com a estabilidade das democracias ricas, cientistas políticos começaram a conceber a história do pós-guerra como um processo de consolidação democrática. Para sustentar uma democracia duradoura, o país devia atingir níveis altos de riqueza e educação. Tinha de construir uma sociedade civil forte e assegurar a neutralidade de instituições de Estado fundamentais. Todos esses objetivos frequentemente se revelaram fugidios. Mas a recompensa que acenava no horizonte era tão valiosa quanto perene. A consolidação democrática, segundo essa visão, era uma via de mão única.
(Adaptado de: MOUNK, Yascha. O povo contra a democracia . Trad. Cássio de Arantes Leite e Débora Landsberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, edição digital.)
Está correta a redação do seguinte comentário:
Texto associado
Atenção: Para responder às questões de números 1 a 7, considere o texto abaixo.
O casamento, para ela, era isso: quarenta e oito anos de opressão, de humilhações, de vexames. Um verdadeiro tirano, o marido dela, um homem autoritário que lhe dava ordens sem cessar e que a ridicularizava na frente de todo o mundo: minha mulher é um desastre, proclamava, não faz nada direito.
E ela? Ela calava. Jamais protestara. Até os filhos se indignavam com aquela passividade: você não pode se deixar dominar dessa maneira, diziam, você tem de fazer alguma coisa. Ela suspirava, resignada, não dizia nada.
Mas estava, sim, resolvida a se vingar. Sua vingança seria cruel e requintada, uma vingança capaz de indenizá-la por uma vida de sofrimentos. Só faltava descobrir a maneira de fazê-lo.
A ideia lhe ocorreu quando, uma manhã, o marido perguntou se ela não vira seu cachimbo. Entre parênteses, gostava muito disso, de fumar cachimbo. Verdade que a ela o cheiro deixava tonta; mas ele pouco estava ligando. Entre a mulher e o cachimbo prefiro o cachimbo, costumava dizer, entre gargalhadas. Mas então ele tinha esquecido onde deixara o cachimbo − sinal de que a memória lhe falhava. E ela resolveu tirar proveito disso. Para quê? Para enlouquecer o marido. Exatamente: enlouquecê-lo. Era o mínimo a que podia almejar.
E aí começou o jogo. Onde está o cachimbo, perguntava ele. Ali onde você o colocou, dizia ela, em cima do televisor.
Ele ficava perplexo: eu coloquei o cachimbo em cima do televisor? E por que teria feito isso, se ali não é lugar de cachimbo? Quanto mais perturbado ele ficava, mais ela se entusiasmava. Era como uma gata brincando com um camundongo, um camundongo triste e desamparado. Você não viu o meu cachimbo? Está ali na prateleira, onde você o deixou. Eu? Eu deixei o cachimbo na prateleira? A coisa ia num crescendo, a angústia dele aumentando sempre. Ela já tinha o final planejado: um dia o cachimbo sumiria para sempre. E quando ele perguntasse ela responderia: você o jogou fora. O que seria um golpe... mortal? Mortal.
Só que ele morreu antes disso. Um ataque do coração, provavelmente. Ela chorou muito: em parte porque tinha pena dele, em parte porque não pudera consumar sua vingança. Mas aí teve uma ideia: colocar o cachimbo no caixão. Para atormentá-lo pela eternidade afora. Procurou o cachimbo, mas não o achou. Simplesmente não conseguia lembrar de onde o colocara. Ali, em alguma parte da casa, estava o maldito objeto. Só que ela não o encontrava. E isto significava que jamais teria paz. Que aquela lembrança a torturaria até a morte.
(SCLIAR, Moacir. O imaginário cotidiano. São Paulo: Global, 2002, p. 113-114)
O casamento, para ela, era isso: quarenta e oito anos de opressão, de humilhações, de vexames. Um verdadeiro tirano, o marido dela, um homem autoritário que lhe dava ordens sem cessar e que a ridicularizava na frente de todo o mundo: minha mulher é um desastre, proclamava, não faz nada direito.
E ela? Ela calava. Jamais protestara. Até os filhos se indignavam com aquela passividade: você não pode se deixar dominar dessa maneira, diziam, você tem de fazer alguma coisa. Ela suspirava, resignada, não dizia nada.
Mas estava, sim, resolvida a se vingar. Sua vingança seria cruel e requintada, uma vingança capaz de indenizá-la por uma vida de sofrimentos. Só faltava descobrir a maneira de fazê-lo.
A ideia lhe ocorreu quando, uma manhã, o marido perguntou se ela não vira seu cachimbo. Entre parênteses, gostava muito disso, de fumar cachimbo. Verdade que a ela o cheiro deixava tonta; mas ele pouco estava ligando. Entre a mulher e o cachimbo prefiro o cachimbo, costumava dizer, entre gargalhadas. Mas então ele tinha esquecido onde deixara o cachimbo − sinal de que a memória lhe falhava. E ela resolveu tirar proveito disso. Para quê? Para enlouquecer o marido. Exatamente: enlouquecê-lo. Era o mínimo a que podia almejar.
E aí começou o jogo. Onde está o cachimbo, perguntava ele. Ali onde você o colocou, dizia ela, em cima do televisor.
Ele ficava perplexo: eu coloquei o cachimbo em cima do televisor? E por que teria feito isso, se ali não é lugar de cachimbo? Quanto mais perturbado ele ficava, mais ela se entusiasmava. Era como uma gata brincando com um camundongo, um camundongo triste e desamparado. Você não viu o meu cachimbo? Está ali na prateleira, onde você o deixou. Eu? Eu deixei o cachimbo na prateleira? A coisa ia num crescendo, a angústia dele aumentando sempre. Ela já tinha o final planejado: um dia o cachimbo sumiria para sempre. E quando ele perguntasse ela responderia: você o jogou fora. O que seria um golpe... mortal? Mortal.
Só que ele morreu antes disso. Um ataque do coração, provavelmente. Ela chorou muito: em parte porque tinha pena dele, em parte porque não pudera consumar sua vingança. Mas aí teve uma ideia: colocar o cachimbo no caixão. Para atormentá-lo pela eternidade afora. Procurou o cachimbo, mas não o achou. Simplesmente não conseguia lembrar de onde o colocara. Ali, em alguma parte da casa, estava o maldito objeto. Só que ela não o encontrava. E isto significava que jamais teria paz. Que aquela lembrança a torturaria até a morte.
(SCLIAR, Moacir. O imaginário cotidiano. São Paulo: Global, 2002, p. 113-114)
Confere caráter hipotético à frase o verbo sublinhado em:
Texto associado
Para responder às questões de números 8 a 11, considere a crônica abaixo.
Quando lhe disse que um vago conhecido nosso tinha morrido, vítima de tumor no cérebro, levou as mãos à cabeça:
− Minha Santa Efigênia!
Espantei-me que o atingisse a morte de alguém tão distante de nossa convivência, mas logo ele fez sentir a causa de sua perturbação:
− É o que eu tenho, não há dúvida nenhuma: esta dor de cabeça que não passa! Estou para morrer.
Conheço-o desde menino, e sempre esteve para morrer. Não há doença que passe perto dele e não se detenha, para convencê- lo em iniludíveis sintomas de que está com os dias contados. Empresta dimensões de síndromes terríveis à mais ligeira manifestação de azia ou acidez estomacal:
− Até parece que andei comendo fogo. Estou com pirofagia crônica. Esta cólica é que é o diabo, se eu fosse mulher ainda estava explicado. Histeria gástrica. Úlcera péptica, no duro.
Certa ocasião, durante um mês seguido, tomou injeções diárias de penicilina, por sua conta e risco. A chamada dose cavalar.
− Não adiantou nada − queixa-se ele. − Para mim o médico que me operou esqueceu alguma coisa dentro de minha barriga.
Foi operado de apendicite quando ainda criança e até hoje se vangloria:
− Menino, você precisava de ver o meu apêndice: parecia uma salsicha alemã.
No que dependesse dele, já teria passado por todas as operações jamais registradas nos anais da cirurgia: “Só mesmo entrando na faca para ver o que há comigo”. Os médicos lhe asseguram que não há nada, ele sai maldizendo a medicina: “Não descobrem o que eu tenho, são uns charlatães, quem entende de mim sou eu”. O radiologista, seu amigo particular, já lhe proibiu a entrada no consultório: tirou-lhe radiografia até dos dedos do pé. E ele sempre se apalpando e fazendo caretas: “Meu fígado hoje está que nem uma esponja, encharcada de bílis. Minha vesícula está dura como um lápis, põe só a mão aqui”.
− É lápis mesmo, aí no seu bolso.
− Do lado de cá, sua besta. Não adianta, ninguém me leva a sério.
[...]
Ultimamente os amigos deram para conspirar, sentenciosos: o que ele precisa é casar. Arranjar uma mulherzinha dedicada, que cuidasse dele. “Casar, eu?” − e se abre numa gargalhada: “Vocês querem acabar de liquidar comigo?” Mas sua aversão ao casamento não pode ser tão forte assim, pois consta que de uns dias para cá está de namoro sério com uma jovem, recém-diplomada na Escola de Enfermagem Ana Néri.
(SABINO, Fernando. As melhores crônicas. Rio de Janeiro: BestBolso, 2012, p. 71-72)
Quando lhe disse que um vago conhecido nosso tinha morrido, vítima de tumor no cérebro, levou as mãos à cabeça:
− Minha Santa Efigênia!
Espantei-me que o atingisse a morte de alguém tão distante de nossa convivência, mas logo ele fez sentir a causa de sua perturbação:
− É o que eu tenho, não há dúvida nenhuma: esta dor de cabeça que não passa! Estou para morrer.
Conheço-o desde menino, e sempre esteve para morrer. Não há doença que passe perto dele e não se detenha, para convencê- lo em iniludíveis sintomas de que está com os dias contados. Empresta dimensões de síndromes terríveis à mais ligeira manifestação de azia ou acidez estomacal:
− Até parece que andei comendo fogo. Estou com pirofagia crônica. Esta cólica é que é o diabo, se eu fosse mulher ainda estava explicado. Histeria gástrica. Úlcera péptica, no duro.
Certa ocasião, durante um mês seguido, tomou injeções diárias de penicilina, por sua conta e risco. A chamada dose cavalar.
− Não adiantou nada − queixa-se ele. − Para mim o médico que me operou esqueceu alguma coisa dentro de minha barriga.
Foi operado de apendicite quando ainda criança e até hoje se vangloria:
− Menino, você precisava de ver o meu apêndice: parecia uma salsicha alemã.
No que dependesse dele, já teria passado por todas as operações jamais registradas nos anais da cirurgia: “Só mesmo entrando na faca para ver o que há comigo”. Os médicos lhe asseguram que não há nada, ele sai maldizendo a medicina: “Não descobrem o que eu tenho, são uns charlatães, quem entende de mim sou eu”. O radiologista, seu amigo particular, já lhe proibiu a entrada no consultório: tirou-lhe radiografia até dos dedos do pé. E ele sempre se apalpando e fazendo caretas: “Meu fígado hoje está que nem uma esponja, encharcada de bílis. Minha vesícula está dura como um lápis, põe só a mão aqui”.
− É lápis mesmo, aí no seu bolso.
− Do lado de cá, sua besta. Não adianta, ninguém me leva a sério.
[...]
Ultimamente os amigos deram para conspirar, sentenciosos: o que ele precisa é casar. Arranjar uma mulherzinha dedicada, que cuidasse dele. “Casar, eu?” − e se abre numa gargalhada: “Vocês querem acabar de liquidar comigo?” Mas sua aversão ao casamento não pode ser tão forte assim, pois consta que de uns dias para cá está de namoro sério com uma jovem, recém-diplomada na Escola de Enfermagem Ana Néri.
(SABINO, Fernando. As melhores crônicas. Rio de Janeiro: BestBolso, 2012, p. 71-72)