MENTIRINHAS
“É ingá”, ele diz enquanto chupa uma semente, a vagem aberta entre os dedos, e eu não consigo tirar os olhos daquele bigode desajeitado subindo e descendo, os pelos grisalhos amontoados num rosto queimado de sol. “Cê quer, Tininha?”, ele estende a mão com algumas daquelas sementes esquisitas, “não, vô, pode comer”. Ele olha divertido, como se fosse fazer piada, mas fica quieto, chupando sementes.
“Cê sabe, Tininha, cê não precisa ficar assim, né? Cê é moça nova, cê logo arruma outro rapaz”, ele fala olhando pra árvore, pra vagem, pra raiz. Nunca no meu olho. Nunca foi de jogar o olho no meu olho quando era coisa séria, só quando era de brincadeira. “Não é isso, vô. É que ele mentiu. Por que foi que ele mentiu? Por que não me falou logo que tinha esposa, que tinha filho? Por que me enrolou até agora? Dois anos, vô. Eu tava pensando em noivar. Agora não tenho mais nada.”
“É homem, Tininha”, ele fala cuspindo o caroço, como se lançasse feitiço: baba de sapo, perna de lagarto, um abracadabra brabo e viscoso. E eu aperto os dentes para não chorar de novo, mais uma vez, pra não me debulhar de lágrima imerecida. “Que que tem que é homem, vô? Só porque é homem tem que mentir? Vai me dizer que o senhor mentia pra vó?
Ele fica de olho comprido no horizonte, os dedos futucando outra vagem, como minhoquinhas na terra. “Menti pra muita gente, Tininha. Menti pros meus pais, pros professores, pros amigos, pra sua mãe... Menti pra sua vó... A vida é assim. Um monte de mentirinhas que a gente vai contando. Até pra gente mesmo”. Ele funga um pouco, limpa a testa com as costas da mão e fica quieto, o olho no ingá. Eu já menti pra caramba também, não sei por que o espanto. Minto desde criança, para não apanhar, para ganhar uma qualquer coisa a mais, dinheiro, uma bala, um dadinho de amendoim. Quem não mente?
“Cê arruma outro rapaz”, ele repete por fim, encerrando o assunto e levantando do banco de madeira mal feito. Vai arrastando um pé depois do outro na direção da cozinha e pela primeira vez na vida penso que talvez meu avô não tenha sido tão feliz quanto parecia quando contava as aventuras da juventude. O vô de repente era grande por dentro, maior do que eu nem sei. [...]
PRETTI, Thays. A mulher que ri . São Paulo: Editora Patuá, 2019.
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18 questões encontradas
A semântica estuda o sentido das
palavras, expressões, frases e unidades
maiores da comunicação verbal.
Sabendo disso, assinale a alternativa que
apresenta os fenômenos relacionados ao
emprego de vocábulos distintos, mas
semelhantes ou mesmo que possuem
igualdade de pronúncia ou de grafia entre
eles.
Assinale a alternativa que apresenta par cuja relação de antonímia está incorreta .
Texto associado
Médicos do Reino Unido recomendam cuidar de plantas para tratar depressão
Por Rafael Battaglia
Publicado em 09 set. 2019
Cuidar de uma horta, por menor que ela seja, às vezes não é tão simples. É preciso escolher o local certo, a quantidade exata de adubo, tomar cuidado para não regar demais e por aí vai. Mas (com o perdão do trocadilho) pode render bons frutos: as plantas que você cultiva no sítio, no jardim ou mesmo no seu apartamento podem ajudar no tratamento da depressão.
Recentemente, a revista Fast Company mostrou que médicos do Cornbrook Medical Practice, uma clínica médica em Manchester, no Reino Unido, começaram a sugerir a prática da jardinagem para pacientes que sofrem de depressão e ansiedade. A recomendação vem da ideia de que o contato com a natureza (mesmo que seja apenas um vaso de planta), pode fazer bem à saúde.
Na clínica Cornbrook, há um jardim que os pacientes podem frequentar e, ainda, convidar amigos e familiares para ajudar a plantar ervas como a hortelã e a erva-cidreira. O projeto é uma parceria com a ONG Sow the City (algo como “Semeie a Cidade”, em português), que trabalha em conjunto com hospitais, escolas, prefeituras e empresas para desenvolver ações como jardins comunitários, pesquisas sobre agricultura urbana, iniciativas sustentáveis, entre outras.
Ecoterapia
Trocar remédios por sementes parece uma novidade, mas a Sow the City já desenvolve projetos na área da saúde há alguns anos. É o caso do programa “Hospital Beds”, que construiu canteiros na área externa de um hospital de Manchester para pacientes com doenças mentais. O objetivo é aumentar o tempo ao ar livre deles e estimular a socialização. “Há evidências de que pessoas socialmente isoladas têm piores resultados no tratamento”, disse à Fast Company Jon Ross, diretor da ONG.
Ao realizar uma ação, a Soy the City trabalha em conjunto com os médicos para definir qual tipo de terapia será o mais adequado para o lugar. Depois, os profissionais recebem treinamento em jardinagem para que eles possam orientar os pacientes. As plantas prescritas são fáceis de cuidar.
[...] Aimee Gee, que trabalha na Mind, organização sobre saúde mental, disse ao The Guardian que os efeitos da ecoterapia vêm de uma junção de fatores: a atividade física, o convívio social e a melhora no humor que o contato próximo com a natureza oferece.
Não mora perto de um jardim comunitário? Cultivar plantas dentro de casa pode ser uma boa opção – até a Nasa já falou sobre isso. A agência espacial norte-americana financiou parte da pesquisa do cientista ambiental Bill Wolverton, cujos trabalhos mostram que as plantinhas melhoram a qualidade do ar. Se você desistiu da jardinagem depois de deixar sua suculenta morrer, talvez seja hora de dar uma segunda chance.
Disponível em: ..Acesso em: 03 out. 2019 .
Por Rafael Battaglia
Publicado em 09 set. 2019
Cuidar de uma horta, por menor que ela seja, às vezes não é tão simples. É preciso escolher o local certo, a quantidade exata de adubo, tomar cuidado para não regar demais e por aí vai. Mas (com o perdão do trocadilho) pode render bons frutos: as plantas que você cultiva no sítio, no jardim ou mesmo no seu apartamento podem ajudar no tratamento da depressão.
Recentemente, a revista Fast Company mostrou que médicos do Cornbrook Medical Practice, uma clínica médica em Manchester, no Reino Unido, começaram a sugerir a prática da jardinagem para pacientes que sofrem de depressão e ansiedade. A recomendação vem da ideia de que o contato com a natureza (mesmo que seja apenas um vaso de planta), pode fazer bem à saúde.
Na clínica Cornbrook, há um jardim que os pacientes podem frequentar e, ainda, convidar amigos e familiares para ajudar a plantar ervas como a hortelã e a erva-cidreira. O projeto é uma parceria com a ONG Sow the City (algo como “Semeie a Cidade”, em português), que trabalha em conjunto com hospitais, escolas, prefeituras e empresas para desenvolver ações como jardins comunitários, pesquisas sobre agricultura urbana, iniciativas sustentáveis, entre outras.
Ecoterapia
Trocar remédios por sementes parece uma novidade, mas a Sow the City já desenvolve projetos na área da saúde há alguns anos. É o caso do programa “Hospital Beds”, que construiu canteiros na área externa de um hospital de Manchester para pacientes com doenças mentais. O objetivo é aumentar o tempo ao ar livre deles e estimular a socialização. “Há evidências de que pessoas socialmente isoladas têm piores resultados no tratamento”, disse à Fast Company Jon Ross, diretor da ONG.
Ao realizar uma ação, a Soy the City trabalha em conjunto com os médicos para definir qual tipo de terapia será o mais adequado para o lugar. Depois, os profissionais recebem treinamento em jardinagem para que eles possam orientar os pacientes. As plantas prescritas são fáceis de cuidar.
[...] Aimee Gee, que trabalha na Mind, organização sobre saúde mental, disse ao The Guardian que os efeitos da ecoterapia vêm de uma junção de fatores: a atividade física, o convívio social e a melhora no humor que o contato próximo com a natureza oferece.
Não mora perto de um jardim comunitário? Cultivar plantas dentro de casa pode ser uma boa opção – até a Nasa já falou sobre isso. A agência espacial norte-americana financiou parte da pesquisa do cientista ambiental Bill Wolverton, cujos trabalhos mostram que as plantinhas melhoram a qualidade do ar. Se você desistiu da jardinagem depois de deixar sua suculenta morrer, talvez seja hora de dar uma segunda chance.
Disponível em: ..Acesso em: 03 out. 2019 .
Assinale a alternativa que apresenta corretamente o sentido da palavra em destaque no seguinte excerto: “[...] os pacientes podem frequentar e, ainda , convidar amigos e familiares para ajudar a plantar ervas [...]”.
Texto associado
A falta que o sono
faz
Yuri
Al'Hanati
A mente sem o sono é oca. A informação que
chega ao cérebro via buracos do crânio parece
ter menos dificuldade de chegar ao seu cerne
sem qualquer tipo de processamento. Registra-se
apenas: fio desencapado, cheiro de queimado,
madeira crepitando, fogo. A reação do sistema
a essa cadeia clara de sintomas é uma tarefa
exaustiva para a mente sem o sono. Os poréns
das críticas, os talvezes das ponderações, os
vejabens do discernimento, tudo se afoga em um
ruído branco que só ecoa dentro da cabeça de
quem não dormiu.
A escritora
australiana Anna Funder, em seu
elucidativo livrorreportagem Stasilândia, procurou
investigar, entre outros fenômenos sociais da
Alemanha Oriental, as táticas de tortura da Stasi,
a polícia secreta do país. Mais do que a privação
de comida ou de água, fisiologicamente mais
elementares, a crueldade do sistema se mostrou
na técnica da privação do sono por parte de seus
prisioneiros. Um oficial de guarda montada na cela
do investigado tinha a incumbência de acordá-lo
toda vez que ameaçasse fechar os olhos. Mais
do que a raiva da fome ou a fraqueza da sede,
somava-se a esse expediente o desespero louco
da insônia. Sim, porque a falta de sono enlouquece
em curtíssimo prazo. Neurônios que fritam diante
de uma necessidade de raciocínio um pouco
maior do que a de um símio fazem de Jack um
bobão. Inoperante e nervoso, o ser mescla suas
três instâncias freudianas em um blend perfeito
de neuroses, paranoias e, claro, a necessidade
perene de conseguir um sono prolongado. Como
quando se anda pelo mundo sem ter mais nada a
dizer sobre si mesmo além do fato de estar com
sono, para parafrasear a escritora romena. Um
reino por uma pestana.
Quando
finalmente o imperativo fisiológico se
faz presente, entretanto, não se recompõe por
inteiro. O insone que dorme é um restaurador de
cacos. Não pode aspirar à obra completa, pode
apenas transformá-la em mosaico aquebrantado,
simulacro do que já foi. Uma vida descansada, uma prosaica noite de
sono. Dormir… talvez
sonhar. Eis onde surge o obstáculo: são cinco e
meia e o sono não vem.
Disponível em:
< http://www.aescotilha.com.br/cronicas/yuri-al-hanati/a-
falta-que-
o-sono-faz/ >. Acesso em: 12 jul. 2019.
faz
Yuri
Al'Hanati
A mente sem o sono é oca. A informação que
chega ao cérebro via buracos do crânio parece
ter menos dificuldade de chegar ao seu cerne
sem qualquer tipo de processamento. Registra-se
apenas: fio desencapado, cheiro de queimado,
madeira crepitando, fogo. A reação do sistema
a essa cadeia clara de sintomas é uma tarefa
exaustiva para a mente sem o sono. Os poréns
das críticas, os talvezes das ponderações, os
vejabens do discernimento, tudo se afoga em um
ruído branco que só ecoa dentro da cabeça de
quem não dormiu.
A escritora
australiana Anna Funder, em seu
elucidativo livrorreportagem Stasilândia, procurou
investigar, entre outros fenômenos sociais da
Alemanha Oriental, as táticas de tortura da Stasi,
a polícia secreta do país. Mais do que a privação
de comida ou de água, fisiologicamente mais
elementares, a crueldade do sistema se mostrou
na técnica da privação do sono por parte de seus
prisioneiros. Um oficial de guarda montada na cela
do investigado tinha a incumbência de acordá-lo
toda vez que ameaçasse fechar os olhos. Mais
do que a raiva da fome ou a fraqueza da sede,
somava-se a esse expediente o desespero louco
da insônia. Sim, porque a falta de sono enlouquece
em curtíssimo prazo. Neurônios que fritam diante
de uma necessidade de raciocínio um pouco
maior do que a de um símio fazem de Jack um
bobão. Inoperante e nervoso, o ser mescla suas
três instâncias freudianas em um blend perfeito
de neuroses, paranoias e, claro, a necessidade
perene de conseguir um sono prolongado. Como
quando se anda pelo mundo sem ter mais nada a
dizer sobre si mesmo além do fato de estar com
sono, para parafrasear a escritora romena. Um
reino por uma pestana.
Quando
finalmente o imperativo fisiológico se
faz presente, entretanto, não se recompõe por
inteiro. O insone que dorme é um restaurador de
cacos. Não pode aspirar à obra completa, pode
apenas transformá-la em mosaico aquebrantado,
simulacro do que já foi. Uma vida descansada, uma prosaica noite de
sono. Dormir… talvez
sonhar. Eis onde surge o obstáculo: são cinco e
meia e o sono não vem.
Disponível em:
< http://www.aescotilha.com.br/cronicas/yuri-al-hanati/a-
falta-que-
o-sono-faz/ >. Acesso em: 12 jul. 2019.
Assinale a alternativa que apresenta
o significado da palavra destacada no
trecho “Uma vida descansada, uma
prosaica noite de sono.”, considerando
o contexto em que se insere no texto.
Texto associado
Texto CB1A1-I
1 Escrita, secreta e submetida, para construir as suas
provas, a regras rigorosas, a investigação penal é uma
máquina que pode produzir a verdade na ausência do réu.
4 E, por isso mesmo, esse procedimento tende necessariamente
para a confissão, embora em direito estrito não a exija.
Por duas razões: em primeiro lugar, porque constitui uma
7 prova tão forte que não há necessidade de acrescentar outras,
nem de entrar na difícil e duvidosa combinatória dos indícios;
a confissão, desde que seja devidamente feita, quase
10 exime o acusador de fornecer outras provas (em todo o caso,
as mais difíceis); em segundo, a única maneira para
que esse procedimento perca toda a sua autoridade unívoca
13 e para que se torne uma vitória efetivamente obtida sobre
o acusado, a única maneira para que a verdade exerça todo
o seu poder, é que o criminoso assuma o seu próprio
16 crime e assine aquilo que foi sábia e obscuramente
construído pela investigação.
No interior do crime reconstituído por escrito,
19 o criminoso confesso desempenha o papel de verdade viva.
Ato do sujeito criminoso, responsável e falante, a confissão
é a peça complementar de uma investigação escrita e secreta.
22 Daí a importância que todo processo de tipo inquisitorial
atribui à confissão.
Por um lado, tenta-se fazê-la entrar no cálculo geral
25 das provas, como se fosse apenas mais uma: não é a evidentia
rei ; tal como a mais forte das provas, não pode por si só
implicar a condenação e tem de ser acompanhada por indícios
28 anexos e presunções, pois já houve acusados que se declararam
culpados de crimes que não cometeram; se não tiver em sua
posse mais do que a confissão regular do culpado, o juiz deverá
31 então fazer investigações complementares. Mas, por outro lado,
a confissão triunfa sobre quaisquer outras provas. Até certo
ponto, transcende-as; elemento no cálculo da verdade, a
34 confissão é também o ato pelo qual o réu aceita a acusação e
reconhece os seus bons fundamentos; transforma uma
investigação feita sem a sua participação em uma afirmação
37 voluntária.
Michel Foucault. Vigiar e punir – nascimento da prisão.
Trad. Pedro Elói Duarte. Ed. 70: 2013 (com adaptações).
A respeito de aspectos linguísticos e semânticos do texto CB1A1-I, julgue os itens a seguir.
1 Escrita, secreta e submetida, para construir as suas
provas, a regras rigorosas, a investigação penal é uma
máquina que pode produzir a verdade na ausência do réu.
4 E, por isso mesmo, esse procedimento tende necessariamente
para a confissão, embora em direito estrito não a exija.
Por duas razões: em primeiro lugar, porque constitui uma
7 prova tão forte que não há necessidade de acrescentar outras,
nem de entrar na difícil e duvidosa combinatória dos indícios;
a confissão, desde que seja devidamente feita, quase
10 exime o acusador de fornecer outras provas (em todo o caso,
as mais difíceis); em segundo, a única maneira para
que esse procedimento perca toda a sua autoridade unívoca
13 e para que se torne uma vitória efetivamente obtida sobre
o acusado, a única maneira para que a verdade exerça todo
o seu poder, é que o criminoso assuma o seu próprio
16 crime e assine aquilo que foi sábia e obscuramente
construído pela investigação.
No interior do crime reconstituído por escrito,
19 o criminoso confesso desempenha o papel de verdade viva.
Ato do sujeito criminoso, responsável e falante, a confissão
é a peça complementar de uma investigação escrita e secreta.
22 Daí a importância que todo processo de tipo inquisitorial
atribui à confissão.
Por um lado, tenta-se fazê-la entrar no cálculo geral
25 das provas, como se fosse apenas mais uma: não é a evidentia
rei ; tal como a mais forte das provas, não pode por si só
implicar a condenação e tem de ser acompanhada por indícios
28 anexos e presunções, pois já houve acusados que se declararam
culpados de crimes que não cometeram; se não tiver em sua
posse mais do que a confissão regular do culpado, o juiz deverá
31 então fazer investigações complementares. Mas, por outro lado,
a confissão triunfa sobre quaisquer outras provas. Até certo
ponto, transcende-as; elemento no cálculo da verdade, a
34 confissão é também o ato pelo qual o réu aceita a acusação e
reconhece os seus bons fundamentos; transforma uma
investigação feita sem a sua participação em uma afirmação
37 voluntária.
Michel Foucault. Vigiar e punir – nascimento da prisão.
Trad. Pedro Elói Duarte. Ed. 70: 2013 (com adaptações).
A respeito de aspectos linguísticos e semânticos do texto CB1A1-I, julgue os itens a seguir.
A palavra “Daí” (l.22) faz referência ao trecho “No interior do crime reconstituído por escrito” (l.18).
Texto associado
Para responder às questões 1 e 2 , leia o texto abaixo.
Drummond, o poeta-farmacêutico que amava as pessoas, faria 110 anos, hoje
Data: 31/10/2012
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, o farmacêutico que foi, também, um dos maiores poetas da língua portuguesa, faria 114 anos em 2016. Mineiro de Itabira, Drummond foi uma das pedras fundamentais da moderna literatura brasileira. Nascido a 31 de outubro de 1902, vindo de uma família de fazendeiros, estudou em Belo Horizonte e em Nova Friburgo (RJ). De novo em Belo Horizonte, começou a carreira de escritor, como colaborador do “Diário de Minas”, que aglutinava os adeptos locais do incipiente movimento Modernista Mineiro.
Em 1925, formou-se em Farmácia, em Ouro Preto . CDA (era assim que os editores os chamavam) foi o orador de sua turma de formandos. Em 1934, ele se transferiu para o Rio de Janeiro, onde ingressou no serviço público. Foi Chefe de Gabinete de Gustavo Capanema, Ministro da Educação , até 1945. Em seguida, foi trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e se aposentou em 1962. A partir de 1954, Drummond escreveu memoráveis crônicas no “Correio da Manhã” e no “Jornal do Brasil”.
O poeta deixou livros essenciais para a literatura brasileira, como “Alguma Poesia” (1930), ”Sentimento do Mundo” (1940), “A Rosa do Povo” (1945), “Claro Enigma” (1951), “José e Outros” (1967) e “Corpo” (1984).
Um dia, Aluísio Pimenta, também mineiro, farmacêutico e intelectual, Ministro da Cultura do Governo Sarney, ex-professor na Universidade de Londres e ex-reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, num bate-papo com o poeta-maior do Brasil, perguntou: “Carlos, porque você se formou em Farmácia, já que abraçou a carreira literária?”.
Drummond respondeu-lhe: “Porque eu gosto das pessoas”.
Farmacêuticos, em todos os tempos e lugares, trazem mesmo lições de amor às pessoas. Aliás, para o farmacêutico, amar não é apenas o verbo transitivo direto que se aprende a conjugar nas escolas. Amar é ação. A ação de servir, a qualquer hora de qualquer dia e em qualquer lugar. É cuidar, é promover a saúde, é salvar vidas.
http://www.cff.org.br/noticia.php?id=906. Acesso em 21/04/2016
Drummond, o poeta-farmacêutico que amava as pessoas, faria 110 anos, hoje
Data: 31/10/2012
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, o farmacêutico que foi, também, um dos maiores poetas da língua portuguesa, faria 114 anos em 2016. Mineiro de Itabira, Drummond foi uma das pedras fundamentais da moderna literatura brasileira. Nascido a 31 de outubro de 1902, vindo de uma família de fazendeiros, estudou em Belo Horizonte e em Nova Friburgo (RJ). De novo em Belo Horizonte, começou a carreira de escritor, como colaborador do “Diário de Minas”, que aglutinava os adeptos locais do incipiente movimento Modernista Mineiro.
Em 1925, formou-se em Farmácia, em Ouro Preto . CDA (era assim que os editores os chamavam) foi o orador de sua turma de formandos. Em 1934, ele se transferiu para o Rio de Janeiro, onde ingressou no serviço público. Foi Chefe de Gabinete de Gustavo Capanema, Ministro da Educação , até 1945. Em seguida, foi trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e se aposentou em 1962. A partir de 1954, Drummond escreveu memoráveis crônicas no “Correio da Manhã” e no “Jornal do Brasil”.
O poeta deixou livros essenciais para a literatura brasileira, como “Alguma Poesia” (1930), ”Sentimento do Mundo” (1940), “A Rosa do Povo” (1945), “Claro Enigma” (1951), “José e Outros” (1967) e “Corpo” (1984).
Um dia, Aluísio Pimenta, também mineiro, farmacêutico e intelectual, Ministro da Cultura do Governo Sarney, ex-professor na Universidade de Londres e ex-reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, num bate-papo com o poeta-maior do Brasil, perguntou: “Carlos, porque você se formou em Farmácia, já que abraçou a carreira literária?”.
Drummond respondeu-lhe: “Porque eu gosto das pessoas”.
Farmacêuticos, em todos os tempos e lugares, trazem mesmo lições de amor às pessoas. Aliás, para o farmacêutico, amar não é apenas o verbo transitivo direto que se aprende a conjugar nas escolas. Amar é ação. A ação de servir, a qualquer hora de qualquer dia e em qualquer lugar. É cuidar, é promover a saúde, é salvar vidas.
http://www.cff.org.br/noticia.php?id=906. Acesso em 21/04/2016
Assinale a alternativa que traz o correto significado de "incipiente", no final do primeiro parágrafo.
Texto associado
O suor e a lágrima
Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa,
quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora
o mais quente deste verão que inaugura o século e
o milênio. Cheguei ao Santos Dumont, o vôo estava
5 atrasado, decidi engraxar os sapatos. Pelo menos
aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem
nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.
Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica,
de coro de abadia pobre, que também pode parecer
10 o trono de um rei desolado de um reino desolante.
O engraxate era gordo e estava com calor — o
que me pareceu óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo
italiano, fabricante ilustre, os Rosseti. Uso-o pouco,
em parte para poupá-lo, em parte porque quando
15 posso estou sempre de tênis.
Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e co-
meçou seu ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe
a testa e a calva. Pegou aquele paninho que dá brilho
final nos sapatos e com ele enxugou o próprio suor,
20 que era abundante.
Com o mesmo pano, executou com maestria
aqueles movimentos rápidos em torno da biqueira,
mas a todo instante o usava para enxugar-se — caso
contrário, o suor inundaria o meu cromo italiano.
25 E foi assim que a testa e a calva do valente filho
do povo ficaram manchadas de graxa e o meu sapato
adquiriu um brilho de espelho à custa do suor alheio.
Nunca tive sapatos tão brilhantes, tão dignamente
suados.
30 Na hora de pagar, alegando não ter nota menor,
deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espanta-
do, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o
que eu viesse a precisar nos restos dos meus dias.
Saí daquela cadeira com um baita sentimento
35 de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão
sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do
povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapa-
tos e tive vergonha daquele brilho humano, salgado
como lágrima.
CONY, C. H. In: NESTROVSKI, A. (Org.). Figuras do Brasil –
80 autores em 80 anos de Folha. São Paulo: Publifolha. 2001.
p. 319.
Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa,
quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora
o mais quente deste verão que inaugura o século e
o milênio. Cheguei ao Santos Dumont, o vôo estava
5 atrasado, decidi engraxar os sapatos. Pelo menos
aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem
nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.
Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica,
de coro de abadia pobre, que também pode parecer
10 o trono de um rei desolado de um reino desolante.
O engraxate era gordo e estava com calor — o
que me pareceu óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo
italiano, fabricante ilustre, os Rosseti. Uso-o pouco,
em parte para poupá-lo, em parte porque quando
15 posso estou sempre de tênis.
Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e co-
meçou seu ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe
a testa e a calva. Pegou aquele paninho que dá brilho
final nos sapatos e com ele enxugou o próprio suor,
20 que era abundante.
Com o mesmo pano, executou com maestria
aqueles movimentos rápidos em torno da biqueira,
mas a todo instante o usava para enxugar-se — caso
contrário, o suor inundaria o meu cromo italiano.
25 E foi assim que a testa e a calva do valente filho
do povo ficaram manchadas de graxa e o meu sapato
adquiriu um brilho de espelho à custa do suor alheio.
Nunca tive sapatos tão brilhantes, tão dignamente
suados.
30 Na hora de pagar, alegando não ter nota menor,
deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espanta-
do, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o
que eu viesse a precisar nos restos dos meus dias.
Saí daquela cadeira com um baita sentimento
35 de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão
sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do
povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapa-
tos e tive vergonha daquele brilho humano, salgado
como lágrima.
CONY, C. H. In: NESTROVSKI, A. (Org.). Figuras do Brasil –
80 autores em 80 anos de Folha. São Paulo: Publifolha. 2001.
p. 319.