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Texto associado
Texto I

Banhos de mar

Meu pai acreditava que todos os anos se devia
fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão fe-
liz quanto naquelas temporadas de banhos em Olin-
da, Recife.
5 Meu pai também acreditava que o banho de mar
salutar era o tomado antes de o sol nascer. Como ex-
plicar o que eu sentia de presente prodigioso em sair
de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que
nos levaria para Olinda ainda na escuridão?
10 De noite eu ia dormir, mas o coração se manti-
nha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu
acordava às quatro e pouco da madrugada e desper-
tava o resto da família. Nós nos vestíamos depressa
e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que
15 assim devia ser: em jejum.
Saímos para uma rua toda escura, recebendo
a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde.
Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se apro-
ximando. Eu me sentava bem na ponta do banco, e
minha felicidade começava. Atravessar a cidade es
cura me dava algo que jamais tive de novo. No bon
de mesmo o tempo começava a clarear, e uma luz
trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o
mundo.
25 Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a
passagem pelo campo com os bichos-de-pé: “Olhe,
um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de
deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras
da minha família, que de vez em quando me dizia
30 rindo: “Olhe, um porco de verdade.”
Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem
diária me tornava uma criança completa de alegria. E
me serviu como promessa de felicidade para o futu-
ro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me
35 agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa
ilha encantada que era a viagem diária.
LISPECTOR, C. A Descoberta do Mundo . São Paulo: Rocco,
1999, p. 175. Adaptado

No Texto I, a narradora diz que “uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo” (l. 22-24).
Essa imagem apresenta indícios de que

A o sol estava encoberto, talvez por nuvens, talvez por folhagens.
B uma inversão entre o sol e sua luz justifica essa visão subjetiva.
C a luz parecia reproduzir as mesmas emoções da menina.
D o dia amanhecia mais tarde do que o costumeiro.
E os banhos de mar aconteciam em qualquer lugar.
Texto associado
Texto III

Quando eu for bem velhinho — continuação 2

O tempo do carnaval era obrigatório. A despeito
de todas as mudanças, ele continua sendo a pausa
que dá sentido e razão ao tempo como uma majes-
tade humana. Este imperador sem rivais que diz que
5 passa quando, de fato, quem passa somos nós.
Uma lenda escandinava, traduzida à luz da
análise pelo sábio das línguas e costumes euro-
-europeus Georges Dumézil, conta a história de um
camponês que, sem querer, libertou o diabo de um
10 caixote que ele transportava para um padre na sua
carroça. Livre e solto, o diabo — que está sempre
fazendo alguma coisa — começou a surrar o seu
involuntário libertador, perguntando ansiosamente:
“O que devo fazer?” O camponês mandou que ele
15 construísse uma ponte de pedra e, em instantes, ela
ficou pronta. E logo o diabo perguntou novamente:
“O que devo fazer?” O camponês mandou que o
diabo juntasse todos os excrementos de cavalo do
reino da Dinamarca e, num instante, a tarefa estava
20 cumprida. Aterrorizado porque ia apanhar novamen-
te, o camponês teve a feliz ideia de mandar que o
diabo recuperasse o tempo. Sabendo que o tempo
era precioso, o diabo saiu em sua busca, mas não
conseguia alcançá-lo. Trouxe dele pedaços, mas
25 não o tempo inteiro como ordenara o camponês.
Não tendo observado a tarefa, o diabo voltou para
a caixa.
O tempo como potência impossível de ser apa-
nhada foi brilhantemente descrito por Frei Antônio
30 das Chagas num poema escrito nos mil seiscentos
e tanto:
Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou do meu tempo dar-lhe conta.
Mas como dar, sem tempo, tanta conta
35 _____ Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?
Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado e não fiz conta,
Não quis, sobrando tempo, fazer conta.
Hoje, qu ero acertar conta, e não há tempo.
40 _____ Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!
Pois aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar de prestar conta,
45 _____ Chorarão, como eu, o não ter tempo...
Afinal, somos nós que brincamos o carnaval ou
é o carnaval que brinca conosco o tempo todo?

DAMATTA, R. O Globo, Rio de Janeiro, 10 fev. 2016. Primeiro Caderno, p. 13. Adaptado.

A lenda escandinava mencionada no 2° parágrafo do Texto III fala de um camponês que, acidentalmente, libertou o diabo de um caixote. O autor apresenta essa história, contando as ações dos dois personagens.

A passagem que revela que o diabo “está sempre fazendo alguma coisa” ( ℓ . 11-12) deve ser interpretada como um(a)

A inserção opinativa do próprio autor na história original.
B confissão supersticiosa do autor diante dos temas religiosos.
C crítica do camponês às crendices populares escandinavas.
D comentário do padre ao camponês antes de transportar a carroça.
E lembrete feito pelo tradutor da história sobre os encantos das lendas.
Texto associado
Texto III

Quando eu for bem velhinho — continuação 2

O tempo do carnaval era obrigatório. A despeito
de todas as mudanças, ele continua sendo a pausa
que dá sentido e razão ao tempo como uma majes-
tade humana. Este imperador sem rivais que diz que
5 passa quando, de fato, quem passa somos nós.
Uma lenda escandinava, traduzida à luz da
análise pelo sábio das línguas e costumes euro-
-europeus Georges Dumézil, conta a história de um
camponês que, sem querer, libertou o diabo de um
10 caixote que ele transportava para um padre na sua
carroça. Livre e solto, o diabo — que está sempre
fazendo alguma coisa — começou a surrar o seu
involuntário libertador, perguntando ansiosamente:
“O que devo fazer?” O camponês mandou que ele
15 construísse uma ponte de pedra e, em instantes, ela
ficou pronta. E logo o diabo perguntou novamente:
“O que devo fazer?” O camponês mandou que o
diabo juntasse todos os excrementos de cavalo do
reino da Dinamarca e, num instante, a tarefa estava
20 cumprida. Aterrorizado porque ia apanhar novamen-
te, o camponês teve a feliz ideia de mandar que o
diabo recuperasse o tempo. Sabendo que o tempo
era precioso, o diabo saiu em sua busca, mas não
conseguia alcançá-lo. Trouxe dele pedaços, mas
25 não o tempo inteiro como ordenara o camponês.
Não tendo observado a tarefa, o diabo voltou para
a caixa.
O tempo como potência impossível de ser apa-
nhada foi brilhantemente descrito por Frei Antônio
30 das Chagas num poema escrito nos mil seiscentos
e tanto:
Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou do meu tempo dar-lhe conta.
Mas como dar, sem tempo, tanta conta
35 _____ Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?
Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado e não fiz conta,
Não quis, sobrando tempo, fazer conta.
Hoje, qu ero acertar conta, e não há tempo.
40 _____ Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!
Pois aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar de prestar conta,
45 _____ Chorarão, como eu, o não ter tempo...
Afinal, somos nós que brincamos o carnaval ou
é o carnaval que brinca conosco o tempo todo?

DAMATTA, R. O Globo, Rio de Janeiro, 10 fev. 2016. Primeiro Caderno, p. 13. Adaptado.

No trecho “E logo o diabo perguntou novamente: O que devo fazer?” ( ℓ . 16-17), a palavra logo tem o mesmo valor que se vê em:

A A chuva está caindo há muito tempo, logo o chão já está molhado.
B A chuva começou a cair agora, o chão estará logo molhado.
C Dias de chuvas e transbordamentos; logo, desabrigados na certa.
D As chuvas devem cair logo mais, segundo a meteorologia oficial.
E A chuva de logo deve ser forte, pois os moradores já estão em ação.
Texto associado
Entrevista com Frédéric Martel

Uma guerra mundial pelo conteúdo dos meios
de comunicação se trava pela conquista do público
dentro e fora dos países criadores. Batalhas se
desenrolam pelo domínio da notícia, do formato de
5 programas de TV e pela exibição de filmes, vídeos,
música, livros. Nesse processo, um gigante domina:
os Estados Unidos, com sua capacidade de produzir
cultura de massas que agrada ao grande público
em todos os continentes. Essa penetração cultural
10 americana, que muitos críticos preferem chamar de
imperialismo, leva os filmes, a música e a televisão
americana para o mundo. Sua arma é o inverso
da alta cultura, da contracultura, da subcultura, de
nichos especializados. Visa o público em geral,
15 cultura de massa, de milhões. Tornou-se a cultura
internacional dominante, principal, a chamada
mainstream, conforme o título do livro escrito pelo
sociólogo francês Frédéric Martel. Para escrever
Mainst ream , ele percorreu 30 países durante cinco
20 anos, entrevistou mais de 1.200 pessoas em todas
as capitais do entertainment , analisou a ação dos
protagonistas, a lógica dos grupos e acompanhou a
circulação internacional de conteúdo.
É um imperialismo diferente daquele político e
militar. É uma espécie de imperialismo cultural que
é bem recebido no mundo. A esse respeito, afirma
Frédéric Martel: “É o que basicamente chamamos
de soft power. Soft power significa influenciar as
pessoas com coisas legais. Você é amigável,
30 não é contundente. Você tem as forças armadas,
tem a diplomacia tradicional e grandes empresas
econômicas, que formam o hard power , e tem o soft
power, que influencia as pessoas através de filmes,
de livros, da internet e de valores.”
35 “A língua é importante. Eu acredito — e essa é
a principal conclusão do meu livro — que, no mundo
em que estamos entrando, que reúne globalização e
digitalização, a língua é importante. E eu acredito que
a batalha, a luta, mesmo a guerra de conteúdo, será
40 uma batalha a respeito da cultura nacional. Você pode
ouvir Lady Gaga, gostar de Avatar e ler O Código
Da Vinci, mas, no final das contas, a maior parte
da cultura que você consome e ama geralmente é
nacional, local, regional, e não global. A cultura global
45 é apenas uma pequena parte do que você gosta.
Então, no final das contas, os americanos são os
únicos a poder prover essa cultura dominante global,
mas essa cultura dominante global continua pequena.
Por quê? Porque a língua é muito importante,
50 porque a identidade é muito importante. Quando
você compra um livro de não ficção, quer saber o
que acontece aqui, no seu país, e não na Coreia do
Sul, por exemplo. Na Coreia do Sul você quer ouvir
K-pop, que é a música pop coreana, e ver um drama
55 coreano, e não ouvir uma música brasileira. Portanto,
nós estamos em um mundo cada vez mais global,
mas, ao mesmo tempo, a cultura ainda é e será muito
nacional. Para resumir as coisas, eu diria que todos
temos duas culturas: a nossa e a americana.”
60 “Nós, como europeus, temos o mesmo tipo de
relação que você, como brasileiro, tem com os EUA.
Nós os amamos e odiamos. É uma complicada relação
de amor e ódio. Nós esperamos que eles sejam
como são; nós queremos criticá-los, mas, ao mesmo
65 tempo, nós protestamos contra eles com tênis Nike
nos pés. Nós trabalhamos para ser um pouco como
eles, muito embora nós queiramos manter nossa
identidade e cultura. E, a propósito, a boa notícia é
que o debate no mundo hoje e no futuro não será
70 entre nós — brasileiros, franceses, europeus — e os
americanos. Será entre todos nós. O que eu quero
dizer é que hoje não há apenas dois povos: nós e os
EUA. O mundo é muito mais complicado, com países
emergentes, que serão fundamentais nesse novo
75 jogo.”
“Para resumir, afirma Martel, eu diria que os
EUA continuarão sendo peça importante da guerra
de conteúdo, podemos dizer, nos próximos anos e
décadas. Eu não acredito e não compro a ideia do
80 declínio da cultura americana. Eu acho que eles são
fortes e continuarão sendo fortes. Mas eles não são os
únicos no jogo. Agora temos os países emergentes,
que estão emergindo não só demográfica e
economicamente, como pensávamos. E eu fui um
85 dos primeiros a mostrar que eles estão emergindo
com sua cultura, sua mídia e com a internet.”
“Nesse mundo, a internet pode ser uma peça
importante. O Brasil, por exemplo, vai crescer com
a internet, com certeza. Criam-se ferramentas
90 inovadoras de alfabetização, por exemplo, em
comunidades, em favelas, em lugares onde os
moradores não têm acesso a uma livraria ou
biblioteca. Mas eles terão acesso à internet em lan
houses , por exemplo, e mesmo no telefone. Hoje,
95 todo mundo tem um telefone celular barato. Mesmo
na África, todos têm celulares com funções básicas.
Em cinco anos, todos terão um smartphone, pois os
preços estão caindo muito. Assim, todos poderão
acessar a internet pelo smartphone. Se você tem
100 acesso à internet, pode baixar livros, acessar a rede,
pode ver filmes e daí por diante.”
“A questão não é se essa tecnologia é boa,
conclui Martel. A questão é: ela não será boa ou
ruim sozinha. Ela será o que você, o povo, o governo
100 deste país e nós formos capazes de fazer com ela,
criando uma boa internet e uma maneira melhor de
ter acesso ao conteúdo através da internet.”

BOCCANERA, S. Entrevista concedida pelo sociólogo Frédéric Martel, Programa Milênio, Globo News . Disponível em: . Acesso em: 10 nov. 2015. Adaptado.

As palavras podem ter diferentes sentidos, dependendo do contexto em que são empregadas.

No trecho “ Batalhas se desenrolam pelo domínio da notícia, do formato de programas de TV e pela exibição de filmes, vídeos, música, livros.” (. l 3-6), a palavra destacada foi utilizada no sentido de

A jogo
B discussão
C disputa
D esforço
E troca de golpes
Órgão: Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Cargo: Técnico em Regulação de Petróleo e Derivados, Álcool Combustível e Gás Natural - Área: Geral Prova: CESGRANRIO - ANP - Técnico em Regulação de Petróleo e Derivados, Álcool Combustível e Gás Natural - Área: Geral - 2016
Texto associado
Texto I

“Quando eu for bem velhinho /

Bem velhinho, que [precise] usar um bastão /
Eu hei de ter um netinho, ah... / Pra me levar pela
mão / No carnaval, eu não fico em casa / Eu não
5 fico, eu vou brincar! / Nem que eu vá me sentar na
calçada / Pra ver meu bloco passar...”
Lupicínio Rodrigues — autor de elaboradas
e densas canções de amor — surpreende escre-
vendo, em 1936, ano em que nasci, essa singela e
10 comovente marchinha carnavalesca. Uma raridade
que constrói e, ao mesmo tempo, define um carna-
val. O carnaval como um ritual — como um encon-
tro necessário, como as festas religiosas e algumas
cerimônias cívicas — e não como uma brincadeira
15 da qual se escolhe, livre e individualmente, parti-
cipar. O carnaval faz parte do calendário religioso
católico romano que, mesmo no Brasil republicano,
burguês e pós-moderno, continua a ser observa-
do. Hoje, ao lado da Semana Santa e da Semana
20 da Pátria, ele talvez seja mais um feriado festivo
do que uma ocasião que coage o nosso comporta-
mento, obrigando à participação, como deixa claro
a marchinha de Lupicínio.
Ouvi a música pelo piano de mamãe quando
25 era um menino: supunha-me o netinho que levava o avô
pela mão até o seu bloco de carnaval. Hoje, sendo
um avô feliz e orgulhoso de cinco lindas moças e
três belos rapazes, tenho nada mais nada menos
do que 16 mãos dispostas a, amorosamente, me
30 conduzirem ao meu bloco que passa todo ano pela
minha calçada.
Leitor querido: se você tiver alguma recorda-
ção dessa música, ouça-a. Se você não souber
manipular algum aparelho eletrônico, seu netinho
35 o ajuda. E ouvindo a simplicidade dessa tocante
canção, você vai ler esta crônica como eu a escre-
vo: com os olhos molhados dos antigos carnavais.

DAMATTA, R. O Globo, Rio de Janeiro, 10 fev. 2016. Primeiro Caderno, p. 13. Adaptado.

Considere-se a seguinte passagem do Texto I: “o netinho que levava o avô pela mão até o seu bloco de carnaval” ( ℓ . 25-26).

Quem é o netinho mencionado nessa passagem?

A O autor da crônica.
B O compositor da música.
C O personagem da canção.
D A criança da imaginação do autor.
E Qualquer criança que tenha um avô.
Texto associado
Texto II

Quando eu for bem velhinho — continuação 1

Era um menino quando meu coração gravou
essa música. Hoje, neste carnaval que acabou de
passar pela minha calçada, eu, velhinho, apenas vi
o bloco passar. Algo me diz que cada um de nós
5 pertence a muitos blocos. Uns nos são impostos;
outros, como os de carnaval, são escolhidos. Dir-
se-ia que os blocos impostos são opressivos e
obrigatórios — como a casa, os irmãos, a escola e
até mesmo o país, a etnia e o gênero; ao passo que
10 os escolhidos, como o bloco de carnaval figurado
nesta música, são marcados por liberdade. Há
uma verdade nisso, mas há também a ilusão que
o carnaval brasileiro representa muito bem. É que
15 o escolhido e o obrigatório também se confundem,
pois muito do que é “escolhido” é determinado por um
“obrigatório” vivido com mais ou menos intensidade.
Há quem transforme escolha em obrigação e quem
faça o justo oposto, diz o meu lado cinzento como
esta quarta-feira, outrora santificada — hoje parte
de um longo e fantasioso feriado.

DAMATTA, R. O Globo, Rio de Janeiro, 10 fev. 2016. Primeiro Caderno, p. 13. Adaptado.

O autor do Texto II, ao dizer que “cada um de nós pertence a muitos blocos” ( ℓ . 4-5), está-se referindo

A apenas aos blocos carnavalescos.
B aos blocos carnavalescos do passado.
C aos blocos carnavalescos de que ele participou ao longo da vida.
D sobretudo aos blocos carnavalescos, mas não apenas a eles.
E indiscriminadamente a todos os blocos, carnavalescos ou não.
Texto associado
Texto I

Banhos de mar

Meu pai acreditava que todos os anos se devia
fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão fe-
liz quanto naquelas temporadas de banhos em Olin-
da, Recife.
5 Meu pai também acreditava que o banho de mar
salutar era o tomado antes de o sol nascer. Como ex-
plicar o que eu sentia de presente prodigioso em sair
de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que
nos levaria para Olinda ainda na escuridão?
10 De noite eu ia dormir, mas o coração se manti-
nha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu
acordava às quatro e pouco da madrugada e desper-
tava o resto da família. Nós nos vestíamos depressa
e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que
15 assim devia ser: em jejum.
Saímos para uma rua toda escura, recebendo
a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde.
Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se apro-
ximando. Eu me sentava bem na ponta do banco, e
minha felicidade começava. Atravessar a cidade es
cura me dava algo que jamais tive de novo. No bon
de mesmo o tempo começava a clarear, e uma luz
trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o
mundo.
25 Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a
passagem pelo campo com os bichos-de-pé: “Olhe,
um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de
deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras
da minha família, que de vez em quando me dizia
30 rindo: “Olhe, um porco de verdade.”
Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem
diária me tornava uma criança completa de alegria. E
me serviu como promessa de felicidade para o futu-
ro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me
35 agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa
ilha encantada que era a viagem diária.
LISPECTOR, C. A Descoberta do Mundo . São Paulo: Rocco,
1999, p. 175. Adaptado

A leitura atenta do Texto I permite sustentar que a narradora

A pertencia a uma família que era possuidora de uma casa em Olinda, Recife.
B tinha uma alegria enorme quando chegavam as temporadas de banho de mar com a família.
C sofria com uma infância infeliz e só se alegrava quando via um porco de verdade.
D levantava mais cedo do que toda a família para tomar café e ir logo para a praia.
E ficava assustada com o pouco movimento das ruas quase desertas.
Texto associado
Entrevista com Frédéric Martel

Uma guerra mundial pelo conteúdo dos meios
de comunicação se trava pela conquista do público
dentro e fora dos países criadores. Batalhas se
desenrolam pelo domínio da notícia, do formato de
5 programas de TV e pela exibição de filmes, vídeos,
música, livros. Nesse processo, um gigante domina:
os Estados Unidos, com sua capacidade de produzir
cultura de massas que agrada ao grande público
em todos os continentes. Essa penetração cultural
10 americana, que muitos críticos preferem chamar de
imperialismo, leva os filmes, a música e a televisão
americana para o mundo. Sua arma é o inverso
da alta cultura, da contracultura, da subcultura, de
nichos especializados. Visa o público em geral,
15 cultura de massa, de milhões. Tornou-se a cultura
internacional dominante, principal, a chamada
mainstream, conforme o título do livro escrito pelo
sociólogo francês Frédéric Martel. Para escrever
Mainst ream , ele percorreu 30 países durante cinco
20 anos, entrevistou mais de 1.200 pessoas em todas
as capitais do entertainment , analisou a ação dos
protagonistas, a lógica dos grupos e acompanhou a
circulação internacional de conteúdo.
É um imperialismo diferente daquele político e
militar. É uma espécie de imperialismo cultural que
é bem recebido no mundo. A esse respeito, afirma
Frédéric Martel: “É o que basicamente chamamos
de soft power. Soft power significa influenciar as
pessoas com coisas legais. Você é amigável,
30 não é contundente. Você tem as forças armadas,
tem a diplomacia tradicional e grandes empresas
econômicas, que formam o hard power , e tem o soft
power, que influencia as pessoas através de filmes,
de livros, da internet e de valores.”
35 “A língua é importante. Eu acredito — e essa é
a principal conclusão do meu livro — que, no mundo
em que estamos entrando, que reúne globalização e
digitalização, a língua é importante. E eu acredito que
a batalha, a luta, mesmo a guerra de conteúdo, será
40 uma batalha a respeito da cultura nacional. Você pode
ouvir Lady Gaga, gostar de Avatar e ler O Código
Da Vinci, mas, no final das contas, a maior parte
da cultura que você consome e ama geralmente é
nacional, local, regional, e não global. A cultura global
45 é apenas uma pequena parte do que você gosta.
Então, no final das contas, os americanos são os
únicos a poder prover essa cultura dominante global,
mas essa cultura dominante global continua pequena.
Por quê? Porque a língua é muito importante,
50 porque a identidade é muito importante. Quando
você compra um livro de não ficção, quer saber o
que acontece aqui, no seu país, e não na Coreia do
Sul, por exemplo. Na Coreia do Sul você quer ouvir
K-pop, que é a música pop coreana, e ver um drama
55 coreano, e não ouvir uma música brasileira. Portanto,
nós estamos em um mundo cada vez mais global,
mas, ao mesmo tempo, a cultura ainda é e será muito
nacional. Para resumir as coisas, eu diria que todos
temos duas culturas: a nossa e a americana.”
60 “Nós, como europeus, temos o mesmo tipo de
relação que você, como brasileiro, tem com os EUA.
Nós os amamos e odiamos. É uma complicada relação
de amor e ódio. Nós esperamos que eles sejam
como são; nós queremos criticá-los, mas, ao mesmo
65 tempo, nós protestamos contra eles com tênis Nike
nos pés. Nós trabalhamos para ser um pouco como
eles, muito embora nós queiramos manter nossa
identidade e cultura. E, a propósito, a boa notícia é
que o debate no mundo hoje e no futuro não será
70 entre nós — brasileiros, franceses, europeus — e os
americanos. Será entre todos nós. O que eu quero
dizer é que hoje não há apenas dois povos: nós e os
EUA. O mundo é muito mais complicado, com países
emergentes, que serão fundamentais nesse novo
75 jogo.”
“Para resumir, afirma Martel, eu diria que os
EUA continuarão sendo peça importante da guerra
de conteúdo, podemos dizer, nos próximos anos e
décadas. Eu não acredito e não compro a ideia do
80 declínio da cultura americana. Eu acho que eles são
fortes e continuarão sendo fortes. Mas eles não são os
únicos no jogo. Agora temos os países emergentes,
que estão emergindo não só demográfica e
economicamente, como pensávamos. E eu fui um
85 dos primeiros a mostrar que eles estão emergindo
com sua cultura, sua mídia e com a internet.”
“Nesse mundo, a internet pode ser uma peça
importante. O Brasil, por exemplo, vai crescer com
a internet, com certeza. Criam-se ferramentas
90 inovadoras de alfabetização, por exemplo, em
comunidades, em favelas, em lugares onde os
moradores não têm acesso a uma livraria ou
biblioteca. Mas eles terão acesso à internet em lan
houses , por exemplo, e mesmo no telefone. Hoje,
95 todo mundo tem um telefone celular barato. Mesmo
na África, todos têm celulares com funções básicas.
Em cinco anos, todos terão um smartphone, pois os
preços estão caindo muito. Assim, todos poderão
acessar a internet pelo smartphone. Se você tem
100 acesso à internet, pode baixar livros, acessar a rede,
pode ver filmes e daí por diante.”
“A questão não é se essa tecnologia é boa,
conclui Martel. A questão é: ela não será boa ou
ruim sozinha. Ela será o que você, o povo, o governo
100 deste país e nós formos capazes de fazer com ela,
criando uma boa internet e uma maneira melhor de
ter acesso ao conteúdo através da internet.”

BOCCANERA, S. Entrevista concedida pelo sociólogo Frédéric Martel, Programa Milênio, Globo News . Disponível em: . Acesso em: 10 nov. 2015. Adaptado.

Esse texto tem caráter argumentativo, porque o sociólogo entrevistado apresenta sua opinião a respeito da guerra mundial pelo conteúdo dos meios de comunicação.

Para defender a tese de que, apesar da globalização, as culturas nacionais vão sobreviver, ele utiliza como argumento a ideia de que

A a maior parte da cultura que as pessoas consomem e com a qual se identificam geralmente é local, regional, e não global.
B o imperialismo cultural, ao contrário do imperialismo político e militar, domina as pessoas sem que elas o percebam.
C a penetração cultural americana tem origem na produção de cultura de massas que agrada ao grande público.
D as pessoas criticam os americanos, mas, ao mesmo tempo, utilizam seus produtos, como o tênis Nike nos pés.
E o mundo hoje é muito mais complicado, com países emergentes que serão fundamentais nas novas relações de poder.
Órgão: Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Cargo: Técnico em Regulação de Petróleo e Derivados, Álcool Combustível e Gás Natural - Área: Geral Prova: CESGRANRIO - ANP - Técnico em Regulação de Petróleo e Derivados, Álcool Combustível e Gás Natural - Área: Geral - 2016
Texto associado
Texto I

Banhos de mar

Meu pai acreditava que todos os anos se devia
fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão fe-
liz quanto naquelas temporadas de banhos em Olin-
da, Recife.
5 Meu pai também acreditava que o banho de mar
salutar era o tomado antes de o sol nascer. Como ex-
plicar o que eu sentia de presente prodigioso em sair
de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que
nos levaria para Olinda ainda na escuridão?
10 De noite eu ia dormir, mas o coração se manti-
nha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu
acordava às quatro e pouco da madrugada e desper-
tava o resto da família. Nós nos vestíamos depressa
e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que
15 assim devia ser: em jejum.
Saímos para uma rua toda escura, recebendo
a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde.
Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se apro-
ximando. Eu me sentava bem na ponta do banco, e
minha felicidade começava. Atravessar a cidade es
cura me dava algo que jamais tive de novo. No bon
de mesmo o tempo começava a clarear, e uma luz
trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o
mundo.
25 Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a
passagem pelo campo com os bichos-de-pé: “Olhe,
um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de
deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras
da minha família, que de vez em quando me dizia
30 rindo: “Olhe, um porco de verdade.”
Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem
diária me tornava uma criança completa de alegria. E
me serviu como promessa de felicidade para o futu-
ro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me
35 agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa
ilha encantada que era a viagem diária.
LISPECTOR, C. A Descoberta do Mundo . São Paulo: Rocco,
1999, p. 175. Adaptado

Que fragmento do Texto I comprova a valorização especial que a narradora dava a esse momento de sua infância?

A “Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes de o sol nascer” (l. 5-6)
B “Nós nos vestíamos depressa e saíamos em jejum” (l. 13-14)
C “No bonde mesmo o tempo começava a clarear” (l. 21-22)
D “a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras da minha família” (l. 27-29)
E “Eu me agarrava [...] a essa ilha encantada que era a viagem diária” (l. 34-36)
Texto associado
Texto 2

Disponível em: .

De acordo com o texto 2, assinale a alternativa correta.

A Mafalda não está disposta a esperar tanto tempo para que a planta nasça.
B Mafalda está atenta à explicação, mas isso não é o suficiente para que a menina entenda como nascem algumas plantas.
C O homem não estranha a atitude de Mafalda, pois ela representa as crianças atuais que não se interessam pela natureza.
D O humor do texto dá-se devido ao fato de Mafalda não estar atenta ao que o homem explica.
E O humor do texto dá-se devido à quebra de expectativa da Mafalda, visto que ela não queria saber, com antecedência, o que aconteceria com a semente.