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Texto associado
Texto 42A2-III
Sou só um sertanejo, nessas altas ideias navego mal. Sou muito pobre coitado. Inveja minha pura é de uns conforme o senhor, com toda leitura e suma doutoração. Não é que eu esteja analfabeto. Soletrei, anos e meio, meante cartilha, memória e palmatória. Tive mestre, Mestre Lucas, no Curralinho, decorei gramática, as operações, regra de três, até geografia e estudo pátrio. Em folhas grandes de papel, com capricho tracei bonitos mapas. Ah, não é por falar: mas, desde o começo, me achavam sofismado de ladino. E que eu merecia de ir para cursar latim, em Aula Régia – que também diziam. Tempo saudoso! Inda hoje, apreceio um bom livro, despaçado. Na fazenda O Limãozinho, de um meu amigo Vito Soziano, se assina desse almanaque grosso, de logogrifos e charadas e outras divididas matérias, todo ano vem. Em tanto, ponho primazia é na leitura proveitosa, vida de santo, virtudes e exemplos – missionário esperto engambelando os índios, ou São Francisco de Assis, Santo Antônio, São Geraldo... Eu gosto muito de moral. Raciocinar, exortar os outros para o bom caminho, aconselhar a justo. Minha mulher, que o senhor sabe, zela por mim: muito reza. Ela é uma abençoável. Compadre meu Quelemém sempre diz que eu posso aquietar meu temer de consciência, que sendo bem-assistido, terríveis bons-espíritos me protegem. Ipe! Com gosto... Como é de são efeito, ajudo com meu querer acreditar. Mas nem sempre posso. O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Diverjo de todo o mundo... quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.
Guimarães Rosa. Grande sertão: veredas. In: João Guimarães Rosa / Ficção completa, vol. II.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 12-4.

Na terceira fase do Modernismo brasileiro, Guimarães Rosa apontou novos rumos para a literatura brasileira, por meio de uma perspectiva renovada para o regionalismo. Considerando a leitura do texto 42A2-III e aspectos da literatura brasileira, assinale a opção correta a respeito dessa perspectiva.

A Em oposição à proposta dos regionalistas da segunda fase modernista, os escritores da chamada “Geração de 45” passaram a se preocupar menos com as questões políticas, ideológicas e culturais e privilegiaram a questão estética, a exemplo da recriação poética da linguagem sertaneja na narrativa de Guimarães Rosa.
B Guimarães Rosa renovou a linguagem da prosa regionalista ao explorar recursos da expressão poética na narrativa e ao aprofundar a caracterização do homem sertanejo, dando-lhe preocupações existenciais e metafísicas.
C O sertanejo, na obra de Guimarães Rosa, é caracterizado como um ser que luta pela sobrevivência diante das forças da natureza árida do sertão e da violência de um meio que oprime o trabalhador rural pobre e inculto.
D O espaço das narrativas de Guimarães Rosa sempre é rural e habitado por sertanejos pobres, mas dotados de elevada intelectualidade, que se revela por meio de uma linguagem literária elevada e abstrata, repleta de sugestões musicais.
E O regionalismo em Guimarães Rosa tem como ponto de partida o contraste entre cidade e campo, ou entre homem culto da cidade e homem iletrado do campo; e tem como finalidade sondar a diversidade regional da realidade brasileira.
Texto associado
Texto 42A1-I
A sofisticação das línguas indígenas
Você provavelmente já encontrou pelas redes sociais o famigerado #sqn, aquele jeito telegráfico de dizer que tal coisa é muito legal, “só que não”. Agora, imagine uma língua totalmente diferente do português que deu um jeito de incorporar um conceito parecido na própria estrutura das palavras, criando o que os linguistas apelidaram de “sufixo frustrativo” — um #sqn que faz parte da própria história do idioma.
É exatamente assim que funciona no kotiria, um idioma da família linguística tukano que é falado por indígenas do Alto Rio Negro, na fronteira do Brasil com a Colômbia. Para exprimir a função “frustrativa”, o kotiria usa um sufixo com a forma -ma. Você quer dizer que foi até um lugar sem conseguir o que queria indo até lá? Basta pegar o verbo “ir”, que é wa’a em kotiria, e acrescentar o sufixo: wa’ama, “ir em vão”. Dá para encontrar detalhes surpreendentes como esse em todas as mais de 150 línguas indígenas ainda faladas no território brasileiro. Elas são apenas a ponta do iceberg do que um dia existiu por aqui.
Calcula-se que pelo menos 80% dos idiomas que eram falados no Brasil desapareceram de 1.500 para cá. Mesmo assim, o país continua abrigando uma das maiores diversidades linguísticas do planeta. A propósito, esqueça aquele negócio de “tupi-guarani”, expressão que é meio como dizer “português-espanhol”. O tupi é uma língua; o guarani é outra — e, aliás, existem diversas formas de guarani, nem sempre inteligíveis entre si.
O único emprego correto do substantivo composto “tupi-guarani” é o que serve para designar uma subfamília linguística com esse nome, a qual engloba dezenas de idiomas. Entre seus membros ainda usados no cotidiano estão o nheengatu, os vários “guaranis”, o tapirapé e o guajá. Uma subfamília, como você pode imaginar, faz parte de uma família linguística mais ampla — nesse caso, a família tupi propriamente dita.
Existem pelo menos outras três grandes famílias linguísticas no país, diversas outras famílias de porte mais modesto e, de quebra, várias línguas consideradas isoladas. É mais ou menos o mesmo caso do basco, falado na Espanha e na França — com a diferença de que o basco é um dos únicos casos desse tipo no território europeu.
Essa comparação ajuda a entender o tamanho da riqueza linguística brasileira. Com raríssimas exceções (fora o basco, temos também o finlandês e o húngaro, por exemplo), todos os falares ainda utilizados hoje na Europa fazem parte de uma única família linguística, a do indo-europeu. Pode não parecer à primeira vista, mas é praticamente certo que o alemão, o russo, o grego, o português e o lituano descendem de um único idioma pré-histórico, que hoje chamamos de protoindo-europeu.
Reinaldo José Lopes. Internet. (com adaptações).

Em relação à pontuação do texto 42A1-I, assinale a opção correta.

A O travessão empregado após a expressão “sufixo frustrativo” (primeiro parágrafo) poderia ser substituído por ponto final sem prejudicar a correção gramatical e a coesão textual.
B No segundo parágrafo, o emprego da vírgula após o vocábulo ‘frustrativa’ (segundo período) é facultativo.
C No quarto parágrafo, o ponto-final empregado após o vocábulo “guajá” (segundo período) poderia ser substituído por uma vírgula e manteria a correção gramatical e a coesão do texto.
D O emprego das vírgulas após a expressão “#sqn” (primeiro parágrafo, primeiro período) e o vocábulo “kotiria” (segundo parágrafo, primeiro período) justifica-se pela mesma regra de pontuação.
E No terceiro parágrafo, o ponto e vírgula empregado após o vocábulo “língua” (último período) poderia ser substituído por dois-pontos, uma vez que ele introduz uma explicação.
Texto associado
As abordagens da linguagem do ponto de vista filosófico, estrutural, funcional e até discursivo conservam, de alguma forma, o gesto de Saussure ao considerar na linguagem uma dualidade fundamental: língua/fala, código/mensagem, competência/performance, língua/discurso. Se contestam o objeto da linguística colocado por Saussure, nunca o fazem de uma maneira radical. Mesmo quando buscam, no objeto da linguística, a parte marginalizada por Saussure, a linguagem continua a ser concebida como uma entidade de duas faces: uma formal, constituída pelo “núcleo duro” da língua e uma outra parte por meio da qual a linguagem se relaciona com o mundo pela ação dos falantes.
Essa dualidade da linguagem foi, contudo, duramente contestada pelo filósofo soviético Bakhtin, já no final da década de 20. A oposição que Bakhtin faz a Saussure é radical, se levarmos em conta que a linguagem, para esse filósofo, não se divide em duas instâncias. A enunciação, “a verdadeira substância da língua”, é, para Bakhtin, a síntese do processo da linguagem, o conceito-chave para se entender os processos linguísticos.
Bakhtin afasta-se de Saussure ao ver a língua como algo concreto, fruto da manifestação interindividual, valorizando assim, a manifestação concreta da língua e não o sistema abstrato de formas. E essa manifestação é eminentemente social.
Segundo Bakhtin, o que de fato existe é o processo linguístico, sendo a enunciação o motor da língua: “a língua vive e evolui historicamente na comunicação verbal concreta, não no sistema linguístico abstrato das formas da língua nem no psiquismo individual dos falantes”.

Sílvia Helena Barbi Cardoso. Discurso e ensino. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica/ FALE-UFMG, 2005. p. 24-25. (com adaptações).

A partir das ideias veiculadas no texto precedente, julgue os itens que se seguem, relativos às concepções de língua, linguagem e interação.

As funções da linguagem predominantes no texto são a referencial e a metalinguística, o que se observa pelo fato de ele ser informativo e o tema nele abordado ser a própria linguagem.

C Certo
E Errado

Na visão histórico-cultural, a escola é concebida como espaço de relações sociais e humanas, por isso traz em si uma dimensão política e transformadora. Tal dimensão é manifestada quando

A a escola se posiciona de forma neutra frente à sociedade.
B a educação trata os alunos como sujeitos históricos.
C a escola reproduz a ideologia dos grupos dominantes.
D os docentes são antiéticos frente aos estudantes.
E a instituição ignora a formação integral do ser humano.
Texto associado
Texto 42A1-I
A sofisticação das línguas indígenas
Você provavelmente já encontrou pelas redes sociais o famigerado #sqn, aquele jeito telegráfico de dizer que tal coisa é muito legal, “só que não”. Agora, imagine uma língua totalmente diferente do português que deu um jeito de incorporar um conceito parecido na própria estrutura das palavras, criando o que os linguistas apelidaram de “sufixo frustrativo” — um #sqn que faz parte da própria história do idioma.
É exatamente assim que funciona no kotiria, um idioma da família linguística tukano que é falado por indígenas do Alto Rio Negro, na fronteira do Brasil com a Colômbia. Para exprimir a função “frustrativa”, o kotiria usa um sufixo com a forma -ma. Você quer dizer que foi até um lugar sem conseguir o que queria indo até lá? Basta pegar o verbo “ir”, que é wa’a em kotiria, e acrescentar o sufixo: wa’ama, “ir em vão”. Dá para encontrar detalhes surpreendentes como esse em todas as mais de 150 línguas indígenas ainda faladas no território brasileiro. Elas são apenas a ponta do iceberg do que um dia existiu por aqui.
Calcula-se que pelo menos 80% dos idiomas que eram falados no Brasil desapareceram de 1.500 para cá. Mesmo assim, o país continua abrigando uma das maiores diversidades linguísticas do planeta. A propósito, esqueça aquele negócio de “tupi-guarani”, expressão que é meio como dizer “português-espanhol”. O tupi é uma língua; o guarani é outra — e, aliás, existem diversas formas de guarani, nem sempre inteligíveis entre si.
O único emprego correto do substantivo composto “tupi-guarani” é o que serve para designar uma subfamília linguística com esse nome, a qual engloba dezenas de idiomas. Entre seus membros ainda usados no cotidiano estão o nheengatu, os vários “guaranis”, o tapirapé e o guajá. Uma subfamília, como você pode imaginar, faz parte de uma família linguística mais ampla — nesse caso, a família tupi propriamente dita.
Existem pelo menos outras três grandes famílias linguísticas no país, diversas outras famílias de porte mais modesto e, de quebra, várias línguas consideradas isoladas. É mais ou menos o mesmo caso do basco, falado na Espanha e na França — com a diferença de que o basco é um dos únicos casos desse tipo no território europeu.
Essa comparação ajuda a entender o tamanho da riqueza linguística brasileira. Com raríssimas exceções (fora o basco, temos também o finlandês e o húngaro, por exemplo), todos os falares ainda utilizados hoje na Europa fazem parte de uma única família linguística, a do indo-europeu. Pode não parecer à primeira vista, mas é praticamente certo que o alemão, o russo, o grego, o português e o lituano descendem de um único idioma pré-histórico, que hoje chamamos de protoindo-europeu.
Reinaldo José Lopes. Internet. (com adaptações).

No segundo parágrafo do texto 42A1-I, a oração “Para exprimir a função ‘frustrativa’” exprime uma

A causa.
B finalidade.
C consequência.
D condição.
E proporção.
Texto associado
As abordagens da linguagem do ponto de vista filosófico, estrutural, funcional e até discursivo conservam, de alguma forma, o gesto de Saussure ao considerar na linguagem uma dualidade fundamental: língua/fala, código/mensagem, competência/performance, língua/discurso. Se contestam o objeto da linguística colocado por Saussure, nunca o fazem de uma maneira radical. Mesmo quando buscam, no objeto da linguística, a parte marginalizada por Saussure, a linguagem continua a ser concebida como uma entidade de duas faces: uma formal, constituída pelo “núcleo duro” da língua e uma outra parte por meio da qual a linguagem se relaciona com o mundo pela ação dos falantes.
Essa dualidade da linguagem foi, contudo, duramente contestada pelo filósofo soviético Bakhtin, já no final da década de 20. A oposição que Bakhtin faz a Saussure é radical, se levarmos em conta que a linguagem, para esse filósofo, não se divide em duas instâncias. A enunciação, “a verdadeira substância da língua”, é, para Bakhtin, a síntese do processo da linguagem, o conceito-chave para se entender os processos linguísticos.
Bakhtin afasta-se de Saussure ao ver a língua como algo concreto, fruto da manifestação interindividual, valorizando assim, a manifestação concreta da língua e não o sistema abstrato de formas. E essa manifestação é eminentemente social.
Segundo Bakhtin, o que de fato existe é o processo linguístico, sendo a enunciação o motor da língua: “a língua vive e evolui historicamente na comunicação verbal concreta, não no sistema linguístico abstrato das formas da língua nem no psiquismo individual dos falantes”.

Sílvia Helena Barbi Cardoso. Discurso e ensino. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica/ FALE-UFMG, 2005. p. 24-25. (com adaptações).

A partir das ideias veiculadas no texto precedente, julgue os itens que se seguem, relativos às concepções de língua, linguagem e interação.

No texto, as afirmações de que a dualidade da linguagem foi “duramente contestada por Bakhtin” e de que a “oposição que Bakhtin faz a Saussure é radical” comprovam a intenção da autora em criticar os estudos saussurianos da linguagem.

C Certo
E Errado

No que diz respeito ao ensino de literatura proposto pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), assinale a alternativa correta.

A Tanto os PCN quanto a BNCC apresentam propostas específicas direcionadas às práticas de leitura e produção de textos literários (orais, escritos e multissemióticos) para o Ensino Fundamental e o Ensino Médio.
B Segundo os PNC, no contexto escolar, os textos literários devem ser tratados como expedientes para o ensino das boas maneiras, dos deveres do cidadão e de tópicos gramaticais, contribuindo para a formação de leitores críticos e conscientes.
C Como preconiza a BNCC, a leitura do texto literário, no Ensino Médio, deve privilegiar as biografias de autores, as características de épocas e os resumos.
D De acordo com a BNCC, no Ensino Médio, deve ser proposta a leitura de obras significativas da literatura brasileira, contextualizando sua época, suas condições de produção, circulação e recepção, ficando a critério local estabelecer ou não a abordagem do conjunto de movimentos estéticos, obras e autores.
E Ao contrário da BNCC, os PCNs apresentam uma proposta mais específica de leitura do texto literário conforme o nível escolar (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio), contemplando não apenas obras canônicas, mas também autores africanos, afrobrasileiros e indígenas, a literatura infantil e a juvenil, a cultura de massa.

Sobre a coesão textual, assinale a alternativa correta.

A Ocorre coesão sequencial por reiteração catafórica quando um componente do texto é projetado por um elemento gramatical.
B Ocorre coesão sequencial quando um elemento do texto é substituído por zero (Ø).
C Ocorre coesão sequencial por reiteração anafórica quando um componente do texto é retomado por um elemento gramatical.
D Ocorre coesão sequencial por substituição quando há repetição de itens lexicais ou uso de sinônimos no texto.
E Ocorre coesão sequencial quando uma relação de disjunção é marcada por um operador do tipo lógico.

Nos Parâmetros Curriculares Nacionais de língua portuguesa, destaca-se o hipertexto como objeto de estudos. A respeito disso, assinale a alternativa correta.

A Hipertexto é uma forma não linear de texto impresso que não estabelece a necessidade de uma leitura em ordem hierárquica.
B Hipertexto pode ser definido a partir da superioridade de sua constituição em relação aos textos produzidos em gêneros tradicionais
C Hipertexto tem como princípio fundamental de sua produção a indicação de diversos caminhos e direções no ciberespaço ativados apenas por linguagem não verbal.
D Hipertexto pode ser definido como uma forma híbrida, dinâmica e flexível de linguagem que se relaciona com interfaces semióticas.
E Hipertexto é um gênero emergente em consolidação no espaço digital, sobretudo na internet, e é o principal responsável pela variedade linguística popularmente denominada “internetês”.
Texto associado
TEXTO 1

Entrevista com Luiz Carlos Travaglia

Em torno dos PCNs, foram provocadas muitas polêmicas desde sua criação. Enquanto uns acreditam que foi um grande avanço para a educação, outros pensam o contrário. Qual o seu posicionamento diante dos Parâmetros Curriculares Nacionais?

Travaglia – Embora seja óbvio que tudo neste mundo tem aspectos positivos e negativos, não posso me furtar a um lugar-comum: para mim, os PCNs referentes ao ensino de língua tiveram a grande vantagem justamente de pôr em campo as conquistas da linguística moderna, propondo um ensino que se atenha a uma visão mais apropriada da língua [...]. O que os PCNs propõem acarreta um rompimento com certas tradições do ensino/aprendizagem de língua e força o professor a uma busca de atualização. É aquela coisa que falei do estudo constante, mesmo fora de cursos. Isto evidentemente mexe com certas condições de trabalho, ataca determinadas posições em que nos acomodamos [...] e que sem dúvida são confortáveis. Os PCNs obrigam-nos a estudar, a rever posições, a usar criatividade para fazermos algo de forma diferente e para fins que não são aqueles que sempre julgamos inarredáveis. É preciso convir que tudo isto gera inquietação, polêmica, defesas e ataques. Mas tudo isto é muito saudável para nós, enquanto professores, enquanto seres humanos, cidadãos que queremos instaurar melhores condições de existência para todos. [...]

Hoje em dia, fala-se muito em ensino de língua materna por meio do trabalho com gêneros textuais. O que o senhor pensa sobre o trabalho com os gêneros textuais nos ensinos fundamental e médio?

Travaglia – Creio que é importante por diferentes razões. A maior delas é que temos de trabalhar a competência comunicativa dos alunos e, como a comunicação se faz por textos, uma das coisas mais importantes no ensino de língua é possibilitar às pessoas que saibam produzir e compreender textos de maneira adequada a cada situação comunicativa. Ora, cada tipo de situação comunicativa estabelece um modo de interação que acaba configurando uma categoria de texto [...] adequada àquele tipo de situação. Dessa forma uma pessoa só terá uma boa competência comunicativa se for capaz de produzir e compreender textos de diferentes categorias. Cada categoria de texto possui características próprias em termos de conteúdo, estrutura e aspectos linguísticos específicos em correlação com as propriedades discursivas dessa categoria de texto. Estas configurações, sem dúvida, pertencem à gramática de cada língua. Assim sendo é preciso e conveniente estudar/trabalhar [...] estas configurações associadas a cada categoria de texto, pois o aluno precisa ter a habilidade de construir categorias de textos diversas adequadas às diferentes situações de interação comunicativa em que ele se encontra envolvido. Todavia, [...] há muitos elementos da língua cujo uso não está vinculado a categorias de textos e, assim sendo, não é possível fazer um estudo centrado apenas em gêneros textuais [...]. Já disse algumas coisas a este respeito em trabalhos meus. Infelizmente nosso espaço aqui é pouco. Mas espero que tenha ficado claro que penso que o trabalho com a língua por meio de categorias de textos é muito importante, mas não é suficiente.

Texto adaptado de: https://www.parabolablog.com.br/index.php/blogs/linguistica-aplicada-ao-ensino-de-lingua-materna

TEXTO 2

Pergunta para: Ataliba T. de Castilho

[...]

O português muda constantemente. Os maneirismos, regionalismos, gírias e outros vícios de linguagem, que são considerados como uma variedade popular, podem vir a ser aceitos como norma culta num futuro próximo?

Castilho – Regionalismos, gírias e modalidades de português não padrão ocorrem com absoluta naturalidade em qualquer língua natural. Essas manifestações devem ser incorporadas às aulas, sob a forma de debates, ao longo dos quais elas são comparadas às alternativas da língua culta. É importante conviver com naturalidade com as variedades não padrão, sem esquecer que o objetivo da escola é trazer os alunos para a língua do Estado. [...] O que é português popular hoje poderá ser português culto amanhã. Esta convicção científica, entretanto, não nos deve isentar do esforço de integrar as classes até aqui não escolarizadas na fala mais prestigiada das classes cultas. Se tratarmos com naturalidade essa característica das línguas, será mais suave a incorporação do padrão culto, sem desprezar a variedade familiar do aluno. Ele se transformará num bilíngue da própria língua, sabendo qual variedade utilizar nas diferentes situações de fala.

Texto adaptado de: https://www.parabolablog.com.br/index.php/blogs/linguistica -aplicada-ao-ensino-de-lingua-materna

Para o desenvolvimento do ensino e aprendizagem de língua materna, deve-se considerar que gramática e língua não são equivalentes, ou seja, que a língua não é constituída unicamente pela gramática, mas que se compõe por um conjunto de subsistemas integrados e interdependentes que a caracterizam enquanto uma entidade complexa. Sabendo disso, assinale a alternativa que define o componente da língua denominado léxico.

A Conjunto de palavras que constitui o vocabulário da língua.
B Conjunto de regras para construir palavras e sentenças da língua.
C Conjunto de regras e recursos que possibilitam a textualização.
D Conjunto de normas sociais de atuação em situação de interação.
E Conjunto de estratégias para criação de significados.