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Leia o texto para responder à questão. Na quinta-feira, os três [Jorge, Sebastião e Julião], que se tinham encontrado na casa Havanesa, eram introduzidos por uma rapariguita vesga, suja como um esfregão, na sala do Conselheiro. Um vasto canapé 1 de damasco amarelo ocupava a parede do fundo, tendo aos pés um tapete onde um chileno roxo caçava ao laço um búfalo cor de chocolate; por cima uma pintura tratada a tons cor de carne, e cheia de corpos nus cobertos de capacetes, representava o valente Aquiles arrastando Heitor em torno dos muros de Troia. Um piano de cauda, mudo e triste sob a sua capa de baeta 2 verde, enchia o intervalo das duas janelas. Sobre uma mesa de jogo, entre dois castiçais de prata, uma galguinha 3 de vidro transparente galopava; e o objeto em que se sentia mais o calor do uso era uma caixa de música de dezoito peças! (Eça de Queirós. O primo Basílio , 1993.) 1 canapé: espécie de sofá com encosto e braços. 2 baeta: tecido de lã ou algodão, de textura felpuda, com pelo em ambas as faces. 3 galguinha: referente à raça de cães altos, esguios e de pelagem curta.

As descrições nas passagens “suja como um esfregão” e “o objeto em que se sentia mais o calor do uso” indicam, respectivamente, que:

A a sujeira da rapariguita era intensa; o objeto mais usado no local era a caixa de música de dezoito peças.
B a rapariguita usava muito o esfregão; a caixa de música de dezoito peças eventualmente era usada no local.
C a sujeira do local decorria da preguiça da rapariguita; a caixa de música de dezoito peças era usada à exaustão.
D a rapariguita cuidava bem do local; o objeto mais desdenhado ali era a caixa de música de dezoito peças.
E a rapariguita trabalhava demais naquele local; a caixa de música de dezoito peças vivia muda como o piano.
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Leia os textos para responder à questão. Os pais dos burros Uma das coisas de que mais sinto falta nesta era de computadores é abrir o pesado dicionário em papel para procurar um termo e, no laborioso processo de localização pela ordem alfabética, ir descobrindo palavras novas. A busca por digitação é objetiva demais. Esse misto de pensamento com reminiscência me ocorreu durante a leitura de Word by Word (palavra a palavra), de Kory Stamper, um delicioso e obsessivamente bem-escrito livro sobre dicionários. Stamper, que é lexicógrafa profissional e durante vários anos atuou como editora-associada da Merriam-Webster, uma das principais casas de publicação de dicionários dos EUA, conta a história da corrente de protestos de religiosos que ela e seus colegas tiveram de enfrentar quando, numa das reedições, modificaram um dos sentidos da palavra “casamento” para comportar a união entre pessoas do mesmo sexo. Entre várias boas histórias, Word by Word dá bem a ideia do trabalho insano que é produzir um dicionário, descrevendo todas as fases do processo, da coleção de averbações à fixação da(s) pronúncia(s), passando pela elaboração da definição e pela etimologia. Word by Word , além de entreter, nos educa, contribuindo, ainda que apenas marginalmente, para que nos tornemos consulentes de dicionários um pouco mais conscientes. (Hélio Schwartsman. Folha de S.Paulo, 02.06.2019. Adaptado.) Pai de muitos Do ponto de vista da descrição lexicográfica, que é a descrição do léxico da língua, o dicionário fornece um conjunto de informações sobre cada uma das palavras que registra e sua utilidade vai muito além daquele tira-teima sobre a ortografia e/ou significado de uma palavra. Ao indicar os diferentes domínios de conhecimentos a que uma determinada palavra está relacionada, ele não apenas amplia o conhecimento semântico dessa palavra, mas também desvenda as relações de forma e conteúdo que ela estabelece com outros vocábulos. Para além das funções gramaticais, há um mundo de valores sociais e afetivos relacionados à palavra que o dicionário pode revelar a partir da análise de estilo e linguagem presentes no enunciado. Portanto, quanto mais ampla for a seleção vocabular feita por um dicionário, maior será a sua eficácia em desvendar a trajetória de uma palavra na língua. (Avram Ascot. Língua portuguesa e literatura , edição 76.)

Embora tenham um fio temático comum, os dois textos correspondem a diferentes gêneros discursivos, considerando-se suas funções comunicativas, já que têm como objetivos principais, respectivamente,

A sensibilizar e ordenar.
B entreter e criticar.
C comentar e resumir.
D opinar e informar.
E informar e emocionar.
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Leia os textos para responder à questão. Os pais dos burros Uma das coisas de que mais sinto falta nesta era de computadores é abrir o pesado dicionário em papel para procurar um termo e, no laborioso processo de localização pela ordem alfabética, ir descobrindo palavras novas. A busca por digitação é objetiva demais. Esse misto de pensamento com reminiscência me ocorreu durante a leitura de Word by Word (palavra a palavra), de Kory Stamper, um delicioso e obsessivamente bem-escrito livro sobre dicionários. Stamper, que é lexicógrafa profissional e durante vários anos atuou como editora-associada da Merriam-Webster, uma das principais casas de publicação de dicionários dos EUA, conta a história da corrente de protestos de religiosos que ela e seus colegas tiveram de enfrentar quando, numa das reedições, modificaram um dos sentidos da palavra “casamento” para comportar a união entre pessoas do mesmo sexo. Entre várias boas histórias, Word by Word dá bem a ideia do trabalho insano que é produzir um dicionário, descrevendo todas as fases do processo, da coleção de averbações à fixação da(s) pronúncia(s), passando pela elaboração da definição e pela etimologia. Word by Word , além de entreter, nos educa, contribuindo, ainda que apenas marginalmente, para que nos tornemos consulentes de dicionários um pouco mais conscientes. (Hélio Schwartsman. Folha de S.Paulo, 02.06.2019. Adaptado.) Pai de muitos Do ponto de vista da descrição lexicográfica, que é a descrição do léxico da língua, o dicionário fornece um conjunto de informações sobre cada uma das palavras que registra e sua utilidade vai muito além daquele tira-teima sobre a ortografia e/ou significado de uma palavra. Ao indicar os diferentes domínios de conhecimentos a que uma determinada palavra está relacionada, ele não apenas amplia o conhecimento semântico dessa palavra, mas também desvenda as relações de forma e conteúdo que ela estabelece com outros vocábulos. Para além das funções gramaticais, há um mundo de valores sociais e afetivos relacionados à palavra que o dicionário pode revelar a partir da análise de estilo e linguagem presentes no enunciado. Portanto, quanto mais ampla for a seleção vocabular feita por um dicionário, maior será a sua eficácia em desvendar a trajetória de uma palavra na língua. (Avram Ascot. Língua portuguesa e literatura , edição 76.)

Analisando o título que cada autor atribui a seu texto, fica evidente que

A o primeiro utiliza um dito popular para fazer uma referência bem humorada aos dicionários, e o segundo, com o uso do termo “muitos”, faz a mesma coisa.
B o primeiro sinaliza o descaso das pessoas em relação aos dicionários, e o segundo ratifica essa ideia, intensificando-a com o emprego do termo “muitos”.
C o primeiro emprega uma referência corrente sobre o valor educativo e de entretenimento dos dicionários, e o segundo o nega com a ironia contida em “muitos”.
D o primeiro recorre a uma ideia comum disseminada sobre os dicionários, e o segundo a ressignifica com o emprego do termo “muitos”.
E o primeiro cita, com certo ar de desdém, uma referência bastante disseminada sobre os dicionários, e o segundo, com o termo “muitos”, a confirma.
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Leia os textos para responder à questão. Os pais dos burros Uma das coisas de que mais sinto falta nesta era de computadores é abrir o pesado dicionário em papel para procurar um termo e, no laborioso processo de localização pela ordem alfabética, ir descobrindo palavras novas. A busca por digitação é objetiva demais. Esse misto de pensamento com reminiscência me ocorreu durante a leitura de Word by Word (palavra a palavra), de Kory Stamper, um delicioso e obsessivamente bem-escrito livro sobre dicionários. Stamper, que é lexicógrafa profissional e durante vários anos atuou como editora-associada da Merriam-Webster, uma das principais casas de publicação de dicionários dos EUA, conta a história da corrente de protestos de religiosos que ela e seus colegas tiveram de enfrentar quando, numa das reedições, modificaram um dos sentidos da palavra “casamento” para comportar a união entre pessoas do mesmo sexo. Entre várias boas histórias, Word by Word dá bem a ideia do trabalho insano que é produzir um dicionário, descrevendo todas as fases do processo, da coleção de averbações à fixação da(s) pronúncia(s), passando pela elaboração da definição e pela etimologia. Word by Word , além de entreter, nos educa, contribuindo, ainda que apenas marginalmente, para que nos tornemos consulentes de dicionários um pouco mais conscientes. (Hélio Schwartsman. Folha de S.Paulo, 02.06.2019. Adaptado.) Pai de muitos Do ponto de vista da descrição lexicográfica, que é a descrição do léxico da língua, o dicionário fornece um conjunto de informações sobre cada uma das palavras que registra e sua utilidade vai muito além daquele tira-teima sobre a ortografia e/ou significado de uma palavra. Ao indicar os diferentes domínios de conhecimentos a que uma determinada palavra está relacionada, ele não apenas amplia o conhecimento semântico dessa palavra, mas também desvenda as relações de forma e conteúdo que ela estabelece com outros vocábulos. Para além das funções gramaticais, há um mundo de valores sociais e afetivos relacionados à palavra que o dicionário pode revelar a partir da análise de estilo e linguagem presentes no enunciado. Portanto, quanto mais ampla for a seleção vocabular feita por um dicionário, maior será a sua eficácia em desvendar a trajetória de uma palavra na língua. (Avram Ascot. Língua portuguesa e literatura , edição 76.)

Observe as passagens: • “Stamper, que é lexicógrafa profissional e durante vários anos atuou como editora-associada da Merriam-Webster , uma das principais casas de publicação de dicionários dos EUA.” (Os pais dos burros) • “Do ponto de vista da descrição lexicográfica, que é a descrição do léxico da língua , o dicionário fornece um conjunto de informações.” (Pai de muitos) Na tessitura textual, as informações sublinhadas têm a função de

A comparar.
B concluir.
C sintetizar.
D corrigir.
E explicar.
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Leia o trecho inicial de um poema de Charles Baudelaire para responder à questão. Bênção Quando, por uma lei das supremas potências, O Poeta se apresenta à plateia entediada, Sua mãe, estarrecida e prenhe de insolências, Pragueja com Deus, que dela então se apieda: “Ah! tivesse eu gerado um ninho de serpentes, Em vez de amamentar esse aleijão sem graça! Maldita a noite dos prazeres mais ardentes Em que meu ventre concebeu minha desgraça! Pois que entre todas neste mundo fui eleita Para ser o desgosto de meu triste esposo, E ao fogo arremessar não posso, qual se deita Uma carta de amor, esse monstro asqueroso, Eu farei recair teu ódio que me afronta Sobre o instrumento vil de tuas maldições, E este mau ramo hei de torcer de ponta a ponta, Para que aí não vingue um só de seus botões!” ( As flores do mal, 2012.)

Na terceira estrofe, a expressão “monstro asqueroso” refere-se

A à mãe do Poeta.
B ao Poeta.
C a Deus.
D ao esposo da mãe do Poeta.
E a uma serpente.
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Leia o trecho inicial de um poema de Charles Baudelaire para responder à questão. Bênção Quando, por uma lei das supremas potências, O Poeta se apresenta à plateia entediada, Sua mãe, estarrecida e prenhe de insolências, Pragueja com Deus, que dela então se apieda: “Ah! tivesse eu gerado um ninho de serpentes, Em vez de amamentar esse aleijão sem graça! Maldita a noite dos prazeres mais ardentes Em que meu ventre concebeu minha desgraça! Pois que entre todas neste mundo fui eleita Para ser o desgosto de meu triste esposo, E ao fogo arremessar não posso, qual se deita Uma carta de amor, esse monstro asqueroso, Eu farei recair teu ódio que me afronta Sobre o instrumento vil de tuas maldições, E este mau ramo hei de torcer de ponta a ponta, Para que aí não vingue um só de seus botões!” ( As flores do mal, 2012.)

Assinale a alternativa em que a reescrita do verso mantém o seu sentido original.

A “Uma carta de amor, esse monstro asqueroso” (3ª estrofe) ?Uma carta de amor, esse monstro arrebatador.
B “O Poeta se apresenta à plateia entediada” (1ª estrofe) ?O Poeta se apresenta à plateia reticente.
C “Eu farei recair teu ódio que me afronta” (4ª estrofe) ? Eu farei recair teu ódio que me injuria.
D “Em que meu ventre concebeu minha desgraça!” (2ª estrofe) ? Em que meu ventre concebeu minha arrogância!
E “Sua mãe, estarrecida e prenhe de insolências” (1ª estrofe) ? Sua mãe, irresoluta e prenhe de insolências.
Texto associado
Leia o trecho inicial de um poema de Charles Baudelaire para responder à questão. Bênção Quando, por uma lei das supremas potências, O Poeta se apresenta à plateia entediada, Sua mãe, estarrecida e prenhe de insolências, Pragueja com Deus, que dela então se apieda: “Ah! tivesse eu gerado um ninho de serpentes, Em vez de amamentar esse aleijão sem graça! Maldita a noite dos prazeres mais ardentes Em que meu ventre concebeu minha desgraça! Pois que entre todas neste mundo fui eleita Para ser o desgosto de meu triste esposo, E ao fogo arremessar não posso, qual se deita Uma carta de amor, esse monstro asqueroso, Eu farei recair teu ódio que me afronta Sobre o instrumento vil de tuas maldições, E este mau ramo hei de torcer de ponta a ponta, Para que aí não vingue um só de seus botões!” ( As flores do mal, 2012.)

No contexto em que se inserem, os trechos “por uma lei das supremas potências” (1ª estrofe), “Pois que entre todas neste mundo fui eleita” (3ª estrofe) e “Para ser o desgosto de meu triste esposo” (3ª estrofe) expressam, respectivamente, sentido de

A causa, consequência, causa.
B finalidade, causa, finalidade.
C consequência, causa, causa.
D causa, explicação, finalidade.
E consequência, adição, finalidade.
Texto associado
Leia o texto para responder à questão. Na quinta-feira, os três [Jorge, Sebastião e Julião], que se tinham encontrado na casa Havanesa, eram introduzidos por uma rapariguita vesga, suja como um esfregão, na sala do Conselheiro. Um vasto canapé 1 de damasco amarelo ocupava a parede do fundo, tendo aos pés um tapete onde um chileno roxo caçava ao laço um búfalo cor de chocolate; por cima uma pintura tratada a tons cor de carne, e cheia de corpos nus cobertos de capacetes, representava o valente Aquiles arrastando Heitor em torno dos muros de Troia. Um piano de cauda, mudo e triste sob a sua capa de baeta 2 verde, enchia o intervalo das duas janelas. Sobre uma mesa de jogo, entre dois castiçais de prata, uma galguinha 3 de vidro transparente galopava; e o objeto em que se sentia mais o calor do uso era uma caixa de música de dezoito peças! (Eça de Queirós. O primo Basílio , 1993.) 1 canapé: espécie de sofá com encosto e braços. 2 baeta: tecido de lã ou algodão, de textura felpuda, com pelo em ambas as faces. 3 galguinha: referente à raça de cães altos, esguios e de pelagem curta.

No romance O primo Basílio , Eça de Queirós tece críticas à sociedade de Lisboa. No trecho, isso fica evidente com a descrição feita da sala do Conselheiro, a qual sugere

A um ambiente simples, porém arranjado com bom gosto.
B um mal-estar decorrente de uma decoração lúgubre do local.
C a arrumação minuciosa do local oposta à descrição da serviçal.
D o refinado senso estético e o gosto artístico do anfitrião.
E o mau gosto pelo exotismo na combinação das cores das peças.
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Leia o texto para responder à questão. 15 DE JULHO DE 1955 Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos generos alimenticios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar. Eu não tinha um tostão para comprar pão. Então eu lavei 3 litros e troquei com o Arnaldo. Ele ficou com os litros e deu-me pão. Fui receber o dinheiro do papel. Recebi 65 cruzeiros. Comprei 20 de carne, 1 quilo de toucinho e 1 quilo de açucar e seis cruzeiros de queijo. E o dinheiro acabou-se. Passei o dia indisposta. Percebi que estava resfriada. A noite o peito doia-me. Comecei tussir. Resolvi não sair a noite para catar papel. Procurei meu filho João José. Ele estava na rua Felisberto de Carvalho, perto do mercadinho. O onibus atirou um garoto na calçada e a turba afluiu-se. Ele estava no nucleo. Dei-lhe uns tapas e em cinco minutos ele chegou em casa. Ablui as crianças, aleitei-as e ablui-me e aleitei-me. Esperei até as 11 horas, um certo alguem. Ele não veio. Tomei um melhoral e deitei-me novamente. Quando despertei o astro rei deslisava no espaço. A minha filha Vera Eunice dizia: — Vai buscar agua mamãe! (Carolina Maria de Jesus. Quarto de despejo — diário de uma favelada , 1993.)

A ideia contida na frase “Atualmente somos escravos do custo de vida” (1º parágrafo) é comprovada no trecho:

A “E o dinheiro acabou-se.” (2º parágrafo)
B “Ele ficou com os litros e deu-me pão.” (2º parágrafo)
C “Fui receber o dinheiro do papel.” (2º parágrafo)
D “Resolvi não sair a noite para catar papel.” (3º parágrafo)
E “Recebi 65 cruzeiros.” (2º parágrafo)
Texto associado
Leia o texto para responder à questão. 15 DE JULHO DE 1955 Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos generos alimenticios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar. Eu não tinha um tostão para comprar pão. Então eu lavei 3 litros e troquei com o Arnaldo. Ele ficou com os litros e deu-me pão. Fui receber o dinheiro do papel. Recebi 65 cruzeiros. Comprei 20 de carne, 1 quilo de toucinho e 1 quilo de açucar e seis cruzeiros de queijo. E o dinheiro acabou-se. Passei o dia indisposta. Percebi que estava resfriada. A noite o peito doia-me. Comecei tussir. Resolvi não sair a noite para catar papel. Procurei meu filho João José. Ele estava na rua Felisberto de Carvalho, perto do mercadinho. O onibus atirou um garoto na calçada e a turba afluiu-se. Ele estava no nucleo. Dei-lhe uns tapas e em cinco minutos ele chegou em casa. Ablui as crianças, aleitei-as e ablui-me e aleitei-me. Esperei até as 11 horas, um certo alguem. Ele não veio. Tomei um melhoral e deitei-me novamente. Quando despertei o astro rei deslisava no espaço. A minha filha Vera Eunice dizia: — Vai buscar agua mamãe! (Carolina Maria de Jesus. Quarto de despejo — diário de uma favelada , 1993.)

Embora se trate de um texto escrito, é possível identificar nele marcas da oralidade, a exemplo do que se verifica em:

A “Quando despertei o astro rei deslisava no espaço.” (4º parágrafo)
B “Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela.” (1º parágrafo)
C “Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar.” (1º parágrafo)
D “Fui receber o dinheiro do papel. Recebi 65 cruzeiros.” (2º parágrafo)
E “A noite o peito doia-me. Comecei tussir.” (3º parágrafo)