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Há quase um século, os antropólogos estudam outras formas de vida, como Bronislaw Malinowski e os jardins, Edward Evans-Pritchard e o gado, Gregory Bateson e os golfinhos. Contudo, nas últimas décadas, os praticantes da antropologia têm ampliado as perspectivas que embasam suas etnografias, decentrando análises sobre agência e poder e advogando por uma antropologia mais-que-humana. Uma das viradas teóricas responsáveis por esse decentramento é a virada ontológica. Uma das contribuições feitas pela virada ontológica é:

A a crítica decolonial;
B a defesa da universalidade humana;
C o abandono de etnografias multiespécie;
D a tese da multiplicidade de mundos;
E a tese da similaridade dos sistemas de parentesco.

No capítulo Conflitos ambientais – a atualidade do objeto , Henri Acselrad afirma o seguinte: "O método requererá o esforço de não enfrentar em separado, por exemplo, a análise da questão da água da discussão das questões fundiárias, de articular a caracterização das dimensões físico-materiais com a explicitação das dimensões simbólicas associadas aos modos de representar o ‘meio’, ambos elementos indissociáveis na explicação das estratégias dos diferentes atores envolvidos nos processos conflitivos em causa” (Acselrad, 2004, p. 10-11). Como outros autores dedicados à antropologia do meio ambiente, Acselrad propõe que:

A a natureza seja deixada de fora dos conflitos sociais;
B a natureza não seja considerada um objeto pertinente da antropologia;
C o meio ambiente seja tratado como um objeto apolítico;
D a antropologia analise os conflitos sociais em torno da natureza;
E a antropologia abandone a etnografia nos estudos da natureza.

Beatriz Heredia e Moacir Palmeira são dois antropólogos brasileiros dedicados a etnografias da política. São inúmeras as suas publicações sobre eventos e o tempo da política. No artigo Os comícios e a política de facções , os autores tratam os comícios como “rituais”. "Um entendimento mais ‘completo’ de por que esse ‘jogo de força’ passa pelos comícios e não por outras formas de ajuntamento ou de comunicação política supõe uma análise tão exaustiva quanto possível desse ritual, situando-o no contexto em que ele é posto pelos que o realizam” (Palmeira e Heredia, 1995, p. 37). Analisar os comícios como rituais implica discutir:

A as bases econômicas da política;
B representações coletivas não contestadas;
C as regulações jurídicas das práticas políticas;
D o exercício de poder unilateral por parte dos partidos;
E a relação entre esses eventos excepcionais e o cotidiano.

No texto O que significa tornar-se outro? , a antropóloga Aparecida Vilaça argumenta que a experiência xamânica Wari' se caracteriza pela duplicidade corporal. No texto, Vilaça afirma: "O xamã caracteriza-se por possuir dois corpos simultâneos: um corpo humano visível pelos Wari', que se relaciona com eles normalmente, como membro de sua sociedade, e um corpo animal que ele percebe como humano, e que se relaciona com os demais animais daquela espécie também como membro da sua sociedade, que é como a sociedade Wari’" (Vilaça, 2000, p. 63). Com base na explicação de Aparecida Vilaça, é correto afirmar que:

A o corpo animal do xamã é uma ilusão criada pelo uso de substâncias alucinógenas, não tendo uma existência real;
B o xamã, ao se transformar em animal, abandona completamente sua identidade humana e se torna um membro da espécie animal;
C a relação do xamã com o corpo animal é puramente simbólica, representando a conexão espiritual com a natureza;
D o xamã utiliza o corpo animal como um disfarce para se aproximar dos animais e obter conhecimento sobre seus hábitos;
E o xamã experimenta a simultaneidade de dois corpos, o humano e o animal, cada um com sua própria agência e ponto de vista através de um processo de transformação corporal e de perspectiva.

No texto Populações indígenas, povos tradicionais e preservação na Amazônia , Manuela Carneiro da Cunha e Mauro de Almeida afirmam o seguinte: “Durante muito tempo, existiu entre antropólogos, conservacionistas, governantes e as próprias populações tradicionais aquilo que um antropólogo chamou, em outro contexto, de ‘mal-entendido útil’. Esse mal-entendido gira em torno do que se pode chamar de essencialização do relacionamento entre as populações tradicionais e o meio ambiente” (Cunha e Almeida, 2009, p. 13). Na base dessa essencialização está o mito:

A da evolução cultural humana;
B da superioridade das raças;
C da identidade étnica;
D do bom selvagem ecológico;
E do progresso tecnológico.

A noção de "fricção interétnica", desenvolvida por Roberto Cardoso de Oliveira, busca analisar as relações entre grupos indígenas e a sociedade nacional brasileira. Em um dos textos fundacionais do conceito, Estudo de áreas de fricção interétnica do Brasil , o autor define a fricção interétnica da seguinte forma: "Chamamos fricção interétnica o contato entre grupos tribais e segmentos da sociedade brasileira, caracterizados por seus aspectos competitivos e, no mais das vezes, conflituais, assumindo esse contato muitas vezes proporções ‘totais’, i.e., envolvendo toda a conduta tribal e não tribal que passa a ser moldada pela situação de fricção interétnica” (Oliveira, 1962, p. 86). Seguindo o autor, é correto definir a “fricção interétnica” como:

A a cooperação pacífica entre grupos indígenas e a sociedade nacional;
B a assimilação completa dos grupos indígenas pela sociedade nacional;
C as trocas culturais harmoniosas e equilibradas entre os grupos em contato;
D o isolamento e a falta de contato entre grupos indígenas e a sociedade nacional;
E as relações de competição e conflito entre grupos indígenas e segmentos da sociedade brasileira.

Em Rituais ontem e hoje , Mariza Peirano analisa o carnaval como um ritual que expressa as ambiguidades e os dilemas da sociedade brasileira. A autora destaca: "O carnaval produz uma realidade que desfaz o dia a dia em um processo violento de individualização” (Peirano, 2003, p. 26). De acordo com essa análise, o principal efeito do carnaval na sociedade brasileira consiste em:

A reforçar as hierarquias sociais existentes, consolidando as estruturas de poder;
B promover a homogeneização cultural, eliminando as diferenças e individualidades;
C reproduzir, de forma simbólica, as desigualdades presentes na sociedade;
D estimular o consumo e o espetáculo, desprovido de qualquer dimensão simbólica ou cultural;
E subverter temporariamente a ordem social, permitindo a expressão de identidades e comportamentos normalmente reprimidos.

Em Dois pequenos problemas com a lei terra intangível para os Kisêdjê , Marcela Coelho de Souza examina a conexão entre o povo Kisêdjê e a terra. A autora propõe o conceito de “terra intangível”, que desafia a compreensão ocidental de propriedade e posse. A autora argumenta que: " A despeito do possessivo na expressão nossa terra , não acredito que esta ‘terra’ de que estejam falando seja mais dócil ao instituto da propriedade e à medição e delimitação que ele implica. As imagens — legais ou científicas — de terra como bem imóvel ou substrato físico são analogias muito pobres para a compreensão do que está em jogo para os Kisêdjê” (Coelho de Souza, 2017, p. 123). A "terra intangível" para o povo Kisêdjê pode ser compreendida como:

A um espaço sagrado e intocável, onde a intervenção humana é proibida;
B uma propriedade individual de cada membro da comunidade Kisêdjê, que pode ser herdada e alienada de acordo com regras simbólicas de sucessão;
C um território definido por limites fixos e marcos geográficos, passível de ser delimitado em um mapa;
D uma área delimitada para a prática da agricultura intensiva, garantindo a segurança alimentar e o desenvolvimento econômico da comunidade;
E um entrelaçamento dinâmico de relações, histórias e memórias, fundamental para a identidade e a continuidade cultural do povo Kisêdjê.

O Ensaio sobre a dádiva de Marcel Mauss foi publicado originalmente na revista Année Sociologique (1923-1924), sendo considerado uma obra central para a teoria antropológica. A respeito das noções de dom, troca e reciprocidade mobilizadas no ensaio citado, é correto afirmar que:

A os contratos firmados entre diferentes clãs e tribos mediante a troca de presentes nas sociedades arcaicas configuravam um sistema de dons entre indivíduos que antecedia a economia de mercado;
B as trocas cerimoniais que materializavam os sistemas da dádiva eram uma forma de escambo de presentes e prestações de serviços úteis, com o fim de atender as necessidades materiais dos envolvidos;
C o sistema de reciprocidade inerente ao modelo de dom e contra-dom extrapolava a esfera econômica, apresentando-se como a materialização de dádivas altruístas inerentes à vida religiosa;
D a lógica tradicional das trocas pressupunha uma abstração simbólica dos bens e serviços em circulação, desassociando-os de seus proprietários e valorando-os por sua raridade ou natureza utilitária;
E a circulação de objetos, pessoas e serviços mobilizava também uma troca constante de matéria espiritual em um sistema em que tudo poderia ser objeto de troca e nada poderia ser recusado.

Para Sherry Ortner, o principal legado da antropologia geertziana tem sido a questão de como “os símbolos modelam os modos em que os atores sociais veem, sentem e pensam sobre o mundo ou, em outras palavras, como os símbolos operam enquanto veículos de ‘cultura’”. (Adaptado de Ortner, S. B. Teoria na antropologia desde os anos 60. In: Mana , 17(2), 2011, p. 421) Para Geertz, sistemas culturais como os calendários balineses são objeto de análise antropológica para:

A identificar o conjunto de oposições binárias que estruturam universalmente a percepção do tempo;
B compreender como padrões de significados dão sentido à conduta e às relações sociais de um grupo;
C explicar como a cultura legitima ações racionais com relação a fins, como no caso da divisão do tempo balinesa, voltada para uma maior produtividade agrícola;
D demonstrar a objetividade dos fenômenos culturais, que podem ser analisados por antropólogos não pertencentes à comunidade investigada;
E exemplificar a determinação biológica e a transmissão genética de estruturas culturais como a percepção do tempo entre os balineses.