Não o suficiente
Carla Dias
Sentado à mesa, cercado por tantos. Entende
bem o que acontece ali, mas é experiente em
enganar os próprios sentidos, mesmo não
gostando dessa qualidade da qual não consegue
se livrar. Vale-se dela sempre que a oportunidade
se apresenta. É um talento. Um incômodo talento.
Permanece ali, os braços cruzados, a cabeça
levemente inclinada, como se observasse o
cenário que se estende além.
Já conhece as manifestações que se
alardeiam, durante esses encontros sociais. Na
verdade, compôs uma canção, certa vez, com
uma inquietante letra gerada de combinações de
algumas delas: não cabe aqui, não serve para
isso, não orna com aquilo, não é sua culpa, mas
não vai dar certo.
É bom, só que não o suficiente.
Não ser o suficiente é meio que o slogan da
vida dele, alguém considerado nada suficiente,
até mesmo quando transborda. Acostumou-se a
ser visto dessa forma.
A tal canção tomou conta dele. É capaz
de cantá-la de trás para frente, formar novos
versos, bagunçar as palavras e, ainda assim,
elas continuam ridiculamente cruéis. A melodia,
não... Nela ele se recusa a mexer. Ela é a única
beleza que reina plena nesse baile da saudade
que acontece em seu dentro. Há ternura nessa
afiada melodia, ela que é a única cria da qual ele
não sente vergonha de ter trazido ao mundo.
Apegou-se a uma frase que escutou um alguém
verbalizar, enquanto passava por ele, depois de
um dia de inutilidades profissionais. “Equilibrar-se
é saber se desequilibrar com elegância.” Achou
aquilo de uma sabedoria profunda e profana. De
uma dualidade revigorante, porque se considera
equilibrado com a boca cheia de palavras
engolidas, de mágoas salientes, de lamentos
reverberantes. Daqueles que bufa, do nada,
assustando a pessoa que dorme sentada ao lado,
em alguma sala de espera da vida.
A elegância do desequilíbrio é o que mantém
à mesa. Ninguém ali se importa de fato com ele,
ou deseja escutar o que ele tem a dizer. Sabem
seu nome, porque saber o nome oferece pompa,
na hora de chamar o insignificante para o campo,
e que ele batalhe pelos que significam. É como
se chamassem um animal de estimação. Ele
atende, rasteja-se, servil, até eles. Atende aos
desejos desses sujeitos que acham que a própria
dignidade mora na indignidade do outro.
Os nada suficientes.
Estranhamente, essas pessoas significam
para ele. Há algo de aprendizado nessa labuta
de dissonantes inseguranças travestidas de
hierarquia. Estranhamente, ele se alimenta da
espera pelo dia em que, rebelde como jamais
antes, ele se levantará e partirá dali, deles.
Sumirá das vistas, das teias, das inseguranças
desses significantes que não sabem significar
sem desidentificar o outro.
Equilibrar-se ao desequilibrar-se com
elegância, para ele, é combater, na singeleza do
insignificante, uma diplomacia mimada, das que
atendem a todos os clichês abrandadores de malestar.
Então, quando dão a vez a ele, permitem
ao insuficiente se manifestar, ele sorri e se cala,
enquanto rumina a ciência de que, sim, ele sabe
que não é o suficiente, ao menos não para atender
ao catálogo dos desejos impróprios. Porque acha
de uma impropriedade sibilante ter de atender
aos desejos alheios, enquanto sufoca os próprios.
Ele sorri a certeza de que acontecerá o dia
em que ele os reconhecerá, os desejos que vem
diluindo em vulgares ironias, recebidas assim,
embrulhadas em pequenas doses de falseada
gentileza. O dia em que os libertará de uma
polidez adquirida como proteção e os soltará no
mundo, rebeldes e eletrizantes. Livres.
E isso será o suficiente. Ele será o
suficientemente corajoso para se despedir de
seus apaixonantes flagelos. Desequilibradamente
equilibrado, dará a vez a si.
Disponível em: < http://www.cronicadodia.com.br/2019/08/nao-o-suficiente-
carla-dias.html >. Acesso em: 16 nov. 2019.
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O bibliotecário recebe um documento, em uma unidade informacional, com a missão de realizar a indexação de assuntos desse documento. Com base no exposto, quais são as duas etapas principais que envolvem a indexação de assuntos?
Em relação ao código Q, assinale a alternativa que corresponde a “Parar de Transmitir”.
O ato de lavar as mãos é uma ação muito importante para diminuir os riscos de transmissão de microrganismos entre clientes, pacientes e profissionais de saúde. Sobre o tema, analise as assertivas e assinale a alternativa que aponta as corretas.
I. Ao utilizar luvas, o processo de lavagem é recomendado apenas após o uso das mesmas.
II. A execução de qualquer serviço farmacêutico deve ser precedida da antissepsia das mãos do profissional, independentemente do uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI).
III. É obrigatória a disponibilização de preparação alcoólica para fricção antisséptica das mãos.
IV. A fricção antisséptica das mãos com preparação alcoólica não substitui a higienização simples das mãos na presença de sujidade visível.
Assinale a alternativa que apresenta a dupla atribuição da função controle.
Uma solução, no sentido amplo, é uma
dispersão homogênea de duas ou mais
substâncias moleculares ou iônicas.
A maioria das análises é realizada com
soluções da amostra preparadas em um
solvente adequado. Sobre os aspectos
qualitativos e quantitativos do preparo de
soluções, assinale a alternativa correta.
Sobre a Esquizofrenia, assinale a alternativa correta, de acordo com o DSM-5.
Texto associado
A palavra destacada em “Estranhamente,
essas pessoas significam para ele. Há
algo de aprendizado nessa labuta de
dissonantes inseguranças travestidas
de hierarquia.”, poderia ser substituída,
sem alteração significativa de sentido no
contexto em que se insere, por
Uma criança tem as seguintes características: 7 anos, apresenta trocas na fala, vocabulário insuficiente, dificuldade em adquirir novas palavras, estruturação gramatical simplificada, pouco variada e de forma não usual, todavia com a compreensão adequada, audiometria com resultados normais, ausência de deficiência intelectual e motora, ausência de carência socioafetiva, bem como ausência de transtorno psicopatológico. Assinale o diagnóstico que melhor justifique esse caso.
Texto associado
Ser de
casa
Yuri Al'Hanati
O processo de
mudar de cidade se completa
quando a urgência de visitar um lugar novo
que
abriu se impõe sobre o desejo de
aclimatação.
Até então o que há é um estranhamento
cotidiano
que pede reconhecimento para se
desestranhar.
Caminhar por um bairro novo ao qual de
repente
se precisa ir – para uma consulta médica ou
outra
frivolidade qualquer – é uma novidade ao
qual
o migrante está acostumado. O oximoro parece
inadequado, mas o migrante o reconhece. Ter,
a
cada dia na nova urbe, algo diferente a se
explorar
é um fato que descamba para a banalidade
antes
que se perceba. Ainda assim, continua-se um
explorador da própria terra, na esperança de
que
possa chamá-la de própria terra o quanto
antes.
Alguém que se mude para uma cidade
nova
precisará, necessariamente e em primeiro
lugar,
encontrar âncoras em ruas desconhecidas.
Lugares de conveniência e refúgio da
estranheza,
úteis tanto para fixar a geografia quanto
para não
ser soterrado pela indiferença do espaço. Um
bar,
um banco, um mercado, uma farmácia, alguns
comércios benfazejos à manutenção da rotina,
por
mais aquebrantada que se encontre, enfim. Em
tais
âncoras a vida nativa começa a se
desenvolver, em
seu gérmen, no interior do migrante. É lá em
que
ele descobre idiossincrasias locais,
estabelece
relações comerciais duradouras, esboça suas
primeiras conversas fiadas e registra, para
os
locais, sua estrangeirice. Afixa sua
biografia
parcial para o improvisado parceiro de
cerveja,
confessa suas necessidades aos atendentes da
farmácia, passa itens domésticos básicos
pelos
caixas do mercado, enfim, diz ao mundo sobre
de
onde veio e para onde vai. Arruma alguns
amigos,
experimenta os mesmos caminhos em direção às
mesmas instituições e enfim, sente-se
aclimatado.
Ainda não.
É quando,
portanto, parte para a situação
descrita no começo do texto que a operação o
acomete. Agora não é mais a cidade que o
examina,
partícula invasora da mesmice, mas o
contrário. A
novidade deixa de ser um enfrentamento
diário e
passa a ser um acontecimento a ser
celebrado,
um fenômeno buscado voluntariamente por quem
já superou a repetição das gentes, a rigidez
do
mapa e agora precisa de mais. Tem tempo de
urbe o suficiente, inclusive, para
experimentar
um lugar novo como uma novidade de fato, e
não apenas como mais um dos tantos ainda não
visitados. Vivencia o novo de forma
coletiva,
junto aos nativos e, ao examinar em vez de
ser
examinado, se torna, ele também, um nativo.
Ao
fim, eis o que o torna uno com o todo: o
tédio
que exige notícia, a avaliação que o torna
parte
do conclave tácito de cidadãos.
Disponível em:
.Acesso em: 16
jul. 2019.
casa
Yuri Al'Hanati
O processo de
mudar de cidade se completa
quando a urgência de visitar um lugar novo
que
abriu se impõe sobre o desejo de
aclimatação.
Até então o que há é um estranhamento
cotidiano
que pede reconhecimento para se
desestranhar.
Caminhar por um bairro novo ao qual de
repente
se precisa ir – para uma consulta médica ou
outra
frivolidade qualquer – é uma novidade ao
qual
o migrante está acostumado. O oximoro parece
inadequado, mas o migrante o reconhece. Ter,
a
cada dia na nova urbe, algo diferente a se
explorar
é um fato que descamba para a banalidade
antes
que se perceba. Ainda assim, continua-se um
explorador da própria terra, na esperança de
que
possa chamá-la de própria terra o quanto
antes.
Alguém que se mude para uma cidade
nova
precisará, necessariamente e em primeiro
lugar,
encontrar âncoras em ruas desconhecidas.
Lugares de conveniência e refúgio da
estranheza,
úteis tanto para fixar a geografia quanto
para não
ser soterrado pela indiferença do espaço. Um
bar,
um banco, um mercado, uma farmácia, alguns
comércios benfazejos à manutenção da rotina,
por
mais aquebrantada que se encontre, enfim. Em
tais
âncoras a vida nativa começa a se
desenvolver, em
seu gérmen, no interior do migrante. É lá em
que
ele descobre idiossincrasias locais,
estabelece
relações comerciais duradouras, esboça suas
primeiras conversas fiadas e registra, para
os
locais, sua estrangeirice. Afixa sua
biografia
parcial para o improvisado parceiro de
cerveja,
confessa suas necessidades aos atendentes da
farmácia, passa itens domésticos básicos
pelos
caixas do mercado, enfim, diz ao mundo sobre
de
onde veio e para onde vai. Arruma alguns
amigos,
experimenta os mesmos caminhos em direção às
mesmas instituições e enfim, sente-se
aclimatado.
Ainda não.
É quando,
portanto, parte para a situação
descrita no começo do texto que a operação o
acomete. Agora não é mais a cidade que o
examina,
partícula invasora da mesmice, mas o
contrário. A
novidade deixa de ser um enfrentamento
diário e
passa a ser um acontecimento a ser
celebrado,
um fenômeno buscado voluntariamente por quem
já superou a repetição das gentes, a rigidez
do
mapa e agora precisa de mais. Tem tempo de
urbe o suficiente, inclusive, para
experimentar
um lugar novo como uma novidade de fato, e
não apenas como mais um dos tantos ainda não
visitados. Vivencia o novo de forma
coletiva,
junto aos nativos e, ao examinar em vez de
ser
examinado, se torna, ele também, um nativo.
Ao
fim, eis o que o torna uno com o todo: o
tédio
que exige notícia, a avaliação que o torna
parte
do conclave tácito de cidadãos.
Disponível em:
.Acesso em: 16
jul. 2019.