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Leia o trecho a seguir. Se, por um lado, o sonho é sempre desencadeado pela vontade de um outro, e o sonhador aparece como uma “presa”, uma vítima, alguém à mercê de um sentimento que lhe é alheio, por outro, o sonhador não está de forma alguma inteiramente subjugado aos sentimentos desse outro. Os vivos resistem aos apelos incessantes desses outros, e é porque resistem que eles podem continuar existindo como Yanomami. LIMULJA, Hanna. O desejo dos outros: Uma etnografia dos sonhos yanomami. São Paulo: Ubu Editora, 2022. O trecho acima apresenta um aspecto central da concepção Yanomami de sonho. Com base no texto, é correto afirmar que, para esse povo, os sonhos são

A manifestações do inconsciente individual, nas quais desejos reprimidos encontram expressão simbólica.
B realidades passageiras, às quais faltam o poder de afetar a existência material do indivíduo na vigília.
C processos psíquicos subconscientes, através dos quais o indivíduo elabora situações traumáticas.
D experiências espirituais, nas quais o indivíduo tem contato com o plano que rege sua vida de forma determinista.
E expressões de um embate, nas quais se chocam forças alheias e a insistência vital da pessoa.

[O] cenário muda radicalmente com a constatação de que os TupiGuarani eram capazes de produzir muito além dos níveis vitais. No que se refere a desenvolvimento, isso obriga a pensar nos nativos como produtores de excedentes, como produtores de riqueza – a tomá-los como base para a história [da riqueza no Brasil]. CALDEIRA , Jorge. História da riqueza no Brasil. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2017. O texto refere-se à mudança de entendimento sobre aspectos econômicos dos povos indígenas brasileiros, o qual carregava valor paradigmático. O trecho acima desafia o entendimento de que

A os indígenas viviam em uma economia voltada para a própria subsistência por incapacidade produtiva.
B a dinâmica social indígena era nômade, com migrações constantes em busca de novos recursos naturais.
C os povos nativos não possuíam técnicas agrícolas avançadas que desembocam em sociedades estratificadas.
D a relação entre indígenas e colonizadores foi marcada por trocas simbólicas mais do que por intercâmbio econômico.
E os Tupi-Guarani entendiam a terra como território coletivo, sem noção de propriedade individual.

No texto a seguir, o autor apresenta uma aparente contradição no discurso da modernidade. Se o “espírito” era “moderno”, ele o era na medida em que estava determinado que a realidade deveria ser emancipada da “mão morta” de sua própria história — e isso só poderia ser feito derretendo os sólidos (isto é, por definição, dissolvendo o que quer que persistisse no tempo e fosse infenso à sua passagem ou imune a seu fluxo). Lembremos, no entanto, que tudo isso seria feito não para acabar de uma vez por todas com os sólidos e construir um admirável mundo novo livre deles para sempre, mas para limpar a área para novos e aperfeiçoados sólidos. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2000. Nesse trecho, ele sugere que a modernidade

A rejeita as permanências e acaba criando um estado de fluxo contínuo sem criação de novas estruturas.
B define-se pela destruição das estruturas consolidadas do passado, mas acaba estabelecendo novas permanências.
C reafirma as estruturas tradicionais ao invés de transformá-las, ao contrário do que afirmam seus ideólogos.
D caracteriza-se pela criação de novas formas institucionais que reforçam a estabilidade social sem eliminar a tradição.
E objetiva a emancipação do homem, mas acaba criando uma servidão ainda maior do que a tradicional.

No texto O que significa tornar-se outro? , a antropóloga Aparecida Vilaça argumenta que a experiência xamânica Wari' se caracteriza pela duplicidade corporal. No texto, Vilaça afirma: "O xamã caracteriza-se por possuir dois corpos simultâneos: um corpo humano visível pelos Wari', que se relaciona com eles normalmente, como membro de sua sociedade, e um corpo animal que ele percebe como humano, e que se relaciona com os demais animais daquela espécie também como membro da sua sociedade, que é como a sociedade Wari’" (Vilaça, 2000, p. 63). Com base na explicação de Aparecida Vilaça, é correto afirmar que:

A o corpo animal do xamã é uma ilusão criada pelo uso de substâncias alucinógenas, não tendo uma existência real;
B o xamã, ao se transformar em animal, abandona completamente sua identidade humana e se torna um membro da espécie animal;
C a relação do xamã com o corpo animal é puramente simbólica, representando a conexão espiritual com a natureza;
D o xamã utiliza o corpo animal como um disfarce para se aproximar dos animais e obter conhecimento sobre seus hábitos;
E o xamã experimenta a simultaneidade de dois corpos, o humano e o animal, cada um com sua própria agência e ponto de vista através de um processo de transformação corporal e de perspectiva.

O Ensaio sobre a dádiva de Marcel Mauss foi publicado originalmente na revista Année Sociologique (1923-1924), sendo considerado uma obra central para a teoria antropológica. A respeito das noções de dom, troca e reciprocidade mobilizadas no ensaio citado, é correto afirmar que:

A os contratos firmados entre diferentes clãs e tribos mediante a troca de presentes nas sociedades arcaicas configuravam um sistema de dons entre indivíduos que antecedia a economia de mercado;
B as trocas cerimoniais que materializavam os sistemas da dádiva eram uma forma de escambo de presentes e prestações de serviços úteis, com o fim de atender as necessidades materiais dos envolvidos;
C o sistema de reciprocidade inerente ao modelo de dom e contra-dom extrapolava a esfera econômica, apresentando-se como a materialização de dádivas altruístas inerentes à vida religiosa;
D a lógica tradicional das trocas pressupunha uma abstração simbólica dos bens e serviços em circulação, desassociando-os de seus proprietários e valorando-os por sua raridade ou natureza utilitária;
E a circulação de objetos, pessoas e serviços mobilizava também uma troca constante de matéria espiritual em um sistema em que tudo poderia ser objeto de troca e nada poderia ser recusado.

Em um dos seus artigos, o antropólogo José Reginaldo Gonçalves discute os chamados “bens inalienáveis”. Diz ele: “Os interesses mobilizados pela possibilidade de comprar e vender livremente determinados bens eram vistos como um meio nefasto de descaracterização desses bens e de perda de sua autenticidade. A busca da autenticidade confundia-se, de certo modo, com uma constante e obsessiva proteção contra os efeitos de mercado.” Essa reflexão ajuda a problematizar a oposição entre as seguintes arenas de valoração:

A mercadorias e objetos sagrados;
B patrimônio e mercado;
C religião e laicidade;
D patrimônio e religião;
E rituais e mercado.