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Um professor do curso de licenciatura em teatro em um Instituto Federal, em uma aula de estágio supervisionado, precisa orientar um estagiário que relata: “Os meus alunos da 1ª série do ensino médio se recusam a participar de jogos teatrais porque veem a proposta como infantil”. Em defesa do jogo como fundamento das pedagogias do teatro, o professor se inspira na obra clássica Homo Ludens , de Johan Huizinga. Quanto à natureza do jogo e sua função sociopolítica, assinale a alternativa correta.

A Huizinga sustenta que o jogo é uma atividade puramente biológica e instintiva que deve ser superada para a vida adulta, já que a “seriedade” do trabalho e da ciência se opõe à gratuidade e ao prazer do fenômeno lúdico. Mas como a adolescência é uma fase de transição, a prática de jogos em sala de aula ainda é possível.
B Na visão do autor, o jogo tem um papel fundamental na vida humana e é considerado uma ação que ocorre em tempo e espaço limitados de um “círculo mágico”. Carrega uma seriedade intrínseca, podendo imergir e construir ordens culturais no jogador. Assim, o jogo em sala de aula, mesmo no ensino médio, é apropriado.
C Huizinga afirma que a educação pelo jogo também se faz para fins de ensino de outras disciplinas; dessa forma, o professor de teatro deve aproveitar a instrumentalidade do jogo para ajudar a ensinar conteúdos de outras matérias que caem no vestibular.
D O “círculo mágico” em Huizinga refere-se a uma barreira simbólica institucional que separa a escola do jogo. Nesse sentido, o jogo nas aulas de teatro aliena os alunos de sua realidade e, portanto, contribui para sua saúde mental.
E Para o autor, o jogo é caracterizado por sua utilidade material e econômica. Assim, a prática de teatro no Instituto Federal deve ser voltada para a profissionalização dos alunos para a indústria de recreação e entretenimento.

Em uma aula de Metodologias do Ensino de Teatro, no ensino superior, um grupo de alunos está elaborando um plano para uma oficina. O professor observa que o programa está confuso: eles estão sobrepondo o objetivo de “denunciar opressões” com a busca pela “memorização de textos clássicos” e “recriação espontânea”. Para orientar a reestruturação desse plano, o docente recomenda que o grupo decida por um referencial teórico fundamentado para a reorganização proposta. Com base nas pedagogias do teatro, assinale a alternativa que apresenta a orientação mais coerente nesse caso.

A Para ensaiar como as opressões reais são transformadas através da ação, o grupo pode referir-se ao Teatro do Oprimido e à figura do “espect-ator”, e, se estiver interessado em exercitar comportamento político e distanciamento crítico, as peças didáticas podem ser adotadas.
B Se quiserem abordar o rigor técnico da representação para o teatro infantil, a referência pode ser Peter Slade; se memorização de textos dramáticos clássicos como base fundamental para o jogo teatral é o que querem fazer, a concepção francesa do jogo dramático é a recomendada.
C Abordar a relação entre texto e jogo (Koudela), para a memorização de textos clássicos e, por outro lado, para promover a catarse emocional, bem como a identificação passiva do público com o herói proposta pelo Teatro do Oprimido.
D Se o objetivo da proposta é promover o entretenimento dos espectadores, recomendam-se as peças didáticas, mas, se o que se pretende é o treinamento de jovens atores para o mercado profissional, propõem-se treinamento de dicção e postura de Peter Slade.
E Se a oficina considera o jogo como ferramenta de aprendizagem de outras disciplinas escolares como história e geografia, sugere-se a concepção de jogo dramático francesa; se a oficina rejeita a improvisação e incentiva as técnicas virtuosas, sugere-se a relação entre texto e jogo (Koudela).

No cotidiano de um curso de licenciatura em teatro de um Instituto Federal, um docente utiliza o drama como método de ensino para investigar conflitos agrários da região. Após disparar a cena com um pretexto (uma carta de despejo), o professor entra na ficção assumindo o papel de um oficial de justiça. Com base nessa metodologia de ensino do teatro no Brasil, assinale a alternativa correta sobre a função do professor-personagem.

A Ao entrar em cena, o professor-personagem deve atuar como um diretor tradicional, ordenando e corrigindo a interpretação dos alunos.
B Essa técnica permite ao docente mediar o conflito “de dentro” da ficção, provocando o grupo a tomar decisões e aprofundar a investigação sem abandonar o plano do “como se”.
C O papel assumido pelo professor deve ser o de um líder heroico, visando dar o exemplo moral de conduta e evitar que os alunos se percam da narrativa durante o jogo.
D O professor-personagem, “de fora” da ação, funciona como um dispositivo de distanciamento, cujo objetivo é garantir que a atividade permaneça no campo do olhar investigativo.
E O docente deve evitar o uso dessa técnica no Instituto Federal, pois o envolvimento ficcional do professor retira a autoridade acadêmica necessária para avaliar o desempenho técnico dos futuros docentes.

Acerca das concepções pedagógicas que predominaram na área de arte/teatro em diferentes contextos até meados dos anos 2000, assinale a alternativa correta.

A Na concepção essencialista, o teatro era usado essencialmente para a aprendizagem de conteúdos de outras disciplinas.
B Na concepção instrumentalista, o foco estava no exercício da expressão livre, no desenvolvimento pessoal, na desinibição e na criatividade.
C Na concepção contextualista, defendia-se que o ensino deve equilibrar três pilares: fazer (prática), apreciar (ver teatro) e contextualizar (história e teoria).
D Na concepção de professor-artista/propositor, o teatro era entendido como uma linguagem que se aprende na interação com o outro. O jogo teatral era usado como um instrumento para desenvolver funções cognitivas e sociais.
E Na concepção sociointeracionista, o professor agia como um artista que propõe experiências estéticas. O ensino de teatro era entendido como uma forma de pesquisa e investigação do mundo através do corpo e da cena.

De acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), para que o ensino das artes seja integral, as práticas devem articular seis dimensões do conhecimento. Nessa perspectiva, um professor de teatro de um Instituto Federal, ao planejar uma unidade didática sobre Teatro Documentário, em seu plano de ensino, busca contemplar todas essas dimensões. Prevê momentos para que os estudantes: assistam trechos comentados do grupo “teatro Documentário” de SP (direção de Marcelo Soler); investiguem sensorialmente, em casa, arquivos pessoais e selecionem documentos de suas infâncias; improvisem, para a turma, cenas a partir do material levantado; debatam as cenas levantadas; organizem roteiros coletivamente a partir do que foi visto; criem mediações teatrais de desmontagem das cenas; realizem a desmontagem com a turma.

As dimensões da BNCC envolvidas no planejamento do professor são

A reflexão, estesia, criação, crítica, expressão e fruição.
B apenas investigação, experimentação e expressão.
C composição, julgamento, sensibilidade, exposição, entretenimento e pensamento.
D criação, crítica, estética, expressão, fruição e reflexão.
E apenas fazer, fruir e contextualizar.

No curso de licenciatura em teatro, foi ministrada uma aula teórico-prática de pedagogias contemporâneas do teatro, cujo tema era pedagogia em performance. Ao expandir o exercício performático para os arredores do campus , surge uma tensão entre dois grupos de estudantes: o primeiro grupo cria uma cena dramática improvisada com personagens fictícios representados em um espaço cênico delimitado como um palco italiano, e o segundo grupo realiza a ação baseada no “evento”, na presença do corpo e no engajamento direto com o espectador que passa. Posteriormente, em sala de aula novamente, o grupo discutiu acerca da ação realizada com base nos estudos sobre a pedagogia em performance. Acerca dessa práxis, assinale a alternativa correta.

A A pedagogia em performance é entendida como a dramatização de textos, memórias, gestos e/ou fragmentos de imagens e sons, portanto ambos os grupos realizaram o exercício de acordo com o tema da aula.
B A abordagem pedagógica em performance defende uma mudança de perspectiva: de “teatro-espetáculo” para “teatro-evento”. A experiência liminar e o corpo como repositório de memórias são levados a sério. Nesse sentido, apenas o segundo grupo realizou a culminância coerente ao tema da aula.
C A performance pedagógica é como uma espiral que neutraliza subjetividades e narrativas pessoais em favor da importância do rigor focado na cena. Nesse sentido, apenas o primeiro grupo performou conforme o tema estudado.
D No teatro performático escolar, deve-se evitar o diálogo com a realidade social do estudante, pois o corpus social pode suprimir a “presença” singular do estudante, que é pessoal e intransferível. Nesse sentido, nenhum dos grupos conseguiu realizar o exercício com coerência à pedagogia em performance.
E A performance na educação deve ser dissociada da categoria da “eficácia”, pois o comportamento restaurado, quando removido do ambiente ritual para o pedagógico, emerge como uma experiência meramente liminoide. Nesse sentido, não é possível avaliar qualquer forma de coerência entre o exercício proposto e a pedagogia em performance.

Embora o Teatro do Oprimido (TO) tenha sido sistematizado por Augusto Boal primordialmente como ferramenta de mobilização político-social em contextos não escolares, sua transposição para a educação básica tem se revelado uma tecnologia pedagógica potente. Nessa arquitetura metodológica, a fenomenologia da Árvore do TO estabelece uma hierarquia funcional na qual, para que os Ramos (como o Teatro-Fórum e o Teatro-Imagem) se efetivem como práxis de libertação, eles devem ser sustentados pela zona de mediação técnica denominada Tronco, que compreende

A os fundamentos éticos e políticos.
B os jogos e exercícios.
C a imagem, o som e a palavra.
D os fluxos de subjetividade e memória.
E as ações sociais concretas continuadas.

Conforme os Estudos da Recepção, as noções de formação de público e de formação de espectadores são distintas. A esse respeito, é correto afirmar que

A projetos de formação de público preocupam-se com a democratização do acesso aos bens culturais, enquanto projetos de formação de espectadores almejam a ampliação exponencial do telespectador.
B a formação de público preocupa-se com a formação qualitativa de plateias, enquanto a formação de espectadores almeja a ampliação gradual de plateias a cada geração, gerando uma “cultura a longo prazo” de acesso ao teatro.
C enquanto a formação de público diz respeito ao acesso físico de espectadores ao teatro, a formação de espectadores é almejada em projetos que promovam o acesso linguístico de espectadores à arte teatral.
D “formação de plateias” é sinônimo de “formação de espectadores”, enquanto “formação de público” diz respeito a ações culturais que fomentam o acesso à linguagem teatral.
E “formação de espectador” diz respeito à formação de capital cultural das grandes massas, enquanto “formação de público” associa-se ao desejo de deselitização do teatro, sendo este um papel do mediador teatral.

Considerando as teses de John Dewey na obra clássica Arte como experiência (1934) e sua contribuição para a compreensão do papel da arte como instrumento de aprendizagem na construção do conhecimento, assinale a alternativa INCORRETA.

A A experiência estética se consolida quando há uma unidade interna e um fechamento ( consummation ) que organizam o fluxo da vida.
B O aprendizado artístico requer a coordenação intrínseca entre o agir sobre a matéria ( doing ) e o perceber as consequências desse ato ( undergoing ).
C A arte atua como um recurso instrumental que transfigura materiais da vivência comum em significados compartilháveis e expressivos.
D A validade do fenômeno estético reside na capacidade de suspender as funções biológicas e práticas em prol de um estado de consciência puro e desinteressado.
E A dicotomia entre artes “úteis” e “belas-artes” é refutada por Dewey, que advoga pela continuidade entre a inteligência aplicada e a sensibilidade.