From Security to Efficiency: Modern Vessel Tracking
More so than many other fields of business, the
maritime industry is focused on cost, which in turn
gives the appearance of being conservative towards
technology. Certainly, we have technical ships
5 magnificently operating with equipment that wouldn’t
look out of place in a NASA lab, but generally, it can
take decades for a technology to become mainstream.
Unless it becomes mandated by the IMO (International
Maritime Organization). Vessel tracking is a partial
10 exception to the rule though, with many fleet owners
realizing its potential for more cost-effective operation
and personnel security.
Knowing the exact position of all vessels in a
fleet, in a software solution designed to fit with your
15 own logistical processes, can significantly improve
efficiency. If a ship arrives early or late, more often
than not there will be an associated cost. If this can
be identified during transit then the early or late arrival
can be negated or at least planned for. Likewise, if
20 by knowing the positions of your fleet of workboats
means that you can route the closest vessel to the
next job, then significant fuel cost savings can be
made. With modern tracking systems, the way data is
used is just as important as knowing where a vessel
25 is at all times. But there are countless ways to apply
the data to the benefit of efficiency for a single ship
or fleet. So providing easy and reliable access to
position reports is essential.
A new tracking unit
30 ___ RockFLEET is an advanced new tracking unit
for the professional maritime environment. During
its design phase, the team decided that in order for
the position data it provides to be of the most use,
as well as being available via Rock Seven’s own
35 fleet viewer ‘The Core,’ it must also be available in
any software system the user chooses. Using a
standards-based API (Application Programming
Interface), the customer can integrate tracking data
from RockFLEET into their own applications. Typically
40 this means that RockFLEET tracked assets can be
added to existing fleet management software, which
invariably is designed around an owner or operators
own logistics.
With precise vessel location data available,
45 the opportunities are unlimited and only down to the
creativity of the user. For instance, a current Rock
Seven customer uses location data to manage payroll
of personnel. Essentially, personnel get paid different
amounts depending on whether the ship is at sea, in
50 international waters, in port or transiting regions with
high piracy incidents.
RockFLEET, a unique device
The above user is a private security company
involved in anti-piracy operations. It actually gets
55 location data using RockSTAR, the handheld version
of RockFLEET, which is a new fixed unit that can be
fitted anywhere on board. Completely waterproof and
with no moving parts, it is a robust, ultra-compact
(13cm diameter/4cm high) device with multiple
60 mounting options. The physical design of RockFLEET
was in part driven by the security challenges faced by
vessels facing the issues of modern piracy.
The unit itself is designed to look anonymous;
as standard there’s no name on the outside. It works
65 from ship’s power, but it uniquely has a backup battery
inside. Which is important should a vessel be hijacked
and the main power cut.
Knowing the location of all friendly vessels in a
region is vital to organisations with a stake in ensuring
70 safe passage through known piracy hotspots. With an
operational vessel/fleet tracking system, ship owners
and fleet managers will know where their ships are at
all times. This information can be fed to authorities,
private anti-piracy companies and the naval forces
75 patrolling piracy hotspots to build a clear, near
real-time picture for domain awareness. The value of
this information should a vessel be hijacked is obvious:
knowing the last whereabouts of a vessel provides
responders with a starting point should a hijacked
80 vessel’s tracking system be disabled by pirates.
Today’s pirates know that many commercial
vessels are tracked, especially those would be targets
sailing in what are known to be hostile waters. So
disabling vessel tracking equipment on board is a
85 sensible action for said pirates after a hijacked ship’s
crew have been subdued and because most tracking
units are powered by the vessel, finding and cutting
the power supply isn’t hard. RockFLEET, however,
is the only device of its kind with an internal battery
90 backup, so it can continue to transmit position for up
to two weeks if external power is cut.
With facility to mount covertly, this makes it
especially suitable for vessels traversing piracy
hotspots.
Available at: .
Retrieved on: Jan, 7 th , 2015. Adapted.
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FAURGS
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FIOCRUZ
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MACKENZIE
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CETRO
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Um paciente de 72 anos, com insuficiência cardíaca congestiva, foi internado com edema dos membros inferiores e do abdome. Foi medicado, entre outras coisas, com furosemida, obtendo uma perda ponderal média de 2 kg por dia.
Foram realizados exames de sangue e de urina no 1º e no 7º dias de internação, e os resultados constam do quadro a seguir.
Sangue 1º dia
Sangue 7º dia
Urina 1º dia
Urina 7º dia
Volume ml
-
-
350
1.500
Sódio mEq/L
137
135
8
30
Potássio mEq/L
4,8
3,2
45
90
Bicarbonato mEq/L
22
30
-
-
Ureia mg%
65
182
-
-
Creatinina mg%
1,28
2,45
-
-
Analisando-se a evolução do paciente, conclui-se que
A vírgula foi utilizada de acordo com a norma-padrão da
língua portuguesa em:
Texto associado
In terms of pronominal reference, one observes that the word
O elemento que está presente em maior proporção no gás natural não associado é o
Texto associado
O suor e a lágrima
Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa,
quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora
o mais quente deste verão que inaugura o século e
o milênio. Cheguei ao Santos Dumont, o vôo estava
5 atrasado, decidi engraxar os sapatos. Pelo menos
aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem
nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.
Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica,
de coro de abadia pobre, que também pode parecer
10 o trono de um rei desolado de um reino desolante.
O engraxate era gordo e estava com calor — o
que me pareceu óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo
italiano, fabricante ilustre, os Rosseti. Uso-o pouco,
em parte para poupá-lo, em parte porque quando
15 posso estou sempre de tênis.
Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e co-
meçou seu ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe
a testa e a calva. Pegou aquele paninho que dá brilho
final nos sapatos e com ele enxugou o próprio suor,
20 que era abundante.
Com o mesmo pano, executou com maestria
aqueles movimentos rápidos em torno da biqueira,
mas a todo instante o usava para enxugar-se — caso
contrário, o suor inundaria o meu cromo italiano.
25 --- E foi assim que a testa e a calva do valente filho
do povo ficaram manchadas de graxa e o meu sapato
adquiriu um brilho de espelho à custa do suor alheio.
Nunca tive sapatos tão brilhantes, tão dignamente
suados
30 --- Na hora de pagar, alegando não ter nota menor,
deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espanta-
do, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o
que eu viesse a precisar nos restos dos meus dias.
Saí daquela cadeira com um baita sentimento
35 de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão
sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do
povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapa-
tos e tive vergonha daquele brilho humano, salgado
como lágrima.
CONY, C. H. In : NESTROVSKI, A. (Org.). Figuras do Brasil –
80 autores em 80 anos de Folha. São Paulo: Publifolha. 2001.
p. 319.
Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa,
quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora
o mais quente deste verão que inaugura o século e
o milênio. Cheguei ao Santos Dumont, o vôo estava
5 atrasado, decidi engraxar os sapatos. Pelo menos
aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem
nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.
Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica,
de coro de abadia pobre, que também pode parecer
10 o trono de um rei desolado de um reino desolante.
O engraxate era gordo e estava com calor — o
que me pareceu óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo
italiano, fabricante ilustre, os Rosseti. Uso-o pouco,
em parte para poupá-lo, em parte porque quando
15 posso estou sempre de tênis.
Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e co-
meçou seu ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe
a testa e a calva. Pegou aquele paninho que dá brilho
final nos sapatos e com ele enxugou o próprio suor,
20 que era abundante.
Com o mesmo pano, executou com maestria
aqueles movimentos rápidos em torno da biqueira,
mas a todo instante o usava para enxugar-se — caso
contrário, o suor inundaria o meu cromo italiano.
25 --- E foi assim que a testa e a calva do valente filho
do povo ficaram manchadas de graxa e o meu sapato
adquiriu um brilho de espelho à custa do suor alheio.
Nunca tive sapatos tão brilhantes, tão dignamente
suados
30 --- Na hora de pagar, alegando não ter nota menor,
deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espanta-
do, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o
que eu viesse a precisar nos restos dos meus dias.
Saí daquela cadeira com um baita sentimento
35 de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão
sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do
povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapa-
tos e tive vergonha daquele brilho humano, salgado
como lágrima.
CONY, C. H. In : NESTROVSKI, A. (Org.). Figuras do Brasil –
80 autores em 80 anos de Folha. São Paulo: Publifolha. 2001.
p. 319.
O sinal indicativo de crase está empregado conforme a norma-padrão em:
Os documentos de arquivo exigem cuidados específicos para não se deteriorarem. A luz direta, o ar seco, a umidade e a oscilação de temperatura são fatores prejudiciais aos documentos.
Considerando-se que a umidade relativa do ar, no interior de um arquivo, encontra-se entre 70% e 90%, o que pode acontecer com os documentos?
Texto associado
Texto II
Feliz por nada
Geralmente, quando uma pessoa exclama “Es-
tou tão feliz!”, é porque engatou um novo amor, con-
seguiu uma promoção, ganhou uma bolsa de estu-
dos, perdeu os quilos que precisava ou algo do tipo.
5 Há sempre um porquê. Eu costumo torcer para que
essa felicidade dure um bom tempo, mas sei que as
novidades envelhecem e que não é seguro se sentir
feliz apenas por atingimento de metas. Muito melhor
é ser feliz por nada.
10 Feliz por estar com as dívidas pagas. Feliz por-
que alguém o elogiou. Feliz porque existe uma pers-
pectiva de viagem daqui a alguns meses. Feliz porque
você não magoou ninguém hoje. Feliz porque daqui a
pouco será hora de dormir e não há lugar no mundo
15 mais acolhedor do que sua cama. Mesmo sendo mo-
tivos prosaicos, isso ainda é ser feliz por muito.
Feliz por nada, nada mesmo? Talvez passe pela
total despreocupação com essa busca.
Particularmente, gosto de quem tem compromis-
20 so com a alegria, que procura relativizar as chatices
diárias e se concentrar no que importa pra valer, e
assim alivia o seu cotidiano e não atormenta o dos
outros. Mas não estando alegre, é possível ser feliz
também. Não estando “realizado”, também. Estando
25 triste, felicíssimo igual. Porque felicidade é calma.
Consciência. É ter talento para aturar o inevitável, é
tirar algum proveito do imprevisto, é ficar debochada-
mente assombrado consigo próprio: como é que eu
me meti nessa, como é que foi acontecer comigo?
30 Pois é, são os efeitos colaterais de se estar vivo.
Benditos os que conseguem se deixar em paz.
Os que não se cobram por não terem cumprido suas
resoluções, que não se culpam por terem falhado,
não se torturam por terem sido contraditórios, não se
35 punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o
melhor que podem.
Se é para ser mestre em alguma coisa, então
que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do
pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao
40 mesmo tempo ser livre. Adequação à sociedade e li-
berdade simultaneamente? É uma senhora ambição.
Demanda a energia de uma usina. Para que se con-
sumir tanto?
A vida não é um questionário. Você não precisa
45 ter que responder ao mundo quais são suas qualida-
des, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho
seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se
autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-
-intencionado e que muda de opinião sem a menor
50 culpa.
Ser feliz por nada talvez seja isso.
MEDEIROS, Martha. Feliz por nada . Porto Alegre: L&PM, jul. 2011.
Feliz por nada
Geralmente, quando uma pessoa exclama “Es-
tou tão feliz!”, é porque engatou um novo amor, con-
seguiu uma promoção, ganhou uma bolsa de estu-
dos, perdeu os quilos que precisava ou algo do tipo.
5 Há sempre um porquê. Eu costumo torcer para que
essa felicidade dure um bom tempo, mas sei que as
novidades envelhecem e que não é seguro se sentir
feliz apenas por atingimento de metas. Muito melhor
é ser feliz por nada.
10 Feliz por estar com as dívidas pagas. Feliz por-
que alguém o elogiou. Feliz porque existe uma pers-
pectiva de viagem daqui a alguns meses. Feliz porque
você não magoou ninguém hoje. Feliz porque daqui a
pouco será hora de dormir e não há lugar no mundo
15 mais acolhedor do que sua cama. Mesmo sendo mo-
tivos prosaicos, isso ainda é ser feliz por muito.
Feliz por nada, nada mesmo? Talvez passe pela
total despreocupação com essa busca.
Particularmente, gosto de quem tem compromis-
20 so com a alegria, que procura relativizar as chatices
diárias e se concentrar no que importa pra valer, e
assim alivia o seu cotidiano e não atormenta o dos
outros. Mas não estando alegre, é possível ser feliz
também. Não estando “realizado”, também. Estando
25 triste, felicíssimo igual. Porque felicidade é calma.
Consciência. É ter talento para aturar o inevitável, é
tirar algum proveito do imprevisto, é ficar debochada-
mente assombrado consigo próprio: como é que eu
me meti nessa, como é que foi acontecer comigo?
30 Pois é, são os efeitos colaterais de se estar vivo.
Benditos os que conseguem se deixar em paz.
Os que não se cobram por não terem cumprido suas
resoluções, que não se culpam por terem falhado,
não se torturam por terem sido contraditórios, não se
35 punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o
melhor que podem.
Se é para ser mestre em alguma coisa, então
que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do
pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao
40 mesmo tempo ser livre. Adequação à sociedade e li-
berdade simultaneamente? É uma senhora ambição.
Demanda a energia de uma usina. Para que se con-
sumir tanto?
A vida não é um questionário. Você não precisa
45 ter que responder ao mundo quais são suas qualida-
des, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho
seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se
autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-
-intencionado e que muda de opinião sem a menor
50 culpa.
Ser feliz por nada talvez seja isso.
MEDEIROS, Martha. Feliz por nada . Porto Alegre: L&PM, jul. 2011.
O Texto II estabelece uma oposição entre as seguintes
ideias:
Texto associado
Entrevista com Frédéric Martel
Uma guerra mundial pelo conteúdo dos meios
de comunicação se trava pela conquista do público
dentro e fora dos países criadores. Batalhas se
desenrolam pelo domínio da notícia, do formato de
5 programas de TV e pela exibição de filmes, vídeos,
música, livros. Nesse processo, um gigante domina:
os Estados Unidos, com sua capacidade de produzir
cultura de massas que agrada ao grande público
em todos os continentes. Essa penetração cultural
10 americana, que muitos críticos preferem chamar de
imperialismo, leva os filmes, a música e a televisão
americana para o mundo. Sua arma é o inverso
da alta cultura, da contracultura, da subcultura, de
nichos especializados. Visa o público em geral,
15 cultura de massa, de milhões. Tornou-se a cultura
internacional dominante, principal, a chamada
mainstream, conforme o título do livro escrito pelo
sociólogo francês Frédéric Martel. Para escrever
Mainst ream , ele percorreu 30 países durante cinco
20 anos, entrevistou mais de 1.200 pessoas em todas
as capitais do entertainment , analisou a ação dos
protagonistas, a lógica dos grupos e acompanhou a
circulação internacional de conteúdo.
É um imperialismo diferente daquele político e
militar. É uma espécie de imperialismo cultural que
é bem recebido no mundo. A esse respeito, afirma
Frédéric Martel: “É o que basicamente chamamos
de soft power. Soft power significa influenciar as
pessoas com coisas legais. Você é amigável,
30 não é contundente. Você tem as forças armadas,
tem a diplomacia tradicional e grandes empresas
econômicas, que formam o hard power , e tem o soft
power, que influencia as pessoas através de filmes,
de livros, da internet e de valores.”
35 “A língua é importante. Eu acredito — e essa é
a principal conclusão do meu livro — que, no mundo
em que estamos entrando, que reúne globalização e
digitalização, a língua é importante. E eu acredito que
a batalha, a luta, mesmo a guerra de conteúdo, será
40 uma batalha a respeito da cultura nacional. Você pode
ouvir Lady Gaga, gostar de Avatar e ler O Código
Da Vinci, mas, no final das contas, a maior parte
da cultura que você consome e ama geralmente é
nacional, local, regional, e não global. A cultura global
45 é apenas uma pequena parte do que você gosta.
Então, no final das contas, os americanos são os
únicos a poder prover essa cultura dominante global,
mas essa cultura dominante global continua pequena.
Por quê? Porque a língua é muito importante,
50 porque a identidade é muito importante. Quando
você compra um livro de não ficção, quer saber o
que acontece aqui, no seu país, e não na Coreia do
Sul, por exemplo. Na Coreia do Sul você quer ouvir
K-pop, que é a música pop coreana, e ver um drama
55 coreano, e não ouvir uma música brasileira. Portanto,
nós estamos em um mundo cada vez mais global,
mas, ao mesmo tempo, a cultura ainda é e será muito
nacional. Para resumir as coisas, eu diria que todos
temos duas culturas: a nossa e a americana.”
60 “Nós, como europeus, temos o mesmo tipo de
relação que você, como brasileiro, tem com os EUA.
Nós os amamos e odiamos. É uma complicada relação
de amor e ódio. Nós esperamos que eles sejam
como são; nós queremos criticá-los, mas, ao mesmo
65 tempo, nós protestamos contra eles com tênis Nike
nos pés. Nós trabalhamos para ser um pouco como
eles, muito embora nós queiramos manter nossa
identidade e cultura. E, a propósito, a boa notícia é
que o debate no mundo hoje e no futuro não será
70 entre nós — brasileiros, franceses, europeus — e os
americanos. Será entre todos nós. O que eu quero
dizer é que hoje não há apenas dois povos: nós e os
EUA. O mundo é muito mais complicado, com países
emergentes, que serão fundamentais nesse novo
75 jogo.”
“Para resumir, afirma Martel, eu diria que os
EUA continuarão sendo peça importante da guerra
de conteúdo, podemos dizer, nos próximos anos e
décadas. Eu não acredito e não compro a ideia do
80 declínio da cultura americana. Eu acho que eles são
fortes e continuarão sendo fortes. Mas eles não são os
únicos no jogo. Agora temos os países emergentes,
que estão emergindo não só demográfica e
economicamente, como pensávamos. E eu fui um
85 dos primeiros a mostrar que eles estão emergindo
com sua cultura, sua mídia e com a internet.”
“Nesse mundo, a internet pode ser uma peça
importante. O Brasil, por exemplo, vai crescer com
a internet, com certeza. Criam-se ferramentas
90 inovadoras de alfabetização, por exemplo, em
comunidades, em favelas, em lugares onde os
moradores não têm acesso a uma livraria ou
biblioteca. Mas eles terão acesso à internet em lan
houses , por exemplo, e mesmo no telefone. Hoje,
95 todo mundo tem um telefone celular barato. Mesmo
na África, todos têm celulares com funções básicas.
Em cinco anos, todos terão um smartphone, pois os
preços estão caindo muito. Assim, todos poderão
acessar a internet pelo smartphone. Se você tem
100 acesso à internet, pode baixar livros, acessar a rede,
pode ver filmes e daí por diante.”
“A questão não é se essa tecnologia é boa,
conclui Martel. A questão é: ela não será boa ou
ruim sozinha. Ela será o que você, o povo, o governo
100 deste país e nós formos capazes de fazer com ela,
criando uma boa internet e uma maneira melhor de
ter acesso ao conteúdo através da internet.”
BOCCANERA, S. Entrevista concedida pelo sociólogo Frédéric Martel, Programa Milênio, Globo News . Disponível em: . Acesso em: 10 nov. 2015. Adaptado.
Uma guerra mundial pelo conteúdo dos meios
de comunicação se trava pela conquista do público
dentro e fora dos países criadores. Batalhas se
desenrolam pelo domínio da notícia, do formato de
5 programas de TV e pela exibição de filmes, vídeos,
música, livros. Nesse processo, um gigante domina:
os Estados Unidos, com sua capacidade de produzir
cultura de massas que agrada ao grande público
em todos os continentes. Essa penetração cultural
10 americana, que muitos críticos preferem chamar de
imperialismo, leva os filmes, a música e a televisão
americana para o mundo. Sua arma é o inverso
da alta cultura, da contracultura, da subcultura, de
nichos especializados. Visa o público em geral,
15 cultura de massa, de milhões. Tornou-se a cultura
internacional dominante, principal, a chamada
mainstream, conforme o título do livro escrito pelo
sociólogo francês Frédéric Martel. Para escrever
Mainst ream , ele percorreu 30 países durante cinco
20 anos, entrevistou mais de 1.200 pessoas em todas
as capitais do entertainment , analisou a ação dos
protagonistas, a lógica dos grupos e acompanhou a
circulação internacional de conteúdo.
É um imperialismo diferente daquele político e
militar. É uma espécie de imperialismo cultural que
é bem recebido no mundo. A esse respeito, afirma
Frédéric Martel: “É o que basicamente chamamos
de soft power. Soft power significa influenciar as
pessoas com coisas legais. Você é amigável,
30 não é contundente. Você tem as forças armadas,
tem a diplomacia tradicional e grandes empresas
econômicas, que formam o hard power , e tem o soft
power, que influencia as pessoas através de filmes,
de livros, da internet e de valores.”
35 “A língua é importante. Eu acredito — e essa é
a principal conclusão do meu livro — que, no mundo
em que estamos entrando, que reúne globalização e
digitalização, a língua é importante. E eu acredito que
a batalha, a luta, mesmo a guerra de conteúdo, será
40 uma batalha a respeito da cultura nacional. Você pode
ouvir Lady Gaga, gostar de Avatar e ler O Código
Da Vinci, mas, no final das contas, a maior parte
da cultura que você consome e ama geralmente é
nacional, local, regional, e não global. A cultura global
45 é apenas uma pequena parte do que você gosta.
Então, no final das contas, os americanos são os
únicos a poder prover essa cultura dominante global,
mas essa cultura dominante global continua pequena.
Por quê? Porque a língua é muito importante,
50 porque a identidade é muito importante. Quando
você compra um livro de não ficção, quer saber o
que acontece aqui, no seu país, e não na Coreia do
Sul, por exemplo. Na Coreia do Sul você quer ouvir
K-pop, que é a música pop coreana, e ver um drama
55 coreano, e não ouvir uma música brasileira. Portanto,
nós estamos em um mundo cada vez mais global,
mas, ao mesmo tempo, a cultura ainda é e será muito
nacional. Para resumir as coisas, eu diria que todos
temos duas culturas: a nossa e a americana.”
60 “Nós, como europeus, temos o mesmo tipo de
relação que você, como brasileiro, tem com os EUA.
Nós os amamos e odiamos. É uma complicada relação
de amor e ódio. Nós esperamos que eles sejam
como são; nós queremos criticá-los, mas, ao mesmo
65 tempo, nós protestamos contra eles com tênis Nike
nos pés. Nós trabalhamos para ser um pouco como
eles, muito embora nós queiramos manter nossa
identidade e cultura. E, a propósito, a boa notícia é
que o debate no mundo hoje e no futuro não será
70 entre nós — brasileiros, franceses, europeus — e os
americanos. Será entre todos nós. O que eu quero
dizer é que hoje não há apenas dois povos: nós e os
EUA. O mundo é muito mais complicado, com países
emergentes, que serão fundamentais nesse novo
75 jogo.”
“Para resumir, afirma Martel, eu diria que os
EUA continuarão sendo peça importante da guerra
de conteúdo, podemos dizer, nos próximos anos e
décadas. Eu não acredito e não compro a ideia do
80 declínio da cultura americana. Eu acho que eles são
fortes e continuarão sendo fortes. Mas eles não são os
únicos no jogo. Agora temos os países emergentes,
que estão emergindo não só demográfica e
economicamente, como pensávamos. E eu fui um
85 dos primeiros a mostrar que eles estão emergindo
com sua cultura, sua mídia e com a internet.”
“Nesse mundo, a internet pode ser uma peça
importante. O Brasil, por exemplo, vai crescer com
a internet, com certeza. Criam-se ferramentas
90 inovadoras de alfabetização, por exemplo, em
comunidades, em favelas, em lugares onde os
moradores não têm acesso a uma livraria ou
biblioteca. Mas eles terão acesso à internet em lan
houses , por exemplo, e mesmo no telefone. Hoje,
95 todo mundo tem um telefone celular barato. Mesmo
na África, todos têm celulares com funções básicas.
Em cinco anos, todos terão um smartphone, pois os
preços estão caindo muito. Assim, todos poderão
acessar a internet pelo smartphone. Se você tem
100 acesso à internet, pode baixar livros, acessar a rede,
pode ver filmes e daí por diante.”
“A questão não é se essa tecnologia é boa,
conclui Martel. A questão é: ela não será boa ou
ruim sozinha. Ela será o que você, o povo, o governo
100 deste país e nós formos capazes de fazer com ela,
criando uma boa internet e uma maneira melhor de
ter acesso ao conteúdo através da internet.”
BOCCANERA, S. Entrevista concedida pelo sociólogo Frédéric Martel, Programa Milênio, Globo News . Disponível em: . Acesso em: 10 nov. 2015. Adaptado.
O 6 o parágrafo do texto pode ser sintetizado em:
Texto associado
O velho olhando o mar
Meu carro para numa esquina da praia de Co-
pacabana às 9h30 e vejo um velho vestido de bran-
co numa cadeira de rodas olhando o mar a distân-
cia. Por ele passam pernas portentosas, reluzentes
5 cabeleiras adolescentes e os bíceps de jovens sur-
fistas. Mas ele permanece sentado olhando o mar a
distância. [...]
O carro continua parado, o sinal fechado e o es-
tupendo calor da vida batia de frente sobre mim. Tudo
10 em torno era uma ávida solicitação dos sentidos. Por
isso, paradoxalmente, fixei-me por um instante na-
quele corpo que parecia ancorado do outro lado das
coisas. E sem fazer qualquer esforço comecei a ima-
giná-lo quando jovem. É um exercício estranho esse
15 de começar a remoçar um corpo na imaginação, inje-
tar movimento e desejo nos seus músculos, aceleran-
do nele, de novo, a avareza de viver cada instante.
A gente tem a leviandade de achar que os velhos
nasceram velhos, que estão ali apenas para assistir
20 ao nosso crescimento. Me lembro que, menino, ao
ver um velho parente relatar fatos de sua juventude,
tinha sempre a sensação de que ele estava inventan-
do uma estória para me convencer de alguma coisa.
No entanto, aquele velho que vejo na esquina da
25 praia de Copacabana deve ter sido jovem algum dia,
em alguma outra praia, nos braços de algum amor,
bebendo e farreando irresponsavelmente e achando
que o estoque da vida era ilimitado.
Teria ele algum desejo ao olhar as coxas das ba-
30 nhistas que passam? Olhando alguma delas teria se
posto a lembrar de outros corpos que conheceu? Os
que por ele passam poderiam supor que ele fazia ma-
ravilhas na cama ou nas pistas de dança? [...]
Ele está ali, eu no meu carro, e me dou conta
35 de que um número crescente de amigos e conheci-
dos tem me pronunciado a palavra “aposentadoria”
ultimamente. Isso é uma síndrome grave. Em breve
estarei cercado de aposentados e forçosamente me
aposentarão. Então, imagino, vou passear de short
40 branco e boné pelo calçadão da praia, fingindo ser
um almirante aposentado, aproveitando o sol mais
ameno das 9h30 até cair sentado numa cadeira e fi-
car olhando o mar. [...]
Meu carro, no entanto, continua parado no sinal
45 da praia de Copacabana. O carro apenas, porque a
imaginação, entre o sinal vermelho e o verde, via-
jou intensamente. Vou ter de deixar ali o velho e sua
acompanhante olhando o mar por mim. Vou viver a
vida por ele, me iludir de que no escritório transformo
50 o mundo com telefonemas, projetos e papéis. Um dia
talvez esteja naquela cadeira olhando o mar a distân-
cia, a vida distante.
Mas que ao olhar para dentro eu tenha muito que
rever e contemplar. Nesse caso não me importarei
55 que o moço que estiver no seu carro parado no sinal
imagine coisas sobre mim. Estarei olhando o mar, o
mar interior, e terei navegantes alegrias que nenhum
passante compreenderá.
SANT’ANNA, A. R. Coleção melhores crônicas – Affonso Romano de Sant’Anna. Seleção e prefácio: Letícia Malard. São Paulo: Global, 2003.
Meu carro para numa esquina da praia de Co-
pacabana às 9h30 e vejo um velho vestido de bran-
co numa cadeira de rodas olhando o mar a distân-
cia. Por ele passam pernas portentosas, reluzentes
5 cabeleiras adolescentes e os bíceps de jovens sur-
fistas. Mas ele permanece sentado olhando o mar a
distância. [...]
O carro continua parado, o sinal fechado e o es-
tupendo calor da vida batia de frente sobre mim. Tudo
10 em torno era uma ávida solicitação dos sentidos. Por
isso, paradoxalmente, fixei-me por um instante na-
quele corpo que parecia ancorado do outro lado das
coisas. E sem fazer qualquer esforço comecei a ima-
giná-lo quando jovem. É um exercício estranho esse
15 de começar a remoçar um corpo na imaginação, inje-
tar movimento e desejo nos seus músculos, aceleran-
do nele, de novo, a avareza de viver cada instante.
A gente tem a leviandade de achar que os velhos
nasceram velhos, que estão ali apenas para assistir
20 ao nosso crescimento. Me lembro que, menino, ao
ver um velho parente relatar fatos de sua juventude,
tinha sempre a sensação de que ele estava inventan-
do uma estória para me convencer de alguma coisa.
No entanto, aquele velho que vejo na esquina da
25 praia de Copacabana deve ter sido jovem algum dia,
em alguma outra praia, nos braços de algum amor,
bebendo e farreando irresponsavelmente e achando
que o estoque da vida era ilimitado.
Teria ele algum desejo ao olhar as coxas das ba-
30 nhistas que passam? Olhando alguma delas teria se
posto a lembrar de outros corpos que conheceu? Os
que por ele passam poderiam supor que ele fazia ma-
ravilhas na cama ou nas pistas de dança? [...]
Ele está ali, eu no meu carro, e me dou conta
35 de que um número crescente de amigos e conheci-
dos tem me pronunciado a palavra “aposentadoria”
ultimamente. Isso é uma síndrome grave. Em breve
estarei cercado de aposentados e forçosamente me
aposentarão. Então, imagino, vou passear de short
40 branco e boné pelo calçadão da praia, fingindo ser
um almirante aposentado, aproveitando o sol mais
ameno das 9h30 até cair sentado numa cadeira e fi-
car olhando o mar. [...]
Meu carro, no entanto, continua parado no sinal
45 da praia de Copacabana. O carro apenas, porque a
imaginação, entre o sinal vermelho e o verde, via-
jou intensamente. Vou ter de deixar ali o velho e sua
acompanhante olhando o mar por mim. Vou viver a
vida por ele, me iludir de que no escritório transformo
50 o mundo com telefonemas, projetos e papéis. Um dia
talvez esteja naquela cadeira olhando o mar a distân-
cia, a vida distante.
Mas que ao olhar para dentro eu tenha muito que
rever e contemplar. Nesse caso não me importarei
55 que o moço que estiver no seu carro parado no sinal
imagine coisas sobre mim. Estarei olhando o mar, o
mar interior, e terei navegantes alegrias que nenhum
passante compreenderá.
SANT’ANNA, A. R. Coleção melhores crônicas – Affonso Romano de Sant’Anna. Seleção e prefácio: Letícia Malard. São Paulo: Global, 2003.