O bem e o _________ do estrangeirismo O terror dos puristas da língua em Portugal é um youtuber nascido e criado no Engenho Novo, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro: Luccas Neto. Dono do canal infantil Luccas Toon, o carioca também é um hit entre as crianças portuguesas. Em novembro do ano passado, um jornal lisboeta publicou uma matéria reclamando que os miúdos de lá estão cada vez mais a falar “brasileiro”, de tanto assistir Luccas e outros influenciadores daqui. “Dizem ‘grama’ em vez de relva, autocarro é ‘ônibus’, rebuçado é ‘bala’, riscas são ‘listras’ e leite está na ‘geladeira’ em vez de no ‘frigorífico’”, alertou o jornal. “Os educadores notam-no sobretudo depois do confinamento — à conta de muitas horas de exposição a conteúdos feitos por youtubers brasileiros.” Pais e educadores portugueses estão preocupados, mas talvez não devessem levar o caso tão a sério. Afinal, mais do que o jeitinho de falar de sua antiga colônia, os lusos usam e abusam de palavras do francês e do inglês — e aí sem a mesma vergonha. O lado negativo do estrangeirismo nem está exatamente na substituição de termos, como rooftop no lugar de “terraço”, por exemplo. O problema é quando, no ________ de pegar algo emprestado de uma língua de fora, deturpamos a lógica da nossa. Um exemplo? Brasileiros têm falado e escrito “eventualmente” no sentido de “mais cedo ou mais tarde”, porque esse é o significado de eventually (inglês). Só que o nosso “eventualmente” sempre quis expressar uma possibilidade, algo que pode ou não ocorrer ou que acontece ocasionalmente. O estrangeirismo, de qualquer maneira, é sempre __________ quando facilita a comunicação. Se eu disser para minha mãe, de 76 anos, que me atrasei para visitá-la porque passei no shopping center para comprar um tablet para minha filha, a senhorinha vai entender na hora. Ela mesma tem um tablet — que não saberia chamar de outra coisa, porque já ganhou com esse nome. E se, em vez de shopping center, eu dissesse que fui a um “centro de compras”, ela poderia ficar com a impressão de que fui a qualquer lugar de bastante comércio… menos a um shopping. Da mesma forma, não há brasileiro vivo que ignore o sentido de trabalhar em home office. Um “escritório em casa” soa esquisito. Já “home office” a gente entende como uma alternativa ao trabalho presencial. Os exageros no estrangeirismo tendem a passar, como as paletas mexicanas, mas o uso que facilita a comunicação vai vingar sempre. E a língua portuguesa no Brasil — que os portugueses chamam pejorativamente de “brasileiro” — vai continuar se enriquecendo com palavras e expressões que não teriam como surgir por aqui.
Fonte: Superinteressante. Adaptado.
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