Atenção : Leia o trecho do romance Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato, para responder às questões de números 1 a 6.
Nós poderíamos ter sido grandes amigos.
Eu o convidaria para um jantar sábado à noite, aqui em nosso apartamento, serviríamos um magnífico pernil de cordeiro acomodado em ramos de alecrim, um honesto Quínia da Bacalhoa, e ouviríamos, encantados, o último disco do Chica Buarque, uma coletânea da Dinah Washington, uma outra cantora que agora me foge o nome, adquirida na Tower Records, em Londres.
Seríamos apresentados à sua esposa, já vislumbrada rapidamente na piscina, e, uma ou duas taças, deixaríamos o sofá de veludo espanhol amarelo pelas duras e ásperas cadeiras de palha da cozinha, não tão grande quanto era nosso desejo, para ajudar à Célia, avental molivos-surrealistas, cuidando do assado e da salada. Eu lavaria a louça, ele e a mulher arrumariam a mesa, toalha, talheres, copos, descansos. Após o jantar, de novo esparramados no conforto da sala, nos perderíamos no turbilhão das conversas e, madrugada, quando já nem mais ânimo tivéssemos para trocar o cedê, a rua ausente de carros, uma leve culpa por as crianças estarem na casa de algum coleguinha ou de parentes, se imiscuiria em nosso último assunto, e nos despediríamos, prometendo nos frequentar com alguma assiduidade.
O tempo solidificaria a relação.
Trocaríamos e-mails e encheríamos o computador de spams, correntes-da-felicidade, abaixo-assinados, alertas sobre a descoberta de novos vírus, as mais recentes modalidades de crimes, fotos indecentes, charges e até mesmo endereços interessantes, lojas virtuais de cedês e de livros, e descobriríamos afinidades que insuspeitávamos, e toda sexta-feira nos encontraríamos para o happy hour num barzinho da Lapa, “o melhor tira-gosto de São Paulo”, e revelaríamos que a escola das crianças não é tão boa quanto imaginávamos, e confessaríamos que ambos mentíamos para os amigos sobre aventuras extraconjugais, e que, embora a colega assistente da diretoria existisse, a única vez que falei com ela foi para me desculpar por ter derrubado sua sobremesa no chão do refeitório, e chegaríamos em casa recendendo a álcool, e as mulheres reclamariam e diriam que “Homem é tudo igual”, e no dia seguinte, sábado, acordaríamos cedo para comprar peixe e verduras no Mercado Municipal. Mas nós não nos conhecíamos Nos vimos algumas vezes no elevador de serviço, a caminho da garagem do prédio, uma ou outra vez na piscina, ele lendo a Veja, eu nadando com a Joana e o Afonsinho.
(Adaptado de: RUFFATO, Lulz. Eles eram muitos cavalos. São Paulo: Companhia das Letras, 2013)
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